A equipa do Cinema 7.ª Arte voltou a juntar-se para votar nos melhores filmes do ano. Os nossos membros (Cláudio Azevedo, Clara Mota, Diogo Vieira, Eduardo Magueta, Inês Paredes, Inês Neves, Luís Miranda, Nuno Oliveira, Pedro Henrique, Sofia Belém e Tiago Resende) elegeram “Roma”, de Alfonso Cuarón, como o melhor filme de 2018, um retrato pessoal sobre as memórias da infância do cineasta mexicano nos anos 70. “Shoplifters: Uma Família de Pequenos Ladrões” e “Chama-me Pelo Teu Nome” ocupam o segundo e terceiro lugares, respetivamente.

A família, a solidão, a descoberta do amor, a revolução poética e as barreiras culturais são os temas centrais destas obras que formam o que de melhor estreou nas salas de cinema portuguesas em 2018.

“Lady Bird”, “Colo”, “Ilha dos Cães”, “Olhares Lugares”,Três Cartazes à Beira da Estrada”, “Zama”, “Raiva”, “Gatos” e “Suspiria” são alguns dos filmes que integraram as listas individuais dos membros do Cinema 7.ª Arte, mas que acabaram por ficar de fora. Ao todo foram selecionados 60 filmes, dos quais resultaram dez finalistas.

Só foram contabilizados filmes que estrearam nas salas de cinema portuguesas entre janeiro e dezembro de 2018.

1.º – Roma, de Alfonso Cuarón – 89 Pontos

“Roma” é tradução da vida. As suas imagens parecem ser banhadas por uma luz que vem de fonte sobre-humana, que as veste de graça. Tudo o que aparece são “os signos escolhidos”, os que merecem uma elevação moral, uma dignificação pela arte. O próprio cinema recebe o seu maior elogio, pois o espaço do filme torna-se um lugar habitado.

Alfonso Cuarón opta por não se imiscuir dentro do filme através de uma personagem onde pudesse projetar a sua subjetividade, preferindo permanecer o observador discreto da sua própria história, para assim fazer reluzir, com uma naturalidade desconcertante, tudo o que aparece no ecrã.

Estamos perante um filme-poesia, onde o estilo contemplativo cria uma horizontalidade destruidora das noções mais abstratas sobre a vida. O filme evolui ao sabor das próprias imagens. Tudo é discretamente anunciado. A câmara passeia pelo espaço para captar os signos de forma incrivelmente subtil, numa conjugação de signos coesa. Não precisamos de grandes planos, nem de diálogos – muito menos de legendas ilustrativas – para percebermos a evolução temporal do filme ou a sua narrativa orgânica.

2.º – Shoplifters: Uma Família de Pequenos Ladrões, de Hirokazu Koreeda – 57 Pontos

Num dos inúmeros domicílios de Tóquio, num dos mais humildes e mais esconsos, a família é formada pela necessidade de sobrevivência através da partilha e da união de esforços para se alimentar, confortar, cuidar e resistir ao status quo capitalista que, sem os ignorar, se congratula por imaginar que as famílias não existem desta forma.

Hirokazu Koreeda constrói uma unidade familiar que se vale a si mesma, substituindo-se ao estado capitalista, embora a moralidade do seu comportamento tenha de ser reescrita, para que o seu desígnio familiar seja cumprido.

3.º – Chama-me Pelo Teu Nome, de Luca Guadagnino – 56 Pontos

Não podia faltar a referência a uma das histórias de amor mais badaladas do ano. “Chama-me Pelo teu Nome” é muito mais do que um filme sobre a homossexualidade. É sobre o primeiro amor, o desejo sexual e a nostalgia daquela que fora uma memória feliz, perdida no tempo. Luca Guadagnino capta na perfeição essas memórias e vivências únicas do verão, onde as longas tardes solarengas dão azo a novas experiências e a descobertas.

