“No Other Land” o dilacerante documentário que põe Israel e Palestina no centro de Berlim

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Sob forte esquema de segurança e com discussões inflamadas entre membros da audiência nas primeiras exibições, o documentário “No Other Land” de um coletivo Israelita-palestino sobre a expulsão de moradores de uma vila na Cisjordânia estreia em Berlim como parte da paralela Panorama e se destaca como talvez o filme mais  importante da Berlinale em 2024. Falamos com a dupla de protagonistas.

Nas semanas e meses que antecederam o Festival de Berlim de 2024, as tensões entre Israel e o Hamas intensificaram o debate público. O festival foi criticado por sua aparente falta de posicionamento sobre os trágicos eventos em Gaza, o que levou a manifestações e boicotes nas ruas de Berlim, incluindo a retirada de dois filmes do programa do festival em protesto. Enquanto pressões políticas impediam uma declaração pró-Palestina por parte do festival, dada a postura alemã favorável a Israel, o festival buscou equilíbrio incluindo filmes que abordavam o conflito sob perspectivas variadas.

O primeiro foi “Shikun”, do veterano realizador israelita Amos Gitai, que o diretor artístico Carlo Chatrian apresentou no domingo como a “peça central metafórica” da Berlinale este ano. Um filme inspirado na peça “Rhinoceros” de Eugène Ionesco que abre com um longo plano sequência de mais de 30 minutos, seguindo a vida de 20 personagens, entre israelitas e palestinos, residindo em um extenso projeto de habitação social, enquanto explora o surgimento da intolerância e do pensamento totalitário através de episódios cotidianos num edifício em Israel, onde algumas pessoas se transformam em rinocerontes. O realizador trouxe ao palco do Berliner Festspiele todo o seu elenco composto por atores israelitas, palestinos e iranianos, e fez um discurso impactante sobre a possibilidade de coexistência no médio oriente.

Entretanto, era do outro lado da cidade, no Kino International em Mitte, onde passava talvez o filme mais importante desse festival: “No Other Land”, o devastador documentário sobre a expulsão dos palestinos das suas terras em Masafer Yatta, feito por um coletivo israelo-palestino composto pelos dois protagonistas Basel Adra e Yuval Abraham e pelo fotógrafo Hamdan Ballal e a diretora de fotografia Rachel Szor.

O filme segue a trajetória de Basel, um jovem palestino dessa comunidade na Cisjordânia, que desde pequeno tem registrado com sua câmera a constante destruição e deslocação do seu povoado pelas autoridades israelenses. As imagens capturadas por ele são testemunhos de uma dor permanente: a destruição de lares, a dispersão de famílias e a batalha contínua pela sobrevivência em uma terra que sempre lhes negou direitos fundamentais. Neste cenário de desespero, Basel conhece Yuval, um jovem jornalista israelita que decide apoiá-lo na sua luta de resistência. Apesar das circunstâncias improváveis, uma forte amizade se forma entre os dois, tingida pela desigualdade intrínseca às suas existências: Basel, encurralado pelo jugo da ocupação militar; Yuval, gozando de uma liberdade que lhe permite, ao fim do dia, escapar para a segurança do seu lar do outro lado do muro. 

“No Other Land” é mais do que uma crítica feroz ao Estado de Israel; é um clamor por humanidade, um apelo à paz e a uma possível coexistência, numa região dilacerada por décadas de conflitos que parecem não ter solução à vista. Através das lentes de Basel e Yuval, o documentário expõe a crua realidade dos habitantes de Masafer Yatta enquanto questiona as fronteiras visíveis (e invisíveis) que segregam corações e mentes, propondo que a empatia, e o reconhecimento do outro, uma visão de mundo que parece ainda muito distante, possa se transformar numa realidade cada vez mais possível.

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No dia da estreia do filme, um forte esquema de segurança foi armado em volta do Kino Internacional e ao final da projeção, durante o Q & A, membros da audiência trocaram insultos e direcionaram críticas ao festival e ao estado alemão; um circo barulhento que quase ofuscou a presença ilustre de Basel e Yuval que estavam ali para promover o seu poderoso documentário. A caminho de Berlim, antes da estreia mundial do filme no festival, trocamos algumas mensagens por Whatsapp com os dois protagonistas.

O filme acaba antes dos acontecimentos de 7 de outubro e nós só podemos imaginar as coisas terríveis que devem estar acontecendo a você e a sua família nos últimos meses. Como está a sua vida e a da sua família neste momento?

Basel: Nós só conseguimos incluir parte do que aconteceu após o 7 de outubro no final do filme, uma vez que as coisas ainda estão a acontecer e tudo é muito urgente para a minha comunidade. O meu primo, Zachariya, com quem cresci e é um dos meus melhores amigos, foi baleado por um colono que invadiu a nossa aldeia em outubro. Isto agora é um fenómeno: os colonos tornaram-se o exército, milhares deles foram recrutados para o que o exército chama de “batalhões dos colonos especiais” e começaram a aplicar as leis da ocupação sobre nós, e outros simplesmente operam milícias armadas no terreno, invadindo as nossas aldeias. Depois de outubro, estas milícias bloquearam imediatamente todas as entradas para as nossas aldeias e disseram-nos que não nos era permitido sair de casa. Neste momento em que estou a lhe escrever muitos dos meus amigos ainda estão trancados nas suas aldeias sem poder sair. Colonos na companhia de soldados queimaram uma aldeia perto daqui e entraram em várias outras para atacar ou atirar contra pessoas, como aconteceu com o meu primo. Isto causou o desmembramento de 16 aldeias inteiras desde outubro por toda a Cisjordânia. Há uma guerra silenciosa a acontecer na Cisjordânia e ninguém está a ver. Vilas inteiras estão sendo deslocadas pela força. A situação em Masafer Yatta agora é aterrorizante e se continuar assim, provavelmente irei perder a minha comunidade.

