Quem levará o urso em Berlim? Numa competição sem grandes títulos, “Past Lives” de Celine Young parece ser o mais cotado

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Numa das mais fracas competições dos últimos anos, a estreia da canadiana-coreana Celina Song “Past Lives” parece ser uma escolha inevitável. No entanto, João Canijo, com o seu díptico “Mal Viver / Viver Mal” pode ser uma das grandes surpresas.

2023 ficou marcado como o grande retorno à velha fórmula do festival de Berlim, depois de dois anos marcado por interrupções causadas pela pandemia. No entanto, com quase 400 filmes no catálogo, e os melhores filmes espalhados pelas seções paralelas, a competição da 73ª edição em Berlim mostrou-se com muito pouco fôlego.

A depender dos prémios entregues nesta tarde de sábado pelos júris independentes, parece que os dois “filmes com crianças” da competição encontraram algum eco junto aos jurados. O espanhol “20.000 Especies de Abejas” (prémio Guild Film Prize e dos leitores do jornal Berliner Morgenpost) de Estibaliz Urresola Solaguren e o mexicano Tótem (prémio do júri ecuménico) de Lila Avilés foram dois dos filmes que mais receberam reações positivas ao longo desta semana.

O filme da espanhola Solaguren, que conta a história de um menino de 8 anos que não se identifica com o seu género masculino, trouxe à memória um belíssimo filme de 1997, o belga “Minha Vida em Cor de Rosa” de Alain Berliner que já 23 anos atrás, quando ainda não se discutia a questão de crianças transgénero, trazia o dilema de Ludovic, um menino de 9 anos que na verdade era uma menina. Sem poder contar com a ajuda da sua família, Ludovic cria então um mundo paralelo habitado apenas pela sua boneca Pam, que neste mundo lúdico e imaginário, servia como uma espécie de mentora o ajudando a navegar por um mundo binário e hostil.

O filme da espanhola no entanto é demasiado temeroso do território que quer explorar para ter a força avassaladora do filme belga, se apresentando com ares de portador de uma missão social, desenvolvendo pequenos sermões identitários ao longo de quase toda a sua duração. “Não existem brinquedos para meninos e para meninas” esclarece a avó da criança, dentre inúmeras frases do género que parece de certa forma querer educar a sua audiência a todo instante.

Os dois filmes aliás, “Totem” e “Abejas”, fazem parte daquele mesmo universo onde está o “Alcarrás” de Carla Simón, vencedor do urso o ano passado.  Não só na forma em como exploram com delicadeza, e diga-se, previsibilidade, o seu mundo infantil mas também na hercúlea tarefa de desenvolver um enorme ensemble familiar e os seus dramas individuais. Carla Simón, que por sinal faz parte do júri internacional, talvez possa olhar com alguma simpatia para estes dois filmes um tanto inofensivos.

Logo a seguir, chegou um estranho e envolvente filme da Austrália, “The Survival of Kindness” em que uma mulher aborígene “Black Woman” (Mwajemi Hussein) é colocada em uma jaula e deixada para morrer no deserto impiedoso de um mundo pós apocalíptico australiano que foi dizimado por um vírus.

Testemunhamos por quase meia hora, no mais absoluto silêncio, a mulher tentando se livrar da sua prisão. Depois de conseguir escapar da jaula, Black Woman começa então  a sua aventura de volta à civilização. No entanto, para onde quer que ela vá, nossa heroína se depara com solidão, sofrimento e destruição. O primeiro diálogo do filme, que é inteligível para nós, só chega quase uma hora depois e esse detalhe é uma das coisas mais fascinantes do filme de Rolf de Heer, que criou um épico distópico e atordoante que impressiona na sua primeira metade mas que perde um pouco da força perto da sua conclusão. Foi um dos mais discretos filmes a estrear nos primeiros dias do festival e é muito improvável que para além da sua originalidade despertará mais interesse perante ao júri internacional.

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Um “Taxi Driver” com cheiro a esteróides

Semanas depois que o autoproclamado misógino Andrew Tate fez manchetes pelo mundo após sua prisão na Romênia por tráfico humano e após uma mediática briga com Greta Thumberg no Twitter, Manodrome do sul africano John Trengrove chegou na competição em Berlim com um apurado senso de timing.

