“Resistência!”, gritava a produtora Sara Silveira na coletiva de apresentação de “Todos Os Mortos”, o filme dirigido pela dupla Marco Dutra e Caetano Gotardo. “Eles terão de ouvir e ver meus filmes, porque estarei sempre lutando e mostrando para eles. Nós vamos resistir! Nós vamos vencer!”

O manifesto foi aplaudido calorosamente pelos jornalistas presentes e denunciava o atual momento político brasileiro, decorrente das políticas de perseguição do novo governo ao cinema e à cultura brasileira.

Já tínhamos relatado aqui que a escolha de 19 produções brasileiras espalhadas pelas várias secções do festival, assim como a escolha de Kléber Mendonça Filho entre os jurados do concurso principal, não se tratou de mera coincidência. “Estamos mandando um recado”, disse Carlo Chatrian, o diretor artístico do festival à Deutsche Welle esta semana.

E foi neste clima de protestos que o Brasil andou por todo lado na Berlinale de 2020. A revista Variety de sexta-feira deu três páginas inteiras dedicadas ao país, uma delas inclusive estampando a foto de Bolsonaro e classificando o cenário atual como um “novo apocalipse”; chamando a atenção para os 43% de cortes nos fundos da Ancine, agência dedicada à produção cinematográfica brasileira.

O dia de protestos fazia ecoar “Todos os Mortos”, o filme incompreendido dos paulistas. Filme que chegou tímido na tarde do domingo, mas que foi dominando as conversas e debates entre os jornalistas. “Incompreendido” porque foi um daqueles típicos filmes que dividiu a crítica no festival. Teve quem adorou, mas também teve muita gente que abandonou a sala durante a projeção para a imprensa. “Todos Os Mortos”, de fato, não é um filme para todos, mas, para quem ficou até o final, saiu recompensado e presenciou um filme grandioso, necessário, que é todo feito de silêncios, às vezes beirando um formalismo rígido, quase teatral, na forma como os atores discorrem as suas falas e em como é divido em capítulos.

A história toda se passa em São Paulo, pouco mais de dez anos após a proclamação da república e da libertação dos escravos. O filme segue duas famílias, a dos Soares, a família branca de classe média, que num passado não muito distante viviam da produção do café, mas que, agora, enfrentam uma série de problemas, não só financeiros, mas também de ordem social: se debatem para se adaptarem a uma nova sociedade, sem escravos e sem subalternos.

A outra família é a de Iná (memorável Mawusi Tulani), ex-escrava dos Soares, que na companhia do seu filho adolescente, este que já nasceu dentro deste novo cenário de “liberdade”, juntos tentam navegar por uma cidade austera que ainda não os reconhece para além da cor da sua pele.

E assim o Brasil volta à competição da Berlinale, desenterrando (e literalmente enterrando) o seu passado, que teima em existir, para mostrar que afinal tudo continua como cem anos atrás.

Muita gente se lembrou do Joaquim de Marcelo Gomes, que há dois anos estava aqui em Berlim, e que também contava uma história de escravos e colonizadores e as origens do racismo estrutural que perpetuamente soube se organizar numa sociedade sempre tão hostil à diversidade.

No entanto, o filme que vem à memória é o recente “Feliz Como Lázaro”, da italiana Alice Rohrwacher. Não somente porque os dois filmes têm a câmara sob comando da talentosa Hélène Louvart, mas assim como em “Lázaro”, o filme de Dutra e Caetano falam da promessa do progresso, da promessa das garantias de dignidade, as quais no final acabam por se revelar utopias que só se movem de contextos.

Lembramo-nos de um texto belíssimo de Luís Fernando Vianna na Folha de São Paulo, a propósito da ascenção de classes que o partido dos trabalhadores promoveu na época em que estava no poder. No artigo, Vianna argumentava que trocando um governo de esquerda por um de direita “mudava-se para não mudar”, pois afinal o governo de Lula tinha “bagunçado um contrato social de 500 anos”.

O grito de Sara Silveira nunca fez tanto sentido agora e precisa ser ouvido lá do outro lado, para que se continue a lutar, a fazer filmes e a resistir.