A 40.ª edição dos Prémios Goya, o mais importante galardão do cinema espanhol, decorreu na noite de sábado (28), em Barcelona, assinalando quatro décadas da Academia de Cinema. A cerimónia consagrou dois títulos como grandes vencedores: “Sirât”, de Oliver Laxe, e “Los Domingos”, de Alauda Ruiz de Azúa.
“Sirât”, que representa Espanha na corrida ao Óscar, onde disputa as categorias de Melhor Filme Internacional e Melhor Som, partia com dez nomeações e arrecadou seis estatuetas, todas técnicas, incluindo Som, Música Original, Fotografia, Montagem, Direcção de Produção e Direcção Artística. O filme já havia sido distinguido com o Prémio do Júri no Festival de Cannes de 2025, reforçando o seu percurso internacional.
Já “Los Domingos”, um drama centrado no conflito familiar desencadeado pelo anúncio de uma jovem que decide tornar-se freira, foi o grande vencedor da noite no que toca aos principais prémios. Com 13 nomeações, conquistou cinco distinções, Melhor Filme, Melhor Realização e Melhor Argumento Original, todos para Alauda Ruiz de Azúa, além de Melhor Actriz, para Patricia López Arnaiz, e Melhor Actriz Secundária, para Nagore Aranburu.
No palco, a realizadora basca sublinhou ter escrito o argumento “sem medo” e apelou ao fim da indiferença perante a injustiça, lembrando que, em 40 anos de história dos Goya, apenas três mulheres haviam vencido na categoria de Realização.
Outros vencedores
Entre os restantes premiados, destacou-se “Sorda”, de Eva Libertad, que arrecadou três distinções. A cineasta venceu o prémio de Melhor Realização de Estreia, integrando a lista de realizadoras distinguidas nesta categoria nos últimos seis anos, na sequência de Clara Roquet, Carla Simón, Arantxa Echevarría, Belén Funes e Pilar Palomero, uma série interrompida apenas no ano passado por Javier Macipe. O filme valeu ainda o prémio de Melhor Actor Secundário a Álvaro Cervantes e o de Melhor Actriz Revelação a Miriam Garlo.
O galardão de Melhor Actor foi atribuído a José Ramón Soroiz, pelo seu desempenho em “Maspalomas”. Visivelmente emocionado, o veterano actor basco afirmou que Vicente, a personagem que interpretou, o fez “muito feliz”, acrescentando que espera que “todos os Vicentes deste mundo também sejam felizes”.
Já o prémio de Actor Revelação distinguiu Antonio “Toni” Fernández Gabarre pelo seu trabalho em “Ciudad sin sueño”.
Contexto internacional
O contexto internacional marcou a cerimónia com um tom político. O actor Luis Tosar, apresentador da gala ao lado de Rigoberta Bandini, abriu a noite ostentando um broche com a palavra “Palestina” e condenou o que descreveu como genocídio em Gaza, sob aplausos do público.
Vários vencedores subiram ao palco com mensagens de apoio à causa palestiniana. Também o argumentista Joaquín Oristrell, distinguido pelo argumento adaptado de “La Cena”, criticou, no seu discurso, líderes que governam por caprichos, negam a violência de género e as alterações climáticas, e deportam imigrantes.
Nos prémios internacionais, o Goya de Melhor Filme Ibero-Americano foi para a produção argentina “Belén”, enquanto o norueguês “Valor Sentimental” venceu como Melhor Filme Europeu e “Decorado” arrecadou o prémio de Melhor Filme de Animação.
Susan Sarandon e outras honrarias
Um dos momentos mais marcantes da noite foi a entrega do Goya Internacional a Susan Sarandon, apresentada pelo presidente da Academia, Fernando Méndez-Leite. Ao anunciar a distinção, Méndez-Leite sublinhou que o prémio reconhece “o seu extraordinário talento como actriz e o seu compromisso, como mulher e cidadã, com muitas das causas que nos entristecem e envergonham”.
A actriz norte-americana, vencedora do Óscar por “A Última Caminhada”, agradeceu emocionada a homenagem e centrou o seu discurso na actual situação política internacional, apelando à coragem, à consciência cívica e à responsabilidade colectiva.

