O poder da solidão – o refúgio que nos pode aprisionar

A importância de estar só. O ter tempo para pensar, para refletir. Num estado psicológico saudável, o estar só é, muito provavelmente, das melhores coisas que uma pessoa pode disfrutar. Porém o chão pode desabar quando não é o caso. Quando não se escolhe estar só. A ansiedade, a inquietação, a angústia, surgem de todos os lados, levando ao tormento. Sem ninguém para nos amparar, podemos, sozinhos, construir rapidamente uma ponte e atravessá-la num ápice. Uma ponte que nos pode levar à loucura.

Alguns filmes desta lista apresentam esse mesmo estado, de loucura, outros não, derivam por caminhos diferentes, contudo, há, em todos eles, bem presente o sentimento de solidão. Podiam outros filmes fazer parte desta lista como “Perdido em Marte”, de 2015, “A Vida em Espera”, de 2016, “História de Um Fantasma”, de 2017, ou ainda, apesar de pertencer ao estilo de terror, “Carrie”, de 1976.

“Viver – Ikiru” (1952)

A procura pelo sentido da vida ou a procura por um sentido na vida. “A vida é breve”, canta um homem sentado num baloiço enquanto sobre ele cai neve. Um hino ao cinema. Um dos seus momentos mais bonitos.

O ator que tem mais participações nos filmes de Akira Kurosawa (22), apenas mais seis do que Toshirô Mifune, o segundo ator que mais colaborou com o realizador japonês, tem nesta obra uma das suas melhores performances, a par do que aconteceu em “Os Sete Samurai”. O ator conseguiu com esta prestação a segunda nomeação da carreira para os Bafta.

Realizador: Akira Kurosawa

Sinopse: Um homem tenta encontrar um sentido para a sua vida depois que descobre que tem cancro em fase terminal.

Elenco Principal: Takashi Shimura, Miki Odagiri, Kamatari Fujiwara, Yûnosuke Itô

“Os Incompreendidos” (1959)

A irreverência, a incompreensão, a juventude, a solidão. A importância de ter um porto. No ceio de uma família repleta de problemas, há o perigo de um jovem, sem qualquer apoio nem equilíbrio, sentir-se só e encetar o seu percurso por caminhos que se venham a revelar tumultuosos.

” – Os teus pais dizem que tu mentes sempre.

– Às vezes eu dizia a verdade e eles mesmo assim não acreditavam em mim. Então eu prefiro mentir”.

Realizador: François Truffaut

Sinopse: Um jovem, envereda pelo mundo do crime, cometendo pequenos delitos, depois de sentir que está praticamente sozinho no mundo.

Elenco Principal: Jean-Pierre Léaud, Patrick Auffay, Claire Maurier, Albert Rémy

“Taxi Driver” (1976)

A noite de Nova Iorque. Suja, violenta, imunda, é assim retratada por Martin Scorsese. Intenso, apesar do pacing lento, negro do princípio ao fim, o filme conta com umas das cenas mais icónicas do cinema: “Are you talkin’ to me?”.

Para além de retratar a ansiedade e a solidão que, no caso, leva um homem à loucura, o filme toca também em questões políticas e sociais.

Realizador: Martin Scorsese

Sinopse: Um homem com uma extrema dificuldade em dormir, decide começar a trabalhar como taxista durante a noite de forma a rentabilizar o tempo. Isso leva-o até ao mundo noturno da cidade de Nova Iorque.

Elenco Principal: Robert De Niro, Jodie Foster, Harvey Keitel, Cybill Shepherd

“Donnie Darko” (2001)

Mais do que um filme sobre viagens no tempo, “Donnie Darko” é um filme que abraça o conceito de solidão, através dos olhos de um adolescente com problemas psicológicos. Causa de um isolamento procurado pelo próprio, pelas dificuldades em socializar, este vai vivendo no seu próprio mundo, criando amigos imaginários, com a consciência de que não são reais, mas mesmo assim seguindo-os, cumprindo à risca as suas diretrizes, sem ponderar as consequências, dos seus atos, que se revelam irremediáveis.

Realizador: Richard Kelly

Sinopse: Depois de sobreviver a um estranho acidente, um adolescente é atormentado por visões de um homem vestido com um fato de coelho que o vai manipulando.

