Family Film Project 2023: Naomi Kawase e o cinema da transformação

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Com o mesmo destaque dado à presença da luz na filmografia da realizadora japonesa, Naomi Kawase preencheu a sala do Cinema Batalha, no âmbito do foco da edição deste ano do Festival Internacional de Cinema de Arquivo, Memória, Etnografia – Family Film Project -, iluminando o espaço através da sua contemplação, serenidade e bom-humor. A masterclass contou com a moderação do crítico italiano Luciano Barisone, com quem a realizadora trava amizade desde que o jornalista integrou o painel do júri do Festival de Cannes que lhe atribuiu a Caméra D’Or, em 1997, para Melhor Longa-Metragem de Estreia com o filme Moe no suzako / SuzakoNum tom profundamente filosófico, e sem o recurso à linguagem inglesa, a realizadora assume, desde sempre, que o seu ímpeto de filmar não possui referências ou escola no mundo do cinema, os seus «deuses dos filmes» são as pessoas que fazem intimamente parte da sua vida, o que faz de toda a sua filmografia, desde o documentário até à ficção, uma experiência subjectiva de sublimação da circunstância individual.

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An / Uma Pastelaria em Tóquio (2015)

Confrontada desde muito cedo com o abandono e a ausência dos pais, e perante um mundo assustador que teima em não lhe devolver respostas para o propósito da sua identidade, o gesto de pegar na câmara de 8mm torna-se meio de busca e de transformação. Note-se, por conseguinte, a missão declaradamente assumida de olhar o cinema como diário auto-biográfic0, na esperança de encontrar as suas figuras parentais, e as dissoluções para a dura realidade. Para tal, recordemos Ni tsutsumarete / Abraço (1992), num registo documental, bem como a personagem de Misako Ozaki (Ayame Misaki) na ficção Hikari / Esplendor (2017) que lida com a ausência da figura do pai, ou ainda no registo ficcional, a personagem de Sentarô (Masatoshi Nagase) que lida com a perda da mãe em An / Uma Pastelaria em Tóquio (2015). Este caminho cinematográfico de transformação respira a dois sopros, por um lado, a intensa proximidade, nos planos, aos corpos e, nos diálogos, à dureza das situações retratadas; por outro lado, o necessário distanciamento para respirarmos e nunca perdermos de vista a esperança no alcance holístico de redenção. Escapando, em parte, à tradicional cultura japonesa de distanciamento, a alternância entre os planos das pessoas e os planos da natureza consegue revelar a nossa pequenez face à divindade da luz, sendo que, a realizadora respeita tanto o natural decurso da vida e das coisas, que cada cena dos filmes de ficção é filmada segundo a autêntica ordem de acontecimentos do guião do argumento, possibilitando aos actores a experiência de viverem cada cena com o menor grau de artificialidade possível, ainda que aumentando os custos e o tempos de produção, pois aqui impera «a necessidade da realidade e porque a vida não é produtiva» (nas palavras da realizadora).

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Hikari / Esplendor (2017)

O caminho de autenticidade percorrido por Naomi Kawase tem estado, ingenuamente, ao serviço de reconhecer e de ultrapassar os obstáculos, e sem ter consciência da adesão à moda do docufiction (docuficção), filmar a vida (o nascimento do próprio filho em Tarachime / Birth/Mother, 2006 ), a morte (da sua mãe adoptiva em Chiri / Traço, 2012), e os reencontros (a reunião encenada com o pai biológico em Kage / Shadow, 2004) são saídas libertadoras de nomear e de reconhecer as dores da existência, que, por serem tão profundamente modeladoras da nossa existência, carecem sempre de redenção para alcançarem a transformação do amor maior.