Também Gonzalo Suárez foi distinguido com o Goya de Honra pelo conjunto da sua carreira. Aos 91 anos, o realizador evocou Barcelona como a cidade onde iniciou o seu percurso literário e cinematográfico, defendendo o cinema como o último refúgio para o devaneio num tempo marcado por novas tecnologias e realidades virtuais.

Audiências
A gala dos Prémios Goya foi acompanhada por 2.396.000 telespectadores no sábado, através da La 1, o que representa o melhor resultado dos últimos três anos, desde 2023. A transmissão alcançou uma quota de ecrã de 26%, a percentagem mais elevada desde 2020 e mais 1,6 pontos percentuais face à edição anterior.
A cerimónia, apresentada por Rigoberta Bandini e Luis Tosar, registou ainda a maior vantagem de sempre sobre a segunda opção da grelha televisiva, com uma diferença de 18,5 pontos percentuais.
O momento de maior audiência ocorreu às 23h01, com 2.808.000 espectadores e uma quota de 25,4%. No ano anterior, o pico situara-se nos 2.791.000 telespectadores e 24,9% de quota. A gala liderou entre o público feminino, com 28,5%, e destacou-se particularmente nas faixas etárias dos 13 aos 24 anos, com 37,6%, dos 25 aos 44 anos, com 32,5%, e dos 45 aos 64 anos, com 28,6%.
O especial dedicado à passadeira vermelha reuniu 1.048.000 espectadores e alcançou uma quota de 12,1%, o melhor resultado desde 2022.
Também na plataforma digital RTVE Play se registou uma forte adesão, com 305.264 utilizadores a acompanhar a transmissão.
Veja a lista completa de vencedores dos Prémios Goya 2026:
- Melhor Filme: Los Domingos
- Melhor Realização: Alauda Ruiz de Azúa (Los Domingos)
- Melhor Actriz: Patricia López Arnaiz (Los Domingos)
- Melhor Actor: José Ramón Soroiz (Maspalomas)
- Melhor Realização de Estreia: Eva Libertad (Surda)
- Melhor Argumento Original: Alauda Ruiz de Azúa (Los Domingos)
- Melhor Argumento Adaptado: Joaquín Oristrell, Manuel Gómez Pereira e Yolanda García Serrano (La Cena)
- Melhor Direcção Artística: Laia Ateca (Sirāt)
- Melhor Actor Secundário: Álvaro Cervantes (Surda)
- Melhor Actriz Secundária: Nagore Aramburu (Los Domingos)
- Melhor Actriz Revelação: Miriam Garlo (Surda)
- Melhor Actor Revelação: Toni Fernández Gabarre (Sleepless City)
- Melhor Documentário: Albert Serra (Tardes de Solidão)
- Melhor Filme de Animação: Decorado, de Alberto Vásquez, Chelo Loureiro, Iván Miñambres e José María Fernández de Vega
- Melhor Som: Amanda Villavieja, Laia Casanovas e Yasmina Praderas (Sirāt)
- Melhor Música Original: Kangding Ray (Sirāt)
- Melhor Fotografia: Mauro Herce (Sirāt)
- Melhor Montagem: Cristóbal Fernández (Sirāt)
- Melhor Direcção de Produção: Oriol Maymó (Sirāt)
- Melhor Canção Original: Alba Flores e Sílvia Pérez Cruz (Flowers for Antonio)
- Melhores Efeitos Especiais: Paula Gallifa Rubia e Ana Rubio (Los Tigres)
- Melhor Guarda-Roupa: Helena Sanchís (La Cena)
- Melhor Maquilhagem e Cabelos: Ana López-Puigcerver, Belén López-Puigcerver e Nacho Díaz (The Captive)
- Melhor Filme Ibero-Americano: Belén, de Dolores Fonzi (Argentina)
- Melhor Filme Europeu: Valor Sentimental, de Joachim Trier
- Melhor Curta-Metragem de Ficção: Angulo Muerto, de Cristian Beteta
- Melhor Curta-Metragem de Animação: Gilbert, de Jordi Jiménez, Arturo Lacal e Alex Salu
- Melhor Curta-Metragem Documental: El Santo, de Carlo D’Ursi
- Goya de Honra: Gonzalo Suárez
- Goya Internacional: Susan Sarandon

