Carlos Nogueira

Entrevista a Carlos Nogueira: “Ao longo dos mais de dois anos de gestação, sempre confiámos que o Outsiders vinha preencher uma lacuna na oferta cultural”

No âmbito da 1ª edição do ciclo Outsiders – Cinema Independente Americano –, que decorreu no passado mês de Novembro e  irá agora chegar até aos Açores, de 31 de Março a 10 de Abril, o Cinema Sétima Arte teve a oportunidade de entrevistar o director do Festival, Carlos Nogueira.

Já antes demos conta da edição do ciclo em Lisboa, uma iniciativa da FLAD (Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento) que contou com a coprodução do Cinema São Jorge e programação de Carlos Nogueira.

O balanço a ser feito da 1ª edição do ciclo Outsiders – Cinema Independente Americano, que decorreu entre 30 de novembro a 8 de dezembro, no Cinema São Jorge, em Lisboa, e que foi a oportunidade para conhecer 18 realizadores com filmes de produção independente, é certamente positivo. Confirma?
Carlos Nogueira (CN): Ao longo dos mais de dois anos de gestação, sempre confiámos que o Outsiders vinha preencher uma lacuna na oferta cultural e, especificamente, cinematográfica de Lisboa. Apesar das várias falsas partidas e das condicionantes impostas pela pandemia, o balanço foi extremamente positivo: o ciclo despertou grande interesse mediático, Joe Swanberg, realizador convidado que veio apresentar os seus dois filmes e dar uma masterclass nas Belas-Artes, foi o melhor embaixador que podíamos esperar para este tipo de cinema, e o público que acorreu manifestou um entusiasmo que nos encheu de satisfação.

Porquê o ensejo de descentralizar agora o festival especificamente para os Açores, numa réplica que acontecerá na Ilha Terceira, de 31 de Março a 10 de Abril, no Auditório do Ramo Grande na Praia da Vitória e no Centro de Congressos em Angra do Heroísmo?
CN: A ideia de descentralizar esteve sempre presente, mas pandemia acabou por limitar a nossa ambição. Desde o início, houve a intenção de incluir os Açores no périplo a realizar; Outsiders é uma iniciativa da FLAD e é conhecida a relação privilegiada que a fundação mantém com os Açores. Felizmente, a conjugação de esforços entre a fundação e o nosso parceiro na Terceira, o Cine-Clube da Ilha Terceira, vão permitir a realização do ciclo na sua quase integralidade nas cidades de Angra do Heroísmo e Praia da Vitória, a começar no dia 31 de Março.

Qual a visibilidade deste tipo de cinema no contexto do cinema comercial e das grandes produções?
CN: Do ponto de vista comercial, o cinema independente não tem qualquer possibilidade de competir com Hollywood. Não me refiro apenas aos meios de produção, que não têm comparação, mas também aos milhões gastos na promoção (frequentemente, fatias superiores a 50% do orçamento). A visibilidade do cinema independente conta com os mediadores culturais e, sobretudo, com os festivais, em especial os dedicados ao cinema alternativo, ou outras formas de exposição, nomeadamente mostras como o Outsiders.

Em que medida as plataformas de streaming vieram equilibrar ou desequilibrar esse jogo de forças criativas?
CN: Não estou convencido de que as plataformas de streaming tenham vindo alterar muito o estado das coisas. É verdade que algumas delas incluíram filmes independentes nos seus catálogos, mas esses filmes são atirados sem muito critério para o maelstrom que oferece séries, blockbusters e romances cor-de-rosa, ficando perdidos ou escondidos por lá. Plataformas com curadoria, como a MUBI, estão circunscritas a nichos mínimos do mercado.

Independente tem sempre de ser sinónimo de baixo orçamento?
CN: Depende de que mercado estamos a falar. Provavelmente, 99% da produção europeia seria considerada de baixo orçamento na América. Qualquer filme saído da máquina industrial de Hollywood, e não temos necessariamente de pensar em “Dune” ou nos filmes do Christopher Nolan, não é feito por menos de muitas dezenas de milhões de dólares. A prova? Para serem elegíveis para os Independent Spirit Awards (os prémios mais importantes do cinema independente), os filmes têm de ter um orçamento inferior a… 22,5 milhões de dólares. A liberdade criativa requer, na imensa maioria das vezes, uma independência das grandes máquinas de produção, que impõem necessariamente meios de controlo dos milhões investidos. Quase todos os filmes incluídos no Outsiders custaram algumas dezenas de… milhares de dólares.

“Nights and Weekends” (2008, Greta Gerwig · Joe Swanberg)

Considera que todos os independentes querem atingir o estrelado, se pensarmos que nomes como Chloé Zhao ou Greta Gerwig são hoje reconhecidas e premiadas mundialmente?
CN: O sucesso de alguns filmes independentes atrai, frequentemente, a atenção de Hollywood para os seus realizadores e, por outro lado, é natural que muitos cineastas se sintam tentados a trabalhar com mais meios de produção. Os casos citados não são únicos. Se a qualidade das respectivas obras ganhou com isso, é questionável. Porém, nem todos os realizadores independentes pretendem, necessariamente, entrar na máquina e beneficiar da visibilidade que isso lhes traria. Um exemplo é justamente o “papa” do movimento mumblecore, Joe Swanberg, que resistiu até agora ao apelo dos estúdios, a fim de manter a liberdade criativa, como explicou em várias ocasiões durante a sua estada entre nós.

O que respira este cinema independente americano que pode inspirar ecos no cinema português?
CN: Os sistemas de produção americano e português são tão distintos que é difícil estabelecer alguma ponte. No entanto, os filmes que apresentamos mostram bem que alguma habilidade, muita força de vontade e a urgência criativa permitem superar qualquer obstáculo — e isso é, por si só, uma lição fundamental para qualquer futuro cineasta, aqui e em qualquer parte do mundo.

Está a ser preparada uma próxima edição do ciclo de cinema independente americano, e, se sim, o que nos pode contar sobre isso?
CN: O ciclo Outsiders tem todas as condições para ter continuidade. Contudo, a pandemia e outras convulsões inesperadas obrigam-nos à prudência no que diz respeito ao futuro. ‘Heaven knows what’, como diriam os irmãos Safdie…

Em nome do Cinema Sétima Arte, estamos gratas pela disponibilidade e atenção em dar-nos esta Entrevista, e parabenizamos a iniciativa.

 

Este texto foi escrito (sem estar ao abrigo do Acordo Ortográfico) por Cátia Santos e Maria Inês Gomes

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