Mubi perde 200 mil assinantes após polémica com investimentos e ligações a Israel

Plataforma de streaming atravessa crise de imagem e regista forte impacto na base de utilizadores após polémica envolvendo investidores e debates políticos internacionais
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"Valor Sentimental" (2025), de Joachim Trier

A plataforma de streaming Mubi enfrentou, ao longo de 2025, uma das maiores crises da sua trajectória recente, perdendo cerca de 200 mil assinantes na sequência de críticas relacionadas com as suas ligações ao capital privado e a investimentos associados a Israel.

Os dados constam de um relatório a que o AV Club teve acesso, divulgado por Matt Schimkowitz a 10 de Abril, e que descreve um período marcado por forte desgaste público e impacto financeiro.

O episódio ganhou dimensão após a divulgação de que a Sequoia Capital, investidora da Mubi, mantinha participações numa empresa do sector da defesa israelense. A polémica intensificou-se nas redes sociais, com apelos ao boicote à plataforma, incluindo publicações do colectivo Film Workers for Palestine.

De acordo com o The Wall Street Journal, num trabalho assinado por Ben Fritz e Kate Clark, o impacto traduziu-se na perda de centenas de milhares de subscritores, com mais de 10 mil utilizadores a cancelarem o serviço e a abandonarem símbolos associados à marca, como as suas ecobags.

A crise surgiu num momento de crescimento acelerado. Do ponto de vista financeiro, a Mubi registava um dos seus períodos mais sólidos, com reforço da presença nas bilheteiras internacionais, novos acordos com realizadores como Jim Jarmusch e Lynne Ramsay, e um investimento significativo assegurado junto da Sequoia Capital. Este movimento de expansão acabou por se tornar também o principal foco de contestação pública.

Uma análise publicada pela Vulture, da autoria de Will Tavlin, destaca que a repercussão negativa não pode ser dissociada do posicionamento cultural da Mubi, construída ao longo dos anos como uma marca próxima de uma comunidade cinéfila altamente participativa. Esse vínculo terá contribuído para uma resposta mais intensa por parte do público em comparação com outras empresas do sector.

Parte da explicação para a intensidade da reacção reside no posicionamento da Mubi como uma marca de estilo de vida dirigida a um público cinéfilo com forte envolvimento cultural e político. Desde a sua fundação por Efe Cakarel, a empresa cultivou uma comunidade activa, com fóruns e espaços de discussão, o que terá amplificado a mobilização dos utilizadores.

Internamente, a resposta à crise foi gradual. De acordo com a mesma análise, Cakarel terá inicialmente desvalorizado a controvérsia, classificando-a como provocação em comunicações internas. Com a escalada do impacto, a empresa adoptou medidas para mitigar os danos, enfrentando críticas de assinantes, parceiros e funcionários. Cerca de 200 colaboradores terão subscrito uma carta anónima de protesto, enquanto alguns projectos foram afectados, incluindo negociações para a distribuição do filme “No Other Land”.

Posteriormente, o fundador reconheceu publicamente a gravidade da situação humanitária envolvendo a população palestiniana e anunciou novas directrizes de financiamento ético, bem como a criação de um fundo destinado a apoiar artistas em contextos de conflito, deslocamento ou censura.

Apesar do abalo, os efeitos financeiros não impediram sinais de recuperação. Após encerrar 2025 com cerca de 1,2 milhão de assinantes, abaixo das expectativas, a Mubi voltou a crescer e aproxima-se actualmente dos 1,7 milhão. O desempenho recente foi impulsionado também pelo sucesso no circuito internacional de prémios, com vários títulos distribuídos pela plataforma a destacarem-se nos Óscares, incluindo o vencedor na categoria de Melhor Filme Internacional, “Valor Sentimental”.

Num contexto de reconfiguração estratégica, a Mubi parece procurar afastar-se da imagem de “queridinha indie” para assumir uma posição mais alinhada com estruturas corporativas globais. O caso evidencia como decisões de financiamento e posicionamento institucional podem gerar efeitos directos na relação entre plataformas culturais e as comunidades que as sustentam.