“Nova Iorque Fora de Horas”: melhor filme de Scorsese?

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Um dos grandes acontecimentos da 74.ª Berlinale, “Nova Iorque Fora de Horas” em estreia mundial numa nova cópia restaurada a partir de um negativo original de 35 mm da coleção privada de Scorsese que contou com a ajuda da editora Thelma Schoonmaker. O filme estreia depois de uma semana com Scorsese em todo o lado em Berlim.

Esta semana o jornal The New York Times dava conta de um pequeno e inusitado evento acontecendo a poucos metros da Berlinale, o Táxi Film Festival. O evento foi concebido em forma irónica de protesto por taxistas que sentem que seus direitos foram sucateados após o surgimento da Uber. Na programação do festival, um pequeno ecrã improvisado dentro dos táxis exibia “Taxi Driver”.

O episódio ilustrou bem a atmosfera de Berlim na semana que passou e que parecia ter os olhos voltados para uma só pessoa: Martin Scorsese. O realizador americano foi o convidado de honra da edição de 2024 e teve uma semana cheia de eventos marcantes. Recebeu um Urso de Ouro honorário das mãos de Wim Wenders, deu uma palestra no evento paralelo da Berlinale Talents, foi o narrador do documentário “Made in England: The Films of Powell and Pressburger”, e testemunhou um dos momentos mais bizarros dessa Berlinale onde um jovem jornalista fez uma imitação de Jack Nicholson para ele. Para além de tudo iisso, teve dois dos seus filmes em retrospectiva no festival, “The Departed” exibido na noite de entrega do urso honorário e um dos seus maiores clássicos em novíssima cópia digital: “Nova Iorque Depois de Horas”.

Na quarta-feira, as conversas de corredores do festival tentavam dar resposta a uma pergunta impossível: qual o melhor filme de Scorsese? Escolher a sua melhor obra frente a clássicos como “Raging Bull” ou “Taxi Driver”, filmes que definiram gerações e o próprio cinema, parecia um sacrilégio onde poucos conseguiam arriscar um palpite. Porém, “Nova Iorque Depois de Horas” parece de certa forma emergir no meio do superlotado currículo do mestre com obras-primas como a experiência mais alucinatória que o americano já criou. Aqui, sem o peso do “grande autor”, o que viria a se consolidar alguns anos mais tarde, Scorsese pode fazer uma comédia surrealista descompromissada e que inevitavelmente acabou por se tornar num dos seus clássicos de culto mais celebrados.

A origem do filme deu-se quando a Paramount Pictures desistiu de produzir o seu “The Last Temptation of Christ”, o que Scorsese encarou como um golpe nas suas costas, e que fez o realizador repensar os seus próximos passos, impulsionando-o a se voltar para projetos menores. Sem a responsabilidade de ter um grande orçamento em mãos, o realizador viu-se a contemplar a oportunidade para explorar narrativas mais ousadas e experimentais, afastando-se das expectativas e pressões associadas aos grandes estúdios. Depois de muitas versões do guião, que teve vários títulos e quase se tornou num filme de Tim Burton, “After Hours” finalmente toma forma e chega às mãos de Scorsese.


O filme explora uma ideia quase masoquista: o que aconteceria se a lei de Murphy fosse aplicada a um homem comum em uma única noite? Paul (
Griffin Dunne), um mero processador de dados, desejava apenas dar uma passada breve num café após o trabalho, mas mal sabe ele o que o destino lhe reserva. E o que espera pelo nosso anti-herói é uma noite alucinante em uma Nova Iorque que mais se parece com uma versão do Inferno de Dante, só que com mais neon e menos paranoia Kafkiana.
Aliás, uma referência fascinante visto que alguns dos diálogos do filme foram diretamente inspirados em “Before the Law” de Franz Kafka, um conto que faz parte de um dos clássicos maiores do escritor, “O Processo”, uma exploração sombria da burocracia opressiva e da luta incessante de um homem contra um sistema inescrutável.

Assim, em 1985, numa era obcecada por ombreiras e enquanto o star system americano cantava “We Are the World”, Scorsese optou por desvendar o verdadeiro pesadelo americano e descobriu que podia torná-lo sádico e hilariante.

Entre a turbulência dos táxis amarelos e esculturas mortais de papel machê, “Nova Iorque Depois de Horas” se desenrola como uma montanha-russa de infortúnios, como se uma típica comédia de erros “screwball” fosse um episódio masoquista de “Black Mirror”.

O filme “menor” do mestre americano que parece ter crescido em estatura ao longo dos anos como um testemunho da habilidade incomparável do realizador em navegar pelo caos com uma precisão cirúrgica. Aqui, Scorsese não apenas demonstra sua maestria em manipular as ferramentas cinematográficas, mas também nos lembra do poder do cinema em capturar a essência do absurdo humano com uma mistura única de humor negro e comentário social mordaz, desafiando-nos a encontrar ordem no caos e significado na loucura urbana noturna.

Um dos grandes acontecimentos dessa Berlinale, em estreia mundial numa nova cópia restaurada a partir de um negativo original de 35 mm da coleção privada do realizador e que contou com a ajuda da sua editora de longa data Thelma Schoonmaker.

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