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Depois do “O Fim do Mundo”, Basil da Cunha promete dar destaque às mulheres da sua comunidade

Em “O Fim do Mundo” [ler crítica] existe um corpo estranho que insere-se num universo aparentemente familiar para este. Spira (Michel Spencer), jovem de gema da Reboleira, regressa ao bairro após 8 anos numa casa de correção, o que evidenciou lá é abafado da narrativa, mas depressa apercebemos que o rapaz já não é o mesmo, assim como os seus velhos companheiros do “crime” reparam constantemente.

Para Spira, os sonhos tornaram-se outros, a fuga da comunidade que o viu nascer e a crescer é a prioridade, mas como o fará, essa, sim, será a questão da sua efémera existência. “O Fim do Mundo” assenta num tom de guerrilha enquanto abre portas por entre um batizado festivo até dar-nos um funeral de libertação, é um ciclo pelo qual o nosso protagonista presta fidelidade. E esse mesmo circulo de vida e morte que o converte num escravo da violência o qual guarda silenciosamente.

Perante um mundo que anseia exilar, e ao mesmo tempo que desmorona para dar lugar a novas “paisagens”, “O Fim do Mundo” é o conto de um rapaz que persegue a sua identidade sem nunca entender bem a sua devida luta. Basil da Cunha, realizador luso-suíço que, também ele, retorna às longas-metragens e sucessivamente ao bairro que crescera e àquela gente que conviveu nos mais diferentes dias, proclama neste seu novo filme, estreado no Festival de Locarno e com passagem triunfante no Indielisboa, uma urgência em preservar memórias de um lugar em extinção.

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Michel Spencer em “O Fim do Mundo”

Quando um bairro desaparece, desaparecem também memórias” confiou-nos Basil da Cunha, que em 2013 já havia transmitido esse espaço num perpétuo não-lugar que só ele identifica cegamente, em “Até ver a Luz”. Aí, um conto xamânico de um louco, o Sombra (Pedro Ferreira), criatura da noite que venera a Lua a pedido da sua emancipação, sucede a esta nova “libertação”, a fuga para lá do cerco invisível a quem chama de bairro.

Porém, entre “Até ver a Luz” e a sua falsa-continuidade de “O Fim do Mundo”, contamos 6 anos. Um hiato apenas interrompido com a curta “Nuvem Negra” (em 2014), apresentado no Curtas Vila do Conde. Ao Cinema Sétima Arte, o realizador explicou esta sua ausência e a demora na aventura de uma segunda longa-metragem:

Vários motivos. Estava com uma cadência um pouco nervosa. Acabei as curtas e fui para a longa. Tinha na altura produtores que possuíam como objetivo o efeito-colateral de um filme e não a sua essência, que é a necessidade de filmar isto e aquilo. E estavam a pressionar para fazer um certo tipo de escolhas, do qual não estava interessado. Por isso, o meu primeiro passo foi perceber que eles eram umas tretas e não era com esse tipo de pessoas que pretendia trabalhar. Para mim, não percebem nada do que é o cinema. Demorei algum tempo a perceber isso e já estava com uma longa-metragem em financiamento, cortei raízes com eles e com aquele projeto.

Depois estive envolvido naquilo que eu chamo de laboratório, por exemplo, fiz uma série de cinco episódios que na altura custou-me por volta de “300 paus” [risos]. Não estreou. Praticamente fiz tudo, somente contava com o Ricardo Leal, que me ajudou no som e o qual também o faz neste filme. Fui em laboratório para procurar novas personagens e ideias, muitas delas que alimentaram a escrita desta longa.”

Pedro Ferreira em “Até Ver a Luz”

Depois de “O Fim do Mundo”, que acabou por se tornar num exercício em posicionar a segunda geração do bairro sob o ponto vista de Basil num primeiro plano, o realizador prometeu revisitar o local e aquela gente numa produção, o qual entende que será “o tipo de filmes que sei fazer, mas é o que devo fazer.

Esse novo projeto, adiantou, será um filme coral a fazer seguimento a “Até Ver a Luz” e “O Fim do Mundo”, e que reunirá as duas gerações que havia trabalhado em ambas longas-metragens e ainda, prometendo, dar mais enfoque às mulheres da Reboleira.

Filmei bastante e no final senti que não lhes dei a devida visibilidade. E essas mulheres, mais que tudo, são verdadeiras heroínas, acordam cedo para trabalhar, deixam as crianças na escola, tem dois ou três trabalhos e ainda metem a comida na mesa. São guerreiras e quero incluí-las nos meus filmes. Além de mais, são talentos incríveis que merecem destaque.