“O Telefone Negro 2”: uma história sobre trauma

Um passeio entre o giallo e o horror oitentista em uma história sangrenta, mas pouco mortal
O Telefone Negro 2 O Telefone Negro 2
"O Telefone Negro 2" (2025), de Scott Derrickson

Não basta sobreviver a um acontecimento traumático; é preciso conviver com ele durante o resto da vida.

Em “O Telefone Negro 2”, reencontramos os irmãos Gwen (Madeleine McGraw) e Finney (Mason Thames) cinco anos após os acontecimentos do primeiro filme. A narrativa mostra-nos que a morte do sequestrador mascarado não foi suficiente para devolver a paz a Finney, que se tornou consideravelmente mais violento.

Quando pesadelos envolvendo três rapazes assassinados começam a provocar episódios de sonambulismo em Gwen, ela inicia uma investigação e descobre uma série de homicídios que terão ocorrido trinta anos antes numa colónia de férias cristã próxima da cidade onde vivem. Descobre também que a sua mãe ali teria trabalhado durante a adolescência.

Assim, a narrativa alterna entre o presente e as visões de Gwen, que gradualmente revelam detalhes sobre um campo de Inverno na década de 1950. Imagens que surgem inicialmente sob a forma de pesadelos, mas que acabam por “transbordar” para o presente, trazendo consequências perigosas, pistas sobre o passado e referências evidentes a Freddy Krueger.

Desta forma, o percurso da mãe dos irmãos revela-se cada vez mais ligado aos assassinatos, estabelecendo ligações naturais com o assassino mascarado. A estrutura alterna entre o passado de 1958, que fornece pistas para a resolução do crime, e o presente de 1983, onde a sobrevivência dos rapazes está em jogo.

A produção recorre a diferentes soluções estéticas para marcar cada período temporal. As sequências situadas na década de 1950 utilizam Super 8 e Super 16, uma opção que confere à imagem uma textura mais granulada, movimentos de câmara instáveis e imperfeições próprias de uma película mal preservada. Mais do que uma escolha visual, trata-se de uma metáfora para a reconstrução da memória.

Já nas cenas passadas no presente, protagonizadas pelos irmãos, a imagem surge em alta definição. Ainda assim, predominam cabanas escuras iluminadas por cores intensas e monocromáticas, variando entre o branco, o vermelho e o azul néon. São decisões estéticas que evocam o giallo italiano, género que também exerceu forte influência sobre o cinema de terror da década de 1980, incluindo “Pesadelo em Elm Street”.

O argumento apresenta elementos que parecem retirados dos ataques mais perturbadores de Freddy Krueger, incluindo interacções entre o mundo dos sonhos e a realidade. No entanto, apesar de toda a construção violenta e gore, o filme assume uma abordagem muito mais sobrenatural do que a do seu antecessor e, na prática, o resultado acaba por ser menos mortífero do que inicialmente sugere.

O Telefone Negro 2
“O Telefone Negro 2”: uma história sobre trauma
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3.5