“Hora do Desaparecimento”: quando ninguém vê, tudo acontece

“Hora do Desaparecimento” transforma o desaparecimento de miúdos num cruzamento entre terror e comédia macabra, expondo o absurdo do quotidiano suburbano
Hora do Desaparecimento Hora do Desaparecimento
“Hora do Desaparecimento”, de Zach Cregger

Se “Hora do Desaparecimento”, de Zach Cregger, fosse uma descarga elétrica, chegava-te à força, deixava-te meio tonto e completamente seduzido. E não de uma forma suave, tipo café de manhã, mas como quando tropeças na rua, quase levas com a tua própria mochila na cabeça e, ainda assim, não consegues parar de olhar para o desastre que acabou de acontecer.

Imagina isto: Maybrook, uma cidade americana qualquer, silenciosa, com ruas vazias, cães a ladrar e o vizinho do quinto a discutir com a máquina de cortar relva. São 02h17 da manhã e dezassete crianças de uma turma do terceiro ano levantam-se das camas como se alguém lhes tivesse enviado um SMS cósmico: “Hora de desaparecer misteriosamente.” Saem correndo, atravessam jardins, passam por carros estacionados, com os braços estendidos, a flutuar quase como plátanos ao vento. É uma imagem absurda e poética ao mesmo tempo, e Cregger, o realizador, ainda se inspirou numa foto famosa da Guerra do Vietname, a “Napalm Girl”. Dá para ficar atónito e fascinado ao mesmo tempo.

Na manhã seguinte, a professora Justine Gandy, interpretada por Julia Garner, chega à escola e encontra apenas um aluno. Só um. Alex. O miúdo que ficou ali, de cabelo despenteado, a olhar para ela como quem diz: “Sério que toda a gente desapareceu e tu achas que eu devia explicar?” A cidade entra em pânico, os pais correm de um lado para o outro a gritar, e o Archer Graff, de Josh Brolin, aparece no meio do caos como o pai louco que não sabe se chora, se bate no carro ou se simplesmente grita palavras ao vento.

E depois há cenas de gente a tentar telefonar para os filhos como se houvesse cobertura de rede no fim do mundo. Tudo isto acontece enquanto a professora tenta manter a dignidade e lidar com o seu próprio problema com o álcool, escondido, claro, porque ninguém precisa de saber, mas a vida real não perdoa.

O filme mistura horror e comédia de uma forma que ninguém espera. Os sustos aparecem, sim, mas não são constantes. Crescem devagar, insidiosos, infiltrando-se na vida suburbana, mas são sempre pontuados por momentos de pura imprevisibilidade. Imagina os bancos traseiros de carros a fazerem coisas que o tubarão de Spielberg fez com o oceano. É macabro, chocante, mas impossível de ignorar.

“Hora do Desaparecimento” não é apenas sobre crianças que desaparecem. É sobre a reação de cada pessoa àquilo que está completamente fora do normal. Justine, que se preocupa genuinamente com os alunos, mas ainda assim se lembra de onde deixou a garrafa de vinho; Archer, que se enfurece com a burocracia da escola como se estivesse numa guerra pessoal; Paul, o ex-namorado policial, que chega a cenas com cara de quem está a tentar lembrar-se se pagou a conta da água; Jay, o viciado local, sempre a tropeçar em algo ou a espalhar caos; Marcus, o diretor da escola, que passa mais tempo a organizar reuniões inúteis do que a resolver problemas reais; e Alex, o único que ficou, observando tudo como se estivesse a assistir a um episódio particularmente mau de uma série sobre adultos a falhar em tudo. Cada perspectiva acrescenta uma camada de humor involuntário e de tensão absurda.

E depois está a estrutura do filme. Cregger gosta de brincar com a expectativa do espectador. Um personagem pode desaparecer do ecrã e aparecer outro sem aviso. És obrigado a reconstruir mentalmente a história como quem tenta montar um móvel sem manual. É confuso, é caótico, mas é brilhante. Mantém-te alerta, provoca surpresa e mantém aquela sensação de que qualquer coisa bizarra pode acontecer a seguir, como quando tentas preparar um jantar rápido e a torradeira explode inesperadamente.

