Competição da 70° Berlinale aponta novos caminhos para o festival alemão

Festival deixa o tema de lado e coloca Kelly Reichardt, Christian Petzold, Hong Song-soo, Abel Ferrara, Philippe Garrel e Tsai Ming-Liang numa seleção que promete ser uma das mais interessantes dos últimos anos da Berlinale.

“Você precisa de um tema?” respondeu quase impaciente Carlo Chatriani esta manhã após divulgação da lista completa dos filmes em competição da 70.° Berlinale. A resposta meio malcriada do novo diretor artístico da Berlinale provocou risos na conferência de imprensa e foi dirigida a um jornalista que perguntava o porquê de a seleção oficial não ter uma tema a ligar os filmes como aconteceu nas edições anteriores. “Se você realmente precisa de um tema, eu posso lhe ajudar a encontrar um” emendou o diretor do festival e logo depois explicou que eles não estavam nem um pouco interessados em se focar num tema como ponto de partida para a escolha dos filmes, visto que “isso pode tornar-se numa armadilha”.

Chatriani e a sua diretora executiva Mariette Rissenbeek divulgaram nesta manhã de quarta-feira os 18 títulos que compõem a mostra competitiva da edição do festival que acontece entre 20 de Fevereiro e 1 de Março.

Ter deixado de lado o carimbo do “festival do tema” parece ter sido uma solução acertada dos novos diretores. A Berlinale vinha enfrentando uma certa crise na sua mostra competitiva há alguns anos. O imbróglio atingiu o seu clímax quando em 2017 um grupo de cineastas e personalidades alemãs publicaram uma carta aberta no Der Spiegel pedindo a substituição de Kosslick e um “novo começo” para o festival.

Com a divulgação hoje da lista dos filmes em competição, os novos diretores parecem estar atentos às críticas dirigidas ao seu predecessor e se mostram preocupados em apresentar filmes que sejam “fortes o suficiente para estar em competição”.

Num outro momento da conferência, uma outra jornalista relembrava o legado feminista e o acordo de paridade 50/50 proposta por Kosslick em 2019 e reclamava que só cinco dos dezoito filmes apresentados foram realizados por mulheres. “Os filmes foram escolhidos simplesmente pela suas qualidades artísticas” se defendeu o italiano; e acrescentou que produzir um filme é um trabalho coletivo e que o mais importante é construir uma conscientização pública em torno do tema do que focar numa única figura feminina por trás da câmara.
Chatriani, aliás, fez uma entusiasmada apresentação do filme de Eliza Hitman Never Rarely Sometimes Always acrescentando que é um filme que “tem tudo para ser um novo modelo de cinema feminista”.

Outros nomes de peso como Kelly Reichardt, Philippe Garrel e Tsai Ming-Liang se juntam aos habituais novatos e desconhecidos, marca registrada da competição do festival berlinense, e que prometem uma lufada de ar fresco nesta nova fase do festival.

O ator inglês Jeremy Irons presidirá o júri e a sua conterrânea Helen Mirren será a grande homenageada com o Urso de Ouro honorário seguido de uma retrospectiva dos seus filmes mais importantes. A lista completa dos filmes em competição segue abaixo.


Filmes em Competição
Berlin Alexanderplatz, de Burhan Qurbani
DAU. Natasha, de Ilya Khrzhanovskiy e Jekaterina Oertel
Domangchin Yeoja (The Woman Who Ran), de Hong Sang-soo
Effacer L’historique (Delete History), de Benoît Delépine e Gustave Kervern
El Prófugo (The Intruder), de Natalia Meta
Favolacce (Bad Tales), de Damiano e Fabio D’Innocenzo
First Cow, de Kelly Reichardt
Irradiés (Irradiated), de Rithy Panh
Le Sel Des Larmes (The Salt of Tears), de Philippe Garrel
Never Rarely Sometimes Always, de Eliza Hittman
Rizi (Days), de Tsai Ming-Liang
The Roads Not Taken, de Sally Potter
Schwesterlein (My Little Sister), de Stéphanie Chuat e Véronique Reymond
Sheytan Vojud Nadarad (There Is No Evil), de Mohammad Rasoulof
Siberia, de Abel Ferrara
Todos os Mortos, de Caetano Gotardo e Marco Dutra
Undine, de Christian Petzold
Volevo Nascondermi (Hidden Away), de Giorgio Diritti

Berlinale Special Gala
Onward, de Dan Scanlon
Curveball, de Johannes Naber
Speer Goes to Hollywood, de Vanessa Lapa
DAU. Degeneratsia (DAU. Degeneration), de Ilya Khrzhanovskiy e Ilya Permyakov