Saltando entre os géneros, “O Agente Secreto” afirma um cinema contemporâneo que faz da exposição narrativa um jogo de gestão de expectativas que duram todo um filme a se construírem como uma irónica e cáustica forma de olhar um mundo que espreita, sem qualquer tipo de cuidado, a sua própria recaída nos mesmos modos de atuar que este aparente neo-spy flick ao mesmo tempo recorda: as infames ditaduras outras, afinal assim não tão antigas, e avisa (é mais um filme que assim o faz) sobre as autocracias da farsa que já estão aí e que, se ainda não chegaram todas, também essas vêm a caminho.
O western primeiro: o carro curva para a terra batida e para a bomba de gasolina, o andamento é lento, em deslizamento, o pé empurra e desalavanca os pedais, o carro pára, o corpo morto é só tapado pelo cartão, está ali há alguns dias, os cães rondam, têm que ser enxotados, quem o virá buscar não se sabe, quem quer dele saber não há, a vida vale pouco, ao fim da estrada a lei parece afastada, a justiça é feita pela mão própria, quis roubar e executado foi, assim caído ficou.
A viagem de Marcelo/Armando (Wagner Moura), que de longa já se fez, é uma que o levará ao fim do que deveria ser antes o princípio basilar de uma liberdade a que todos deveria caber: o direito à existência não terminável pela vontade do outro, o direito à vivência calma e ao não se olhar por detrás do ombro, o direito à livre mobilidade e à existência pelo nome e não pela máscara, o direito a ser-se livre de se fazer o que se quer, como se quer e para que finalidade se queira dar ao que se faz. O morto fica, violência tentada que só pôde acabar em violência, tentou furtar, logo morreu, “…teve o que mereceu…”, diz o encarregado da bomba de gasolina, como se fosse só assim. Ouve-se, no entanto, a buzina que avisa da chegada da polícia, com dias de atraso, veio quando quis ou quando pôde, Marcelo tem que continuar a sua viagem-fuga, pela mesma estrada que ali o trouxe e que o há-de levar ao fim funesto de um western moderno que não bem o é. No Brasil, ano de 1977.
O spy movie, de seguida: só podemos entender que Marcelo foge por razão da sua atividade…secreta. Mas que tipo de agente secreto Marcelo é? Afinal, é ele que faz o título do filme. Mas é ele um espião? Agente do Governo? Agente estrangeiro? Nem um nem outro, nem o que vem a seguir. Neste filme, não há agente secreto algum. Secreto, no entanto, ele tenta ser, esconder-se na sua própria terra de origem, ocultar-se publicamente, tomar identidade diferente, refugiar-se enquanto lhe preparam os papéis para que a fuga o continue a levar para o estrangeiro, e em tudo isto se sente a lógica do spy movie, mas nunca realmente o chega a ser no sentido de um cinema da força máscula do “agente bondiano”, antes se torna o “thriller” que comenta a farsa da política dos dias de hoje e que pretende que se volte a olhar para o que foram a(s) ditadura(s) anteriores e que quer que se fale nas autocracias – o nome é diferente hoje em dia, mas o fundamento é o mesmo – que agora se tentam implantar, e é através da farsa do filme que é uma coisa e que no entanto passa todo o tempo a parecer aquilo que não é que se pode deixar dito e redito quanto o mundo estranho em que se vive agora é a negação de tudo quanto se fez para que se chegasse ao tempo (este e não outro) que deveria ser um de progressão, mas que afinal é um que alguns querem fazer ou revestir de um regresso a uma ordem antiga mas renovada, mas que mais não é do que profundamente iliberal (e isto para utilizar a palavra que se usa agora, e que não consegue fazer realmente significar o que ela quer realmente dizer).
A transferência da farsa que é o mundo atual para a farsa com que o filme se constrói (o agente secreto que se espera ver e nunca se vê realmente) sinaliza a posição e a política de Kleber Mendonça Filho: só pela lógica farsesca podemos realmente olhar para a mentira, só pela mentira do meio (a ilusão que se aceita que o cinema seja) se pode verdadeiramente ter uma forma de depurar o mal que lentamente se vai infiltrando na vida contemporânea e que é: o grande engodo dos que prometem a rápida limpeza da terra daqueles que não sejam dela – ou não fosse afinal o mundo de todos, francamente – e que tentam normalizar, pelo dizer do seu “politicamente incorreto”, o mais absurdo que é o absurdo do seu dizer e fazer.
Aceita-se que Kleber Mendonça Filho nos vá enganando – e estar numa sala de cinema não faz mal a ninguém, e um filme que joga com as expectativas de quem o vê muito menos o ataca – porque só assim, sabidos do que o filme é, de qual é seu comentário, é que poderemos saber-nos investidos do verdadeiro poder de quem faz cinema e de quem o vê: ainda valem as imagens e as histórias que querem dizer alguma coisa, que veiculam um testemunho e uma posição política, a mesma que este filme também afirma, que se tiver que ser pela farsa enquanto modo artístico que se possa ter uma forma de desmascarar os farsantes que querem acabar com as democracias e instalar as “novas fortes autocracias”, que assim o seja, pois estas segundas mais não serão do que os revestimentos da mesma ditadura que este filme toma como o seu setting e em que na qual a “indústria” pode encomendar a morte de um investigador que só quis colocar ao serviço do bem comum o seu próprio produto tecnológico (esse é o verdadeiro Marcelo, esse é o seu verdadeiro e secreto saber).
Chegado ao seu término, este “O Agente Secreto” é, claro, um thriller escorreito, bem feito, que mantém quem o vê à espera do que vai acontecer ao virar de cada esquina da cidade de Recife, e que, ainda por cima, faz também uma vistosa referência ao cinema popular do final dos anos 70, pela mão do “Tubarão” (faltava o terceiro género de salto: o horror movie), mas que é também, e sobretudo, mais um dos filmes recentes que tomam a forma fílmica e os seus modos de realização para poderem assim comentar politicamente as trevas que encobrem o nosso contemporâneo.