Uma experiência visual e sonora encantadora que ilustra a descoberta da orientação sexual através do primeiro amor. Refrescante obra cinematográfica, com uma realização moderna, carregada de pormenores, com um elenco secundário que brilha, mas claramente o destaque vai para a interpretação de Timothée Chalamet. São as lágrimas de Elio que nos ficam na memória.

4.º – No Coração da Escuridão, de Paul Schrader – 49 Pontos

O Reverendo Toller (Ethan Hawke) é um homem de fé, e a prova disso será o resultado de toda a sua luta interior. O filme é do veterano Paul Schrader, que nesta obra põe a olho nu como a fé pode ser uma chave para um problema ecológico que abrange toda a humanidade. 

Quando uma paroquiana grávida (Amanda Seyfried) pede ao Reverendo Toller para aconselhar o seu marido, um ambientalista radical, este vê-se mergulhado no seu próprio passado atormentado, e numa visão do futuro igualmente desesperada.

Esta é uma obra exigente que nos obriga a refletir sobre a “fé” e até que ponto esta está relacionada o mundo que habitamos.

5.º – Cold War: Guerra Fria, de Pawel Pawlikowski – 42 Pontos

“Cold War” dá-nos um épico em forma concentrada, com pouco menos de hora e meia de duração, embora com bastante sentimento e análise que dele podem ser exprimidos.

Tematicamente semelhante a “Ida”, embora aparentemente muito mais pessoal (Wiktor e Zula, personagens principais, são inspirados nos pais do realizador), o filme é claramente uma experiência do realizador polaco, que nos transporta na sua nostalgia a preto e branco pelas décadas e lugares distantes da Guerra Fria.

“Cold War” permite que partilhemos dessa experiência desoladora, mas sublime, e da melancolia que se arrasta, deixando cair pequenos bocados de esperança, como que nos oferecendo forças para continuar a viver.

6.º – Linha Fantasma, de Paul Thomas Anderson – 40 Pontos

Um filme com uma história pouco convencional contada de forma brilhante: “Linha Fantasma” é o desenrolar de um romance improvável entre Reynolds Woodcock, um costureiro de luxo, e Alma, uma empregada de café. À medida que as vidas das personagens se entrelaçam, o drama toma caminhos imprevisíveis e quase perturbadores, chegando até a um clímax embrenhado.

Quando o vi no cinema, foi um dos filmes que mais me arrepiou, que mais me sugou para a sua essência: toda a envolvente da história está tão bem construída que, naquele momento, a sala de cinema já não existia, só existia o filme.

A banda sonora belíssima amplia toda esta sensação, criando uma faísca no nosso íntimo que nos impede de desviar os olhos do ecrã por um momento que seja. É, sem dúvida, um filme que merece a sua posição neste destaque dos melhores filmes de 2018.

7.º – O Sacrifício de um Cervo Sagrado, de Yorgos Lanthimos – 38 Pontos

É logo na cena inicial, na qual se observa uma caixa torácica aberta com um coração a pulsar, que a respiração do espectador se constringe. Reconhecidamente adepto de narrativas insólitas (“A Lagosta”, “Canino”), Yorgos Lanthimos mantém-se fiel a esse registo, com “O Sacrifício de Um Cervo Sagrado” a ser premiado na categoria de Melhor Argumento no Festival de Cannes de 2017.

Ao estilo de uma tragédia grega, na qual o amor se debate com o ímpeto pela sobrevivência, Lanthimos avança sem medos, não temendo fazer uso do seu habitual tom sardónico – mais que evidente quando uma personagem morde e cospe um fragmento do seu próprio braço, declarando logo a seguir “É uma metáfora!”

Sim, é o género de filme em que essas coisas acontecem, mas também é o género de filme que faz pouco daqueles onde essas coisas acontecem. Já cervos é que nem vê-los. É uma metáfora.