Elenco Principal: Jake Gyllenhaal, Mary McDonnell, Jena Malone, Maggie Gyllenhaal, James Duval

“Moon – O Outro lado da Lua” (2009)

A solidão controlada pelo foco. A sanidade pode ser mantida se houver uma crença em algo. Quando essa crença é abalada e se desvanece, pode ser desastroso. O qual é retratado no filme, de forma bem conseguida através de um dos melhores atores da sua geração: Sam Rockwell. Porém há um outro ator que, apesar de não aparecer fisicamente, a sua voz preenche a tela com uma presença significativa: Kevin Spacey.

Realizador: Duncan Jones

Sinopse: Um astronauta que, após estar três anos a trabalhar na Lua, sofre um acidente, descobrindo algo que o faz colocar tudo em causa.

Elenco Principal: Sam Rockwell, Kevin Spacey, Dominique McElligott

“Haverá Sangue” (2007)

Mais do que uma ambição completamente descontrolada e uma sede de vingança muito grande, a enorme solidão. Sem se dar conta, Daniel Plainview caminha a passos largos para esse estado. Atrás de riqueza sem olhar a meios, um homem pode perder-se na ilusão de que com isso poderá ter tudo. Petróleo e fé, são o mote para tudo isto.

Considerado pela crítica, Daniel Day-Lewis tem, com esta personagem, um dos melhores desempenhos alguma vez conseguidos por um ator em toda a história do cinema.

Realizador: Paul Thomas Anderson

Sinopse: Um homem decide mudar-se com o seu filho para a Califórnia quando tem conhecimento da existência de uma enorme quantidade de petróleo em Little Boston.

Elenco Principal: Daniel Day-Lewis, Paul Dano, Dillon Freasier, Ciarán Hinds

“O Lado Selvagem” (2007)

A importância de poder escolher quando estar só. O filme mostra o melhor e o pior lado de estar sozinho. O saudável que é poder sugar tudo o que de bom tem a natureza, sem quaisquer preocupações nem perturbações. Mostra também o deslumbramento disso mesmo. Como escreve num livro o protagonista do filme, “A felicidade só é total, quando é partilhada”.

Realizador: Sean Penn

Sinopse: Depois de terminar os estudos na Universidade, um jovem deixa os seus bens materiais para trás, e viaja para o Alasca para viver rodeado pela natureza.

Elenco Principal: Emile Hirsch, Hal Holbrook, Marcia Gay Harden, William Hurt, Kristen Stewart

“Amor” (2012)

A atriz, que muito provavelmente superou a performance do seu par, apesar de não ter sido assim reconhecido pela Academia aquando da entrega do Oscar de melhor atriz principal no ano de 2013, tem uma prestação absurdamente bem conseguida. A Emmanuelle Riva junta-se Jean-Louis Trintignant, com quem forma uma dupla magnífica. O filme que, para além do fantástico argumento que tem, vive muito das prestações dos seus atores, tem ainda a capacidade de mostrar um desempenho aguçado por parte de Isabelle Huppert.

Realizador: Michael Haneke

Sinopse: Um casal de octogenários vê a vida desmoronar-se quando a mulher sofre um derrame cerebral e fica, aos poucos, cada vez mais debilitada.

Elenco Principal: Jean-Louis Trintignant, Emmanuelle Riva, Isabelle Huppert, William Shimell

“Ida” (2013)

“Ida” é um filme sobre religião, sobre costumes, sobre história. É também sobre a procura de saber quem nós somos. No caso, uma jovem viaja à procura de respostas. Apesar de acompanhada por uma familiar, ela está sozinha na sua busca. Depois de descobrir quem é, ela escolhe quem quer ser. Questões importantes que são respondidas (no filme) através de uma profunda reflexão.

Realizador: Pawel Pawlikowski

Sinopse: Uma freira prestes a fazer os seus votos, descobre um segredo sobre a sua família que remete para a ocupação germânica na Polónia, durante a Segunda Guerra Mundial.

Elenco Principal: Agata Trzebuchowska, Agata Kulesza, Dawid Ogrodnik, Joanna Kulig

“A Propósito de Llewyn Davis” (2013)

A solidão é disfarçada quando a vida permite alguns apontamentos de generosidade. Porém a ilusão esfuma-se quando se volta a estar completamente sozinho e percebe-se que esse é mesmo o nosso estado. Aí constata-se que a nossa única companhia é a solidão. Extremamente fiel, ela acompanha-nos para todo o lado.

Realizadores: Ethan Coen, Joel Coen

Sinopse: Um músico que ambiciona viver da sua arte, vagueia pela cidade de guitarra na mão, na procura da grande oportunidade da sua vida, sobrevivendo com a ajuda dos seus amigos.

Elenco Principal: Oscar Isaac, Carey Mulligan, John Goodman, Justin Timberlake