“Ler Lolita em Teerão”: do livro ao filme as diferentes formas de ler e ver

Livro e filme partilham a denúncia da opressão no Irão pós-revolucionário, mas divergem no modo como representam a experiência feminina, a memória e o papel da literatura como forma de resistência
Ler Lolita em Teerão Ler Lolita em Teerão
“Ler Lolita em Teerão” (2024), de Eran Riklis

A adaptação cinematográfica de “Ler Lolita em Teerão” nasce inevitavelmente marcada por uma tensão de olhares: o olhar interior, íntimo e literário de Azar Nafisi, e o olhar exterior, reconstruído, de Eran Riklis — um realizador israelita cuja posição no mapa político do Médio Oriente não pode ser ignorada, mesmo quando o filme tenta, com cuidado, não a transformar em protagonista. Esta fricção entre perspectivas é, aliás, o que torna a comparação entre livro e filme tão reveladora: ambos falam de vigilância, opressão e resistência feminina, mas fazem-no a partir de geografias éticas diferentes.

O livro de Nafisi é, antes de mais, um espaço interior. Um quarto fechado onde sete mulheres lêem Nabokov, Fitzgerald ou Austen como quem respira oxigénio clandestino. A força do texto está na sua intimidade: a literatura funciona como lente, mas também como refúgio, como forma de reorganizar o mundo quando o mundo se torna ilegível. A autora escreve a partir da memória e da ferida, e por isso o livro é menos um relato histórico do Irão pós-revolucionário e mais um ensaio sobre a sobrevivência emocional. A política está sempre presente, mas nunca como espetáculo — é uma pressão atmosférica, uma sombra que molda gestos, silêncios, roupas, desejos.

O filme de Riklis, pelo contrário, desloca o eixo da narrativa para o exterior. A intimidade do livro é substituída por uma cronologia mais ampla, que começa em 1979 e acompanha Nafisi ao longo de décadas. A câmara insiste na rua, na universidade, nos corredores onde a moralidade é policiada. A opressão deixa de ser uma sensação e torna-se imagem. Esta mudança não é apenas estética: é também ideológica. Ao transformar o invisível em visível, o filme aproxima-se de um discurso mais universalista sobre regimes autoritários, menos enraizado na experiência específica das mulheres iranianas e mais preocupado em construir uma narrativa histórica acessível ao público ocidental.

É aqui que a identidade do realizador entra em jogo — não como acusação, mas como contexto. Riklis, israelita, trabalha sobre um país com o qual o seu próprio Estado mantém uma relação de hostilidade estrutural. Não se trata de reduzir o filme a propaganda — até porque Riklis tem um historial de obras críticas, humanistas, frequentemente solidárias com figuras marginalizadas no Médio Oriente. Mas a sua posição exterior ao Irão, e exterior à experiência feminina iraniana, condiciona inevitavelmente o tipo de história que escolhe contar. O filme tende a universalizar o sofrimento, enquanto o livro o particulariza. O filme dramatiza; o livro interioriza. O filme denuncia; o livro testemunha.

No fim, a adaptação não trai completamente o espírito do livro — mas também não o reproduz. São obras que coexistem em tensão. O livro fala de dentro para dentro; o filme fala de fora para fora. O livro é uma memória; o filme é uma interpretação. E talvez seja precisamente essa distância — cultural, política, estética — que torna a comparação tão fértil: Ler Lolita em Teerão é, afinal, uma obra sobre a leitura. E o filme, com todas as suas diferenças, é apenas mais uma forma de ler o que Nafisi escreveu.

Ler Lolita em Teerão
“Ler Lolita em Teerão”: do livro ao filme as diferentes formas de ler e ver
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