Como parte do programa da exposição Pedro Costa: Companhia, teve lugar no dia 21, na livraria da Fundação de Serralves, a sessão de lançamento de um livro incontornável, “Pedro Costa”, de Carlos Melo Ferreira, editado pela Edições Afrontamento, que contou com a colaboração do cineasta.

Escrever um livro sobre “um dos grandes artistas do cinema do nosso tempo e explicar isso por palavras é um trabalho árduo, insuficiente”, diz o autor. O livro faz uso das imagens do cinema de Pedro Costa “exuberantemente demonstradas no livro, sendo algumas já conhecidas e, outras, inéditas”, tendo o cineasta tido um papel fundamental na escolha das imagens.

Durante a sessão, sentiu-se também, como não podia deixar de ser, e porque as circunstâncias assim o ditam, uma dimensão melancólica que, apesar de tudo, pode ser entendida como um apelo para que não se desista do cinema português. Isto porque “num país pequeno como o nosso, em alguns casos, a receção ao cinema de Pedro Costa chegou a ser maior lá fora do que em Portugal, o que se deve a resistências e incompreensões às quais tento dar uma resposta neste livro”, afirma o autor.

A obra foi escrita em mês e meio, fruto de um enorme fervor cinéfilo e profundo conhecimento da obra de Costa por parte do seu autor, que demonstrou o seu carinho pelos filmes do cineasta ao falar da “forma como Pedro Costa trata os espaços, os objetos, a escala de planos, a própria qualidade da fotografia e a ausência sistemática de música nos seus filmes, restando apenas aquela que é diegética. Pedro Costa é realmente um dos grandes cineastas dos nossos tempos.”

A exposição “Pedro Costa: Companhia”, inaugurada na passada sexta-feira, dia 19, na Fundação de Serrralves, reúne obras do cineasta em colaboração com o escultor Rui Chafes, o fotógrafo Paulo Nozolino, os cineastas Danièlle Huillet, Jean-Marie Straub e Chantal Akerman. Para além destes, a exposição conta ainda com obras de artistas ligados a Pedro Costa, tais como o poeta Robert Desnos e o fotógrafo Jacob Riis, bem como pinturas, desenhos e filmes de artistas que têm acompanhado o trabalho do cineasta: Pablo Picasso, Robert Bresson, António Reis, Walker Evans, João Queiroz, John Ford, Jeff Wall, Jacques Tourneur, Maria Capelo, Andy Rector, Jean-Luc Godard, Max Beckmann, entre outros.

“Esta exposição tem alguns pequenos vídeos meus, mas contei com a colaboração de uma série de amigos portugueses e estrangeiros, mortos e vivos. É uma exposição sobre a atualidade e sobre o passado do cinema.” É assim que Pedro Costa descreve apresenta a exposição, mas comentou ainda que “o cinema já foi mais interessante” e que “apesar de existirem filmes e cineastas fortes, eles são cada vez menos por causa de dinheiros e de distrações”. O cineasta disse ainda que “esta história que diz que apareceram possibilidades para todos fazerem filmes com câmaras pequenas não é verdadeira” e justificou com a inflação dos custos de produção cinematográfica e do custo de exibir em salas de cinema nos dias que correm.

Pedro Costa traçou ainda uma pequena, mas mordaz, analogia entre o cinema comercial, ou mainstream, para sermos mais objetivos, com o cinema dos velhos mestres em que explicou “como havia um propósito para fazer as coisas, ao contrário do que é feito hoje; onde é tudo muito igual. Fazem-se filmes com muito furor, mas com pouco pensamento e, por vezes, modéstia.” Pedro Costa terminou a sua intervenção num tom mais otimista ao sublinhar a importância que os museus têm tido ao conter esse lento esfumar do cinema enquanto sétima arte.

Em jeito de despedida, Carlos Melo Ferreira revelou ainda a forma como viu e sentiu “No Quarto da Vanda” (2000) da primeira vez que assistiu ao filme: “Cheguei ao fim do filme, fumei um cigarro, tomei um café e comprei um bilhete para a sessão seguinte para o ver outra vez.” Emocionado, acrescentou “Nunca me aconteceu isto com mais ninguém” e elogiou a dedicação dos cineclubes na sua missão de preservação e divulgação do melhor que se faz no cinema.

O autor e investigador publicou ainda, através da Edições Afrontamento, “O Cinema de Alfred Hitchcock” (1985), “Truffaut e o Cinema” (1991), “As Poéticas do Cinema” (2004) e “Cinema – Uma Arte Impura” (2011).

Para o CEAA (Centro de Estudos Arnaldo Araújo), escreveu “Cruzamentos – Estudos de Arte, Cinema e Arquitetura” (com Pedro Vieira de Almeida, CEAA, 2007), “Corte e Abertura” (com Miguel Oliveira e José Alberto Pinto – CEAA, 2015)

Para as Edições 70, escreveu “Cinema Clássico Americano: Géneros e Génio em Howard Hawks” (2018).

Colabora regularmente em publicações culturais, revistas da especialidade e no seu blogue Some Like it Hot, parceiro do Cinema 7.ª Arte.

Carlos Melo Ferreira, natural de Lisboa, é doutorado em Ciências da Comunicação, com especialidade em Cinema, pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e professor auxiliar jubilado da Escola Superior Artística do Porto.

É ainda investigador integrado do Centro de Estudos Arnaldo Araújo e foi docente convidado do mestrado em Comunicação Audiovisual da Escola Superior de Música e das Artes do Espetáculo do Instituto Politécnico do Porto. É membro da Associação de Investigadores da Imagem em Movimento (AIM) e do Conselho Editorial da revista DOC On-line.

A exposição Pedro Costa: Companhia irá decorrer até 27 de janeiro de 2019. Consulte o programa aqui.