O Lab Femmes de Cinéma divulgou um estudo, intitulado de “Qualitative Study on the Place of Female Directors in Europe”, da autoria de Lise Perottet, sobre as práticas de inclusão de género e as barreiras estruturais para as mulheres realizadoras no setor do Cinema e do Audiovisual na Europa. Liderado pela cofundadora e diretora Fabienne Silvestre, o grupo francês concentra-se em questões da indústria relacionadas com a paridade, diversidade e representação de género, publicando relatórios anuais desde 2016.
O estudo, referente ao ano de 2023, revela que a grande maioria dos países europeus está empenhada na igualdade de género na indústria cinematográfica, apesar de ainda existirem muitas barreiras. O relatório baseia-se na versão anterior (de 2022), “destacando as principais tendências nas medidas implementadas contra a violência sexual e um interesse crescente no apoio à diversidade de género. Examina também as novas tendências no apoio às carreiras das mulheres realizadoras, bem como os esforços para combater o preconceito inconsciente nos comités de seleção, melhorando assim a representação.”
“Um total de 35 países introduziram ou tencionam implementar medidas para promover a paridade. Entre eles estão aqueles que estão envolvidos nestas questões há muito tempo, continuando e aprofundando o seu trabalho a longo prazo (como Áustria, Dinamarca, Islândia, Noruega, Suécia, etc.) e aqueles que aderiram ao movimento mais recentemente. Nada menos do que 10 países lançaram, ou tencionam lançar nos próximos anos, a sua primeira recolha de dados sobre género. A recolha de dados é um dos primeiros passos para quantificar as desigualdades no sector e, portanto, uma forma de sensibilização que geralmente conduz a declarações de intenções e à implementação de medidas para promover a diversidade de género na indústria.”, lê-se no estudo.
Dos países em análise, apenas cinco “não introduziram ou não tencionam introduzir medidas para promover a paridade na sua indústria (Bósnia e Herzegovina, Bulgária, Sérvia , Eslováquia e Ucrânia).”
Apesar de a grande maioria dos países europeus estar empenhada na igualdade de género na indústria cinematográfica, o estudo confirma que estamos a caminhar a um passo muito lento no sentido da igualdade de género. Apela a esforços “mais pró-ativos” para quebrar “estereótipos de género e mecanismos de exclusão estrutural que ainda existem” na indústria cinematográfica europeia.
“Se as mulheres estão sub-representadas e discriminadas no cinema, é em parte devido aos estereótipos de género e aos mecanismos estruturais de exclusão que ainda existem. Para ultrapassar estas duas barreiras, sabemos que há um trabalho aprofundado que tem de ser feito. Devemos desconstruir os estereótipos e destacar mais as cineastas. Devemos também implementar movimentos estruturais mais pró-ativos. Este estudo visa detalhar e apresentar as políticas e medidas adotadas para melhorar as desigualdades persistentes e promover o lugar das mulheres e das pessoas marginalizadas no cinema em todos os países europeus.”
Segundo o estudo, 50% dos estudantes nas escolas de cinema na Europa são mulheres, ou seja, no ensino e formação de cinema e audiovisual atingiu-se a igualdade. No entanto, quando estas estudantes vão para o mercado de trabalho percebem que existem muitas barreiras de descriminação que as impede de manter a representatividade. Apenas uma em cada três pessoas são mulheres (34,36%) que conseguem realizar curtas-metragens. Os números pioram quando as realizadoras se estreiam nas longas-metragens: apenas uma em quatro são mulheres (23,92%) no primeiro e segundo filme; e quando tentam realizar o seu terceiro filme ou mais, a percentagem cai para os 15,41%, o que significa que apenas uma em cada seis são mulheres a realizar o seu terceiro filme ou seguintes.
“Utilizando a média europeia para cineastas mulheres e as tendências históricas, a paridade de género entre realizadores masculinos e femininos só será alcançada em 2080.”, conclui o Lab Femmes de Cinéma.
Apenas dezasseis países comprometem-se em combater a violência sexual e de género. O estudo observa que os centros cinematográficos nacionais “têm tido um interesse particular na violência cometida nos locais de filmagem e encorajaram as equipas de filmagem a recorrer aos serviços de coordenadores de intimidade quando filmam cenas íntimas”.
Segundo dados do European Audiovisual Observatory (EAO), a proporção de mulheres realizadoras de longas-metragens na Europa é de 30% no documentário, 19% na ficção e 19% na animação. “As realizadoras estão proporcionalmente mais presentes nos documentários, onde o orçamento médio dos filmes é muito inferior ao orçamento médio dos filmes de animação ou de ficção. Para além da questão da percentagem de mulheres realizadoras na Europa, há também a questão da baixa percentagem do total dos orçamentos que lhes são atribuídos.”
Já os países com melhores estatísticas “são aqueles que adoptaram há alguns anos as políticas mais ambiciosas e multidisciplinares para promover uma maior igualdade no cinema, mas as melhores estatísticas ainda estão muito longe da paridade.”, lembra o EAO. A Islândia lidera com maior representatividade, com 37%, seguindo-se a Áustria (34%), França (26%) e Reino Unido (20%).
Portugal tem uma média de 25% de filmes realizados por mulheres
Baseando-se nos dados das agências cinematográficas nacionais, este estudo analisou as políticas de combate às desigualdades de género no cinema de 37 países europeus, incluindo Portugal. Entre 2017 e 2021, Portugal tinha uma percentagem de filmes realizados por mulheres de 21,40%. Esse valor aumentou para uma média de 25% entre 2018 e 2022 (com 179 filmes produzidos nesse período).
Segundo o relatório do Lab Femmes de Cinéma, Portugal tem feito progressos nesta matéria, destacando o sistema de pontos e bónus para projetos que procurem a paridade de género nas suas equipas. Destaca-se a medida do Instituto Português do Cinema e do Audiovisual (ICA), implementada desde 2018, de uma “escala para priorizar filmes de realizadoras mulheres e o seu financiamento. Nos programas de apoio à escrita de argumentos e ao desenvolvimento de projetos, o ICA atribui ainda um bónus de 10% para projetos com pelo menos 50% de escritoras.”
O relatório destaca também o facto de o ICA produzir estatísticas precisas para acompanhar a evolução destas medidas e o facto de o ICA estar trabalhar no sentido de encontrar “formas de promover não só a igualdade de género, mas também a diversidade e a inclusão.”