Há uma cena bonita dentro do carro em que você diz ao Yuval (que está frustrado com o pouco número de visualizações do seu último post) brincando que ele “quer mudar as coisas em 10 dias” e que ele tem de aceitar primeiro que é um perdedor. É uma grande mensagem de resiliência e esperança no meio de uma situação tão caótica. De onde tira forças e esperança para lutar e o que espera alcançar com este filme?

Basel: Eu e o Yuval falámos muito sobre esperança. Mas nestes dias tenho tido muito pouca esperança. Milhares de crimes de guerra a acontecer em Gaza, milhares de pessoas a morrer, dois milhões de pessoas que foram simplesmente desalojadas. É demasiado para mim. Sinto que preciso de encontrar algo em que acreditar, para encontrar esperança para me agarrar firme, mesmo que seja pouca. Essa busca é simplesmente a forma que eu encontrei para continuar a viver. Estou sempre a tentar alcançar esperança e nem sempre consigo. Acho que o que me ajuda é saber, no fundo do meu coração, que eu estou a enfrentar a opressão e a injustiça. Uma injustiça que a maior parte do mundo não está a ver. E estou a tentar mostrá-la ao resto do mundo com este filme, para que tudo isso possa acabar, e para que possamos ter um futuro melhor aqui nesta terra.

Yuval, no filme vemos que foi atacado por outros israelitas por apoiar Basel. Quanto é que este apoio alterou  a sua vida e você teme que a divulgação do filme o possa piorar as coisas ou que possa ser perseguido pelo governo israelita?

Yuval: Conhecer o Basel mudou completamente a minha vida. Durante muitos anos, a maior parte do que fiz foi vir a Masafer Yatta com a Rachel para estar com ele, o Hamdan e os outros ativistas, e parecia a única coisa certa a fazer. Penso que senti uma responsabilidade de partilhar com a minha sociedade, a sociedade israelita, como é a ocupação que estamos a financiar e pela qual somos responsáveis. Parte disto foi também a minha própria necessidade de não estar sozinho com o conhecimento de que algo horrível está a acontecer. Há uma enorme lacuna entre o que vejo em Masafer Yatta todas as semanas com os meus próprios olhos – a forma como os palestinos são expulsos das suas terras com extrema violência para que possa ser transferida para os colonos – e o facto de nada disso ser divulgado na mídia de Israel e ignorado pela maioria dos israelitas, incluindo muitos na minha família e amigos. Acredito que é importante olhar para isto porque estas são algumas das raízes da violência na nossa terra. Se queremos ter um futuro sem violência, não há outra forma senão acabar com este sistema de ocupação e apartheid, onde eu e o Basel não somos iguais perante a lei. Especialmente após outubro, escrever sobre estas questões de violência estrutural, muitas vezes lhe confere imediatamente o título de “traidor” ou alguém que está “a ajudar o inimigo”. Há uma atmosfera muito tóxica neste momento na sociedade israelita e quase nenhum espaço para crítica. Isto fez com que muitas pessoas com quem cresci parassem de falar comigo. Acredito que estou numa watchlist do governo não só por estar ao lado do Basel, mas também por causa dos meus relatórios sobre a inteligência israelita e a forma como a IA está a ser usada para escolher alvos para bombardeamentos em Gaza, sabendo que mata milhares de civis no processo. Dito isso, sei que como israelita sou muito mais privilegiado, e há uma liberdade de que desfruto. Se fosse palestino, estaria na prisão há muito tempo ou morto como mais de 120 jornalistas em Gaza. Portanto, embora isto seja desconfortável, não penso que seja um grande risco, e planeio usar a minha liberdade para lutar pelo fim da ocupação e do Apartheid e promover um futuro de paz e igualdade entre israelitas e palestinos.

Quão difícil foi encontrar apoio para financiar o filme? 

Yuval: Durante cerca de dois anos trabalhámos quase sem financiamento nenhum no filme. Tomámos a decisão de não aceitar qualquer financiamento israelita para o filme e mantê-lo 100% independente. Isso, claro, tornou tudo mais difícil. Nenhum de nós estudou cinema e aprendemos edição e storytelling sozinhos ao longo de cinco anos, tentando e falhando e tentando novamente. Sabíamos que coisas importantes estavam a acontecer na área de Masafer Yatta e que queríamos filmá-las. Também sentimos que tínhamos uma mensagem para gritar ao mundo. Todo o resto tivemos de aprender do zero. Um grande ponto de viragem para nós foi quando fomos aceites na Iniciativa Close Up, que é um workshop para filmes no Médio Oriente, que realmente nos ajudou a definir a nossa visão. Depois disso, conseguimos lentamente encontrar algum financiamento e boas conexões, como por exemplo o IDFA, Sundance e uma produtora da Noruega chamada Antipode. Penso que, como somos jovens e estamos a fazer este trabalho independentemente do dinheiro e também como jornalismo e ativismo, conseguimos passar semanas inteiras a trabalhar nisto independentemente do financiamento. Sei que este modelo não é muito sustentável, mas foi assim para nós.

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