Foi um dos filmes mais discutidos nos primeiros dias do festival, no estilo ame-o ou deixe-o, e contava a história de Ralphie (Jesse Eisenberg) um motorista da Uber frustrado e ansioso, que é atraído para um culto de “ideologia masculina” liderado por Dad Dan (Adrien Brody). Nas suas reuniões, o guru do grupo encoraja os seus discípulos a desbloquearem o seu imenso poder e a cortar todos os laços com as mulheres que estão a “empatar as suas vidas”.

As comparações com “Taxi Driver” e “Clube de Combate” foram inevitáveis mas no final ficou apenas um pastiche sem sentido destes dois filmes, e pelo qual nunca compreendemos muito bem as motivações do seu protagonista.

O problema de “Manodrome” é que ele é um filme demasiado enamorado de um certo discurso corrente, já muito dissecado, sobre os efeitos da “masculinidade tóxica” na sua retórica enganosa, e como até homens comuns podem sucumbir à violência enquanto afirmam estar “recuperando o seu potencial”.

Há muito que se discute em como o movimento #MeToo apesar dos seus enormes progressos, deu origem a um certo tipo de “backlash” masculino. Basta ver a popularidade de intelectuais como Jordan Peterson e o seu enorme apelo entre homens jovens e brancos. No entanto, o filme de Trengrove em toda a sua ambição barulhenta cheia de testosterona não acrescenta nada a este debate, mas deverá com certeza se beneficiar de todo o “buzz” do festival. Há cinco anos o realizador exibiu aqui na Panorama, o seu muito interessante “The Wound” sobre um rapaz gay que se vê envolvido num ritual de iniciação à virilidade num ambiente homofóbico e reacionário algures no Sul da Africa. Trengove agora é promovido a competição principal da Berlinale mas infelizmente não soube dar continuidade aos temas inquietantes do seu filme anterior.

Depois tivemos João Canijo e os seus “Mal Viver / Viver Mal” que se revelaram num dos acontecimentos desta Berlinale. Foram os filmes mais comentados na quinta-feira à seguir a estreia de “Mal Viver”, o primeiro filme, e tanto obteve a nota máxima no poll dos jurados do portal polaco Pelna Sala como foi um dos filmes mais rejeitados no famoso grid dos críticos publicado diariamente pela revista Screen Daily. O díptico de Canijo é uma experiência difícil e complexa, que necessita de um certo comprometimento da sua audiência, e que precisa ser visto em conjunto para que se compreenda toda a sua extensão dramática. No entanto para os bravos que se deixam penetrar, o filme do realizador revela-se numa experiência única e recompensadora. Agora resta saber se o júri de Kristen Stewart terá a mesma dedicação e paciência.

screen daily jury grid 4Chegamos então a Past Lives, provavelmente o filme mais unânime que estreou nesta competição de 2023, e junto com o último Christian Petzold “Roter Himmel”, é um dos grandes favoritos ao prêmio principal. A estreia de Celine Song é um daqueles filmes que chegou à Berlim com um enorme hype vindo de Sundance. Era também o único filme que o festival dividiu com o festival americano que chegou ao fim na metade de Janeiro. E para um festival do porte da Berlinale abdicar da exclusividade da estreia mundial do filme (um dos quesitos da Competição) era já um grande indício de um filme que iria causar algum impacto.

No filme escrito e realizado por Song, somos apresentados à história de Nora (Greta Lee) e Hae Sung (Teo Yoo), dois amigos de infância profundamente conectados, que são separados após a família de Nora emigrar da Coreia do Sul para o Canadá. Duas décadas depois, com Nora já casada e vivendo em Nova Iorque, ela volta a se encontrar com Hae Sung para uma semana decisiva, enquanto confrontam noções de destino e as escolhas que moldam uma vida.

“Past Lives” é um filme que habita aquele mesmo universo de sutileza de Aftersun, (Charlotte Wells) e que foca nos pequenos gestos para falar de coisas grandes. É um filme que aborda as relações que perdemos ao longo da vida e as múltiplas identidades que assumimos nesta nossa jornada. O filme autobiográfico de Song parece sugerir que embora passemos por transformações e evoluções, no fundo ainda somos essencialmente as mesmas pessoas. Se estas previsões se concretizarão ou não, o resultado se conhecerá logo à noite, com transmissão direta na página do festival e no seu canal do YouTube.

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