O final é uma explosão de pura satisfação. Tudo se encaixa, mas não de forma previsível. É quase como ver um gato a saltar para uma prateleira que pensavas estar vazia: sabes que vai acontecer algo, mas nunca como. Tens revelações chocantes, caos emocional, momentos que te fazem tremer e surpresas que te deixam com a boca aberta. A adrenalina e o absurdo combinam-se de forma a criar algo que não consegues ignorar. É raro um filme conseguir equilibrar horror, humor e caos cotidiano assim.

O elenco é impecável. Julia Garner dá vida a uma Justine que é ao mesmo tempo crível, imperfeita e heroica. Josh Brolin como Archer é o pai enlouquecido que nos faz vibrar de emoção e tensão ao mesmo tempo. Benedict Wong, Austin Abrams, Alden Ehrenreich e Cary Christopher completam o caos, todos a contribuir para a sensação de que Maybrook é uma cidade viva, mesmo com adultos a fazerem escolhas ridículas e crianças a desaparecerem misteriosamente. Com uma presença hipnótica e intensa, Amy Madigan afirma-se como uma das figuras mais memoráveis do filme.

A estrutura do filme, vinhetas interligadas centradas nos personagens, cada uma oferecendo a sua própria perspectiva e tensão, é o que o torna tão especial. Não é só sobre o desaparecimento das crianças, é sobre como cada adulto reage, distorce e interpreta os acontecimentos. Entre relações familiares, vícios, dramas suburbano e caos total, Cregger mostra que o horror não precisa de sangue constante e que o absurdo do dia a dia pode tornar tudo ainda mais intenso.

“Hora do Desaparecimento” é também um pequeno tributo a cineastas de sketch que se aventuraram no terror, como Jordan Peele. Desde “Foge”, poucos filmes conseguiram combinar criatividade, irreverência e impacto emocional de forma tão eficiente. E “Hora do Desaparecimento” consegue isso, não só no guião, mas na fotografia, na montagem e na mise-en-scène. Cada novo segmento é como abrir uma caixa que pensavas estar vazia e encontrá-la cheia de pequenos horrores e surpresas impagáveis.

O filme não é para todos. Alguns fãs de terror tradicional podem sentir falta de sustos constantes ou achar que o ritmo desacelera demais. Mas é precisamente esse desequilíbrio que torna “Hora do Desaparecimento” façanhoso. As pausas, as vinhetas e as perspetivas inesperadas enriquecem continuamente a experiência. Mantém-te à beira do assento, sem saber se deves saltar, tremer, gritar ou simplesmente observar em absoluto espanto. É um caos doméstico e suburbano transformado em cinema de alta tensão, com pitadas de absurdo do dia a dia que todos reconhecemos.

No final, há o ato final, profano e explosivo. Todas as linhas narrativas convergem. As respostas chegam, mas não de forma óbvia. A sala de cinema enche-se de adultos a tremer, a olhar boquiabertos e a tentar processar o que acabaram de testemunhar. É uma mistura de incredulidade, prazer, choque e deleite que só filmes verdadeiramente audaciosos conseguem provocar.

Mais do que um simples exercício de terror, “Hora do Desaparecimento” afirma-se como comédia macabra, retrato incisivo das relações humanas e thriller psicológico de ambição invulgar. Entre sustos calculados, desvios inesperados e momentos de absurdo deliberado, Cregger revela um domínio seguro do equilíbrio entre horror e humor, dando forma a uma obra simultaneamente original e atípica.

No centro desta proposta permanece uma ideia capital: por vezes, é preciso um choque súbito para romper a anestesia da rotina e obrigar a olhar de frente para o que estava oculto. Aqui, esse choque surge sob a forma de sustos, sangue e uma ironia corrosiva que subverte as certezas do género. O resultado é um filme que satisfaz os fãs de terror e, ao mesmo tempo, se impõe como uma experiência cinematográfica de forte impacto, difícil de apagar da memória.