Manoel de Oliveira (2015)

Morreu esta manhã o cineasta português Manoel de Oliveira. Tinha 106 anos e era o realizador mais velho do mundo em atividade.

Foi realizador, argumentista e ator e apaixonado pelo desporto, Oliveira foi um homem que atravessou todo o século XX. Morreu hoje, 2 de abril de 2015. Da sua vasta e premiada obra constam mais de 50 filmes entre longas e curtas-metragens. Mesmo com uma idade avançada, o cineasta nunca parou de trabalhar, até hoje.

Já muito se escreveu sobre o mestre Oliveira, mas certamente irá continuar-se a escrever muito mais e a descobrir coisas novas na sua extensa obra. Manoel de Oliveira, um dos grandes cineastas europeus, foi um homem à frente do seu tempo. O cinema português perde uma figura singular da história do cinema nacional e do mundo. Não é só o cinema português que fica mais pobre, mas sim o Cinema.

Em 2014, durante a comemoração do seu 106º aniversário, Oliveira foi distinguido com a Grande Oficial da Legião de Honra de França, atribuída pelo Estado francês, numa cerimónia que decorreu no Museu de Serralves, no Porto. Oliveira agradeceu da seguinte forma: “Os meus filmes são cada vez mais curtos e os meus discursos também. Obrigado à França. Viva o cinema!”.

Nasceu no Porto a 12 de dezembro de 1908, estreou-se no cinema como ator, figurando em “Fátima Milagrosa” de Rino Lupo, aos vinte anos. Estreou-se como realizador em 1931 com o notável documentário “Douro Faina Fluvial”. Na ficção estreou-se com “Aniki-Bobó” (1942), até hoje o seu filme mais popular de sempre pelo público e pela crítica. Esta estreia de Oliveira na longa-metragem marca a transição do documentário para a ficção. E apesar de este ser, talvez a maior obra prima do cinema português dos anos 40, o público na época não acolheu com grande simpatia, esta grande obra do cinema português.

Manuel de Oliveira foi talvez dos mais sofridos realizadores portugueses pois esteve diversas vezes impedido de realizar os seus filmes,por não receber aprovação do Fundo do Cinema. Oliveira só viria a beneficiar de subsídios do Fundo do Cinema em 1963. É nesse ano que filma “Acto da Primavera” (1963).

Só nos anos 90 é que o cineasta consegue manter o ritmo de uma média de um filme por ano. Seguiram-se entre muitos outros: “Non, ou A Vã Glória de Mandar” (1990), “A Divina Comédia” (1990), “Vale Abraão” (1993), “A Caixa” (1994), “O Convento” (1995), “Palavra e Utopia” (2000), “Vou Para Casa” (2001), “Porto da Minha Infância” (2001), “Um Filme Falado” (2003), “O Quinto Império – Ontem Como Hoje” (2004), “Belle Toujours” (2006), “O Estranho Caso de Angélica” (2010) e “O Gebo e a Sombra” (2012).

Entre as suas curtas-metragens destacam-se “O Pintor e a Cidade” (1956), “O Pão” (1959), “A Caça” (1964), “Cada um o Seu Cinema” (2007), “Painéis de São Vicente de Fora – Visão Poética” (2010), “O Velho do Restelo” (2014).

Todos os seus filmes sempre contaram com um bom elenco, escolhido a dedo. Trabalhou com grandes atores internacionais como Michel Piccoli, Catherine Deneuve, John Malkovich, Irene Papas, Michael Lonsdale, Claudia Cardinale e Jeanne Moreau, por exemplo, e também colaborou com grandes atores nacionais como por exemplo, Luís Miguel CintraLeonor Silveira, Diogo Dória, Leonor Silveira, Rogério Samora, Maria de Medeiros e claro, Ricardo Trêpa, o seu neto que colaborou em muitos dos seus filmes da última década. Colaborou ainda em várias obras com Paulo Branco (como produtor) e com João Bénard da Costa (como ator).

Foi o artista português mais premiado de sempre, reconhecido e admirado por realizadores de todo o mundo. O seu estilo único, deram um novo sentido à realização e à montagem. Quase sempre incompreendido em Portugal, foi no estrangeiro que ganhou reconhecimento. Desde os seus 70 anos de idade que é apelidado de “o cineasta mais velho do mundo”. Foi o único realizador em atividade que assistiu à passagem do cinema mudo ao sonoro e do preto e branco à cor.

No dia em que se comemora o melhor do cinema português, os Prémios Sophia 2015 são hoje entregues em Lisboa, o realizador português mais internacional de todos partiu.

Oliveira só parou de fazer filmes quando o seu coração parou de trabalhar. Os seus filmes continuam vivos e certamente terão um longa vida.

Um exemplo do espirito sempre jovem do eterno mestre, Manoel de Oliveira.


(Notícia atualizada às 19h04 do 03/04/2015)