8.º – The Florida Project, de Sean Baker – 34 Pontos

Depois do sucesso de “Tangerine” (2015), Sean Baker provou mais uma vez que dispensa grandes orçamentos. Embora seja um nome recente na indústria, já possui a sua marca registada: a câmara intimista, os não-atores, a estética de cores vibrantes e os argumentos que dão espaço para o improviso.

O filme coloca-nos como voyeurs do quotidiano em Magic Castle, um motel barato que fica do outro lado da estrada do paraíso infantil que é a Disney World. Conhecemos Moonee, uma criança excêntrica, confiante e cheia de energia, que imita as atitudes inconsequentes da jovem mãe, Halley. Willem Dafoe dá-nos de presente uma performance belíssima como ator secundário.

A subtileza da realização de Baker se encontra nos pormenores e é sob a perspectiva de Moonee que passamos a conhecer a realidade paradoxal de quem vive apenas com subsídio do estado, nas margens do ícone do entretenimento turístico ocidental.

9.º – Western, de Valeska Grisebach – 25 Pontos

Mais do que um enredo previsível ou de um desfile sôfrego de planos, “Western”, com o seu uso magistral do plano geral, dos cenários áridos e do espírito nómada do seu protagonista, como se de um verdadeiro western se tratasse, centra a sua ação na desconstrução da muralha cultural entre as suas personagens, transpondo-a lentamente; o que é apropriado, já que é necessário, também nós, nos habituarmos a um ritmo mais pausado para simpatizarmos com os costumes de uma cultura que nos é alheia, e por um território que não nos pertence, para que nasça a tolerância e o respeito para a poder compreender.

Há, no entanto, e cada vez mais, quem se inquiete com filmes que adotam um ritmo mais demorado e Valeska Grisebach pede-nos algo que nos é cada vez mais difícil de suportar: contemplar, observar. Fazer isto ao testemunhar os momentos de comunhão entre os operários alemães e os aldeões búlgaros, ao viver a viagem, saboreá-la, a apreciar o silêncio dos planos, a testemunhar o ruir de uma muralha que é simultaneamente representativo de uma aproximação entre as personagens no filme, e da nossa, como espectadores, com o cinema de Grisebach.

É na observação cuidada, na tolerância, na paciência e no respeito que nos compreendemos; e “Western” é disso um monumento.

10.º – No Intenso Agora, de João Moreira Salles – 23 Pontos

Para terminar, de forma intensa e alegre esta lista, é importante destacar uma das obras mais relevantes do ano cinematográfico, “No Intenso Agora”, um ensaio sobre o espírito poético e revolucionário do Maio de 68, que comemorou 50 anos em 2018. 

João Moreira Salles volta a realizar na primeira pessoa, desta vez recuperando imagens do Maio de 68, numa viagem ao passado. A partir de filmes amadores que a sua mãe registou como turista numa viagem à China durante a Revolução Cultural de Mao Tse Tung, o realizador brasileiro faz um ensaio onde compara imagens do Maio de 68, em Paris, passando pela Primavera de Praga, indo até à morte de um estudante no Brasil que levou a uma revolta estudantil. 

O realizador lê o que está oculto nas imagens. “Nem sempre sabemos o que estamos a filmar.” Ele desmonta as imagens que são também documentos e interpreta-as. No silêncio das imagens elas falam a uma só voz. A de Salles, que narrou na primeira pessoa, num tom triste e melancólico.

O filme é triste, mesmo que seja sobre a felicidade. Uma felicidade desaparecida, difícil de reencontrar. Podemos falar de saudade, de um fado. Não é por acaso que o filme termina com um fado, “Não Quero Rosas Vermelhas”, de Maria Alice

Melancólico, poético e nostálgico, é um filme fundamental para compreendermos aqueles momentos intensos que constituem aquele que é talvez o movimento social mais importante do século XX na Europa. Um filme atual sobre o poder da imagem, que nos questiona constantemente sobre as várias leituras que estas podem ter; sobre como viver intensamente e sobre aqueles homens e mulheres que lutaram apaixonadamente. É um filme que vive no intenso agora.