Na noite de 12 de novembro de 1896 no então Teatro do Príncipe Real (atual Teatro Sá da Bandeira) no Porto, foi apresentado ao público o Kinetógrapho português pelas mãos de Aurélio da Paz dos Reis (1862-1931), pioneiro do cinema português. Hoje, celebram-se os 122 anos de Cinema Português.

A bem da verdade, poderíamos apelidar o Porto de “cidade das imagens” desde “o Porto e os seus fotógrafos” até ao cinema. “O Porto merece, assim, o estatuto de capital da imagem.” (1)

A cidade desempenhou um papel crucial para o desenvolvimento das artes cinematográficas em Portugal, mantendo-se sempre na linha da frente dos progressos tecnológicos. Apenas um ano depois dos irmãos Lumière terem apresentado o cinematógrafo em Paris (12 de dezembro de 1895), nascia na cidade do Porto o cinema português.

O cartaz que anunciava a chegado do Kinetógrapho português, dizia que este era “a última maravilha do século XIX”. Eram as projeções luminosas, em tamanho real, da fotografia animada apresentada por Aurélio da Paz dos Reis. “Quadros grandiosos, representando episódios movimentados da vida portuguesa, além de outros dos mais célebres assuntos estrangeiros. O Kinetógrapho é um aperfeiçoamento dos aparelhos denominados: animatógrapho, cinematógrapho, vitagrapho, etc.., que, há perto de um ano, fora obtido e continua a obter o maior dos sucessos em todas as capitais onde se tem exibido este famoso invento do grande eletricista Edison.”

“Saída do Pessoal Operário da Fábrica Confiança” veio a tornar-se no primeiro filme português. Nessa noite, foram ainda apresentados os seguintes filmes: “Feira de Gado na Corujeira”, “Chegada de um comboio americano a Cadouços”, “O Zé Pereira na Romaria de Santo Tirso”, “Azenhas no rio Ave”, entre outros.

Este foi o momento histórico em que o Porto esteve a par do resto da Europa como pioneiro do cinema. Aurélio exibiu os seus filmes com êxito no Porto e Braga, viajou até ao Brasil e caiu no silêncio.  Viria a morrer no dia 19 de setembro de 1931, aos 69 anos, vítima de congestão cerebral. O kinetógrapho português de Paz dos Reis veio a fracassar, tendo caído um pouco no esquecimento, ao contrário do que aconteceu no resto do mundo, onde realizadores como Georges Méliès (em França), Edwin S. Porter e David W. Griffith (nos E.U.A) prosperavam e transformavam o cinema em entretenimento e indústria.

Mas o cinema português não morreu aí. Em Lisboa, surgiram duas importantes empresas na área do cinema: a Portugália Film e a Lusitania Film, que rapidamente abriram falência. Foi preciso esperar mais de uma década para que o cinema português vivesse um novo momento de glória.

Mais uma vez, o Porto ocuparia o local de destaque neste renascimento, que ocorreu no ano de 1912. Foi então que o empresário Alfredo Nunes de Matos registou uma produtora com a designação de Nunes de Matos & Cia. – (Invicta Film) com a qual daria os primeiros passos na criação de pequenos filmes.

Todavia, só em 1917 Nunes de Matos arrisca em dar uma nova vida à empresa, passando a chamar-se apenas Invicta Film, Lda. Nesse ano, foram construídos no Carvalhido os estúdios da Invicta Film, que se tornariam num dos maiores e mais bem equipados estúdios de cinema da Europa. O referido estúdio tinha como ambição colocar Portugal nas lides da cinematografia europeia.

Nos anos vinte, a indústria cinematográfica portuguesa cresceu muito graças aos estúdios da Invicta, uma vez que atraíram técnicos e realizadores estrangeiros de toda a Europa, como Rino Lupo e George Pallu“Esta ‘fábrica de sonhos’ teve uma existência relativamente breve, mas vivida com grande intensidade.” (2)

De 1896 a 2018, passaram-se 122 anos de uma cinematografia com uma identidade própria que foi evoluindo lentamente, contando histórias ligadas às raízes de um povo. Há muitas formas de contar histórias e, como disse Saramago, “tudo pode ser contado doutra maneira”.

Os nomes que se seguem representam um breve resumo de 122 anos de cinema português, marcado por grandes cineastas e obras incontornáveis da cultura cinematográfica: “Douro, Faina Fluvial” (1929), de Manoel de Oliveira, “Maria do Mar” (1930), de Leitão de Barros, “A Canção da Terra” (1938), de Jorge Brum do Canto, “O Pai Tirano” (1941), de António Lopes Ribeiro, “Saltimbancos” (1951), de Manuel Guimarães, “Os Verdes Anos” (1963), de Paulo Rocha, “Belarmino” (1964), de Fernando Lopes, “Torre Bela” (1975), de Thomas Harlan, “O Sangue” (1989), de Pedro Costa, “Recordações da Casa Amarela” (1989), de João César Monteiro, “Cinco Dias, Cinco Noites” (1996), de José Fonseca e Costa, “Os Mutantes” (1998), de Teresa Villaverde, “Capitães de Abril” (2000), de Maria de Medeiros, “Lisboetas” (2004), de Sérgio Tréfaut, “José e Pilar” (2010), de Miguel Gonçalves Mendes, “Filme do Desassossego” (2010), de João Botelho, “Mistérios de Lisboa” (2010), de Raoul Ruiz, “Tabu” (2012), de Miguel Gomes, “Linha Vermelha” (2012), de José Filipe Costa, “E Agora? Lembra-me” (2013), de Joaquim Pinto, “A mãe e o mar”(2013), de Gonçalo Tocha, “Montanha” (2015), de João Salaviza, “São Jorge” (2016), de Marco Martins, “Eldorado XXI” (2016), de Salomé Lamas, “Fátima” (2017), de João Canijo, “A Fábrica de Nada” (2017), de Pedro Pinho.

Ler artigo “A Cidade e as Salas de Cinema. As Salas de Cinema e a Cidade – As Salas do Porto”

1) “O Porto na História do Cinema”, de Sérgio C. Andrade, Porto Editora, 2001

2) REAL, Manuel Luís, [e tal.], eds. – Filmes na Invicta: A Militância do Cineclube do Porto. Porto: produzido pela Câmara Municipal do Porto e Pelouro da Cultura, Turismo e Lazer – DMC, coordenado por Manuel Luís Real e Maria Helena Gil Braga, dezembro 2008.