A Casa do Cinema de Coimbra promove uma sessão especial de “Praia Formosa” no domingo, 1 de junho, às 16h15. Após a exibição da primeira longa-metragem de ficção de Julia De Simone, a realizadora conversa com o professor Gonçalo Cholant e detalha o seu processo criativo ao público.
Estreado mundialmente no Festival Internacional de Cinema de Roterdão, o drama luso-brasileiro mostra-nos a viagem de Muanza, interpretada por Lucília Raimundo, uma mulher trazida do Reino do Congo contra a sua vontade, para o trabalho escravo no Brasil colonial.
Ao despertar nos dias de hoje, Muanza depara-se com um Rio de Janeiro, onde figuras do passado e do presente são parte da procura pelas suas origens. O filme testemunha a vida que emerge dos espaços da cidade, os gestos de resistência frente à desterritorialização forçada e os afetos que sustentam as relações de irmandade, resume a sinopse da obra de narrativa fantástica, que combina dados históricos e histórias inventadas.
Muanza desperta em pleno Rio de Janeiro nos dias de hoje, presa no mesmo casarão onde viveu em cativeiro. E reencontra na casa, agora abandonada e em ruínas, outra personagem espectral: Catarina, mulher branca e portuguesa, interpretada por Maria D’Aires.
Enquanto procura formas de se libertar, é consumida pelo seu maior desejo: reencontrar Kieza, sua amiga e irmã, interpretada por Samira Carvalho. Muanza e Kieza são irmãs de travessia, conheceram-se ao cruzar o Atlântico na mesma embarcação.
Um encontro que se dá pelo trauma da escravização, e inaugura um vínculo de irmandade inquebrantável. Encontram-se conectadas pela perda, mas também por tudo o que representam uma para outra: a terra, o afeto, a parceria, a resistência, a liberdade. Ao despertar em pleno século XXI, Muanza retoma a busca pelar sua irmã, refazendo a rota de fuga planeada com a amiga dois séculos antes,
A história de Muanza está intimamente ligada à formação da cidade. O seu despertar contemporâneo coloca-a de volta na busca pela libertação vivida no passado, percorrendo hoje os mesmos espaços da cidade colonial, agora atualizados numa cidade revirada pela gentrificação.
“Praia Formosa” encerra uma trilogia da cineasta carioca sobre a região portuária da cidade natal de Julia, um território em disputa desde que se tem notícia e que evidencia em seu tecido urbano as bases coloniais e exploratórias nas quais a sociedade se organiza até hoje, explica Julia De Simone nas suas notas de intenção.
Parte de uma investigação documental de 10 anos sobre o processo de gentrificação do local e baseada em dezenas de relatos de atrizes e mulheres negras no Brasil e em Portugal, a longa-metragem convida a entender a capital para além da imagem turística vendida como produto de exportação.
O filme foi distinguido no Olhar de Cinema — Festival Internacional de Curitiba com os prémios de Melhor Direção de Arte e Melhor Direção de Fotografia. No Femina — Festival Internacional de Cinema Feminino, venceu o Grande Prémio da competição nacional, destacando-se pela premissa original e pela qualidade das performances do elenco feminino. A produção está a cargo da Anavilhana, Mirada Filmes e Uma Pedra no Sapato.
No domingo, 1 de junho, às 16h15, o público da Casa do Cinema de Coimbra terá a oportunidade de participar num diálogo próximo com a realizadora Julia De Simone, que discute as temáticas da obra com Gonçalo Cholant, professor do doutoramento em Estudos Feministas da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.
Julia De Simone nasceu no Rio de Janeiro em 1982 e é realizadora, argumentista e produtora. Tirou um Mestrado em Estudos Contemporâneos das Artes (UFF) e é formada em Documentário de Criação (Observatorio de Cine, Barcelona).
Sócia da Mirada Filmes, dedica-se à produção audiovisual desde 2003. “Praia Formosa” é a sua primeira longa-metragem de ficção, uma coprodução Brasil Portugal, apoiada pelo Hubert Bals Fund e World Cinema Fund.
Realizou diversos documentários e filmes experimentais que foram exibidos em festivais como IDFA, Rotterdam, BAFICI, Cartagena, Uruguay, Havana, FICUNAM, Tiradentes, Festival do Rio, Mostra de São Paulo, entre outros.

