Há quase uma semana a ocupar, com a desenvoltura de quem chega para ficar, as salas brasileiras e portuguesas, “Zootrópolis 2”, a sequela do êxito de 2016 que pôs miúdos e graúdos a conspirarem simpatias por coelhos policiais e raposas ladinas, decidiu não apenas regressar, mas instaurar uma nova ordem cinematográfica, a da animação em modo superlativo.
Em Portugal, o primeiro fim-de-semana de exibição rendeu uns eloquentes 65 947 bilhetes, ultrapassando a estreia do filme inaugural, que em 2016 se ficara pelos 61 599 espectadores no mesmo intervalo.
Do outro lado do Atlântico, no sempre exuberante mercado brasileiro, a abertura foi de 822 650 bilhetes, o que, traduzido em termos de hegemonia, corresponde a 64,7% de todos os ingressos vendidos no país naquele período. Uma verdadeira ocupação territorial, digna de um manual de estratégia urbana da própria “Zootrópolis”.
China
Mas a saga não se quedou pelo domínio lusófono. Na China, onde o filme teve um lançamento de contornos históricos, desenrolou-se a primeira peça de um fenómeno global. O resultado foi uma estreia planetária de 559,5 milhões de dólares, cifra que consagra a produção como a maior abertura de todos os tempos no género. Na ultrapassagem elegante e, admitamos, vagamente malandra, ficou “Ne Zha 2”, anterior detentora do recorde, agora reduzida à confortável posição de nota de rodapé.
Críticos, público e recordes
O aplauso crítico acompanhou o frenesim das bilheteiras. No Rotten Tomatoes, o filme ostenta o cobiçado selo Certified Fresh, sustentado por 92% de aprovação da crítica especializada. No reino do público, mais de 2 500 apreciações conduziram o filme a uns inacreditáveis 96%, superando o já venerado “Zootrópolis” de 2016, que repousava satisfeito nos seus 92%. A populaça, como se vê, não tem dúvidas: a segunda investida é, pelo menos por ora, a mais saborosa.
Analistas internacionais sugerem que, mantendo este fôlego, o filme não tardará a romper a simbólica barreira do milhar de milhão de dólares. Para aqueles que pedem provas, deixemos então, não sem algum deleite catalográfico, o inventário dos feitos já reclamados por “Zootrópolis 2”.
Recordes
No panorama global, “Zootrópolis 2” instalou-se no topo da História da animação com uma estreia monumental de 559,5 milhões de dólares, destronando sem cerimónia “Ne Zha 2” e os seus 431,22 milhões. O feito valeu-lhe ainda a distinção de quarta maior abertura mundial de sempre, ficando apenas atrás dos titãs “Vingadores: Endgame” (2019), “Vingadores: Guerra do Infinito” (2018) e “Homem-Aranha: Sem Volta a Casa” (2021).
Em 2025, nenhuma outra produção ousou aproximar-se: foi a maior abertura global do ano, retomando o posto que antes pertencia também a “Ne Zha 2”. Entre as sequelas animadas, a supremacia é igualmente absoluta, relegando “Vaiana 2” (2024) e os seus 389,3 milhões para um distante segundo plano.
A Disney, por seu turno, viu nascer a sua maior abertura de animação de sempre e o cinema de 2025 assistiu ao melhor arranque de qualquer sequência desde 2021, superando novamente o omnipresente “Homem-Aranha: Sem Volta a Casa”. No remate do fim-de-semana inaugural, o filme ocupava, com autoridade inquestionada, o primeiro lugar nos mercados global, doméstico e internacional.
No território internacional, a recepção foi igualmente estrondosa. Na China, “Zootrópolis 2” alcançou a sexta maior abertura de sempre, considerando produções locais e estrangeiras, e firmou a segunda maior estreia de um filme estrangeiro no país. Nenhuma animação não chinesa tinha, até então, chegado tão longe.
Globalmente, o êxito reiterou-se: tratou-se da quarta maior abertura internacional da História e, dentro do género, a maior estreia internacional de uma animação alguma vez registada. Nenhum filme de Hollywood em 2025 conseguiu igualar-lhe o fôlego além-fronteiras. Estreou em primeiro lugar na quase totalidade dos mercados internacionais, com excepção apenas do Reino Unido e das Filipinas.
E, para completar a geografia do triunfo, estabeleceu a maior abertura da Walt Disney Animation Studios na Polónia, Hungria, Cazaquistão, Eslováquia, Turquia, Ucrânia, Hong Kong, Taiwan, Vietname e Bolívia.
Zootrópolis 2
Uma semana após a odisseia inaugural, Judy Hopps e Nick Wilde reencontram-se para mais uma deriva investigativa que os levará a perseguir o rasto esquivo de um réptil cuja identidade se perde entre sombras e rumores.
A dupla, célebre pela combinação improvável de método e astúcia, vê-se agora compelida a explorar recantos até então inominados da metrópole animal, zonas onde a própria arquitectura urbana parece conspirar com o mistério. O regresso ao Universo Zootrópolis implicou, para os seus artífices, um exercício quase alquímico de reinvenção que procurou ampliar o território narrativo sem o desnaturar.
Jared Bush, realizador e argumentista da obra, confidenciou à SIC que revisitar aquele mundo exigiu um longo processo de interrogação criativa. O cineasta explicou que era necessário encontrar uma narrativa capaz de preservar o fulgor, a vertigem e a leveza do primeiro filme sem cair no déjà-vu, e que, ao mesmo tempo, tivesse a ambição de reverberar para além das fronteiras culturais e temporais. O gesto criativo, afirmou, permanece orientado por um ideal quase utópico de conceber histórias que ressoem universalmente e se mantenham vivas muito para além do seu momento de estreia.
O desenvolvimento de “Zootrópolis 2” começou a ganhar forma ainda em 2016, pouco depois de o capítulo inaugural conquistar um Óscar e seduzir plateias nos quatro cantos do globo.
Bush descreveu também o labor minucioso que guiou a evolução das personagens centrais. Observou que Judy e Nick, seres distintos na forma como interpretam o mundo, acabam por descobrir que é exatamente essa divergência, esse atrito fecundo entre visões opostas, que lhes concede força, cumplicidade e uma inesperada profundidade dramática.

