O Festival de Cinema de Berlim, que decorre entre 12 e 22 de Fevereiro, anunciou esta terça-feira (20), a programação oficial da Competição e da secção Perspectives da sua 76.ª edição, reafirmando-se como uma das principais montras do cinema mundial.
Na Competição, 22 filmes disputam os principais prémios do festival, entre eles o Urso de Ouro e os Ursos de Prata. A selecção inclui um primeiro longa-metragem, um filme de animação e um documentário, com produções oriundas de 28 países. Do total, 20 obras são estreias mundiais, nove são realizadas ou co-realizadas por mulheres e 14 já passaram por outros festivais internacionais.
Segundo Tricia Tuttle, directora do festival, a diversidade estética e temática é um dos grandes trunfos da edição de 2026.
“Encontrámos muitas coisas pelas quais nos apaixonarmos na programação especial deste ano. Estamos tão confiantes no encanto destes 22 filmes que dizemos com convicção: ‘Se não encontrar aqui algo que ame, então não ama cinema’”, afirmou.
Tuttle destacou ainda a variedade de géneros presentes, que vão da comédia satírica ao suspense psicológico, passando por histórias de amor, anime e faroeste, sublinhando que os vencedores serão conhecidos a 21 de Fevereiro, por decisão do júri presidido por Wim Wenders.
Entre os títulos mais aguardados da Competição está “At the Sea”, drama sobre redenção no pós-reabilitação, protagonizado por Amy Adams e realizado por Kornél Mundruczó, conhecido por “Pieces of a Woman”. Outro destaque é “Rosebush Pruning”, do brasileiro Karim Aïnouz, com um elenco que inclui Jamie Bell, Riley Keough, Callum Turner e Elle Fanning.
A selecção integra ainda “Rose”, com Sandra Hüller, terceiro longa-metragem de Markus Schleinzer, realizador de “Michael” (2011), bem como “Queen at Sea”, que marca o regresso de Lance Hammer à realização após “Ballast” (2008), com Juliette Binoche no papel principal. Já “Everybody Digs Bill Evans” leva Anders Danielsen Lie a Berlim no papel do célebre músico de jazz.
A secção Perspectives, dedicada a novas vozes do cinema contemporâneo, apresenta 13 estreias de longas-metragens, com a possibilidade de um 14.º filme ser anunciado posteriormente. Dos títulos já divulgados, 11 são estreias mundiais, um corresponde a uma estreia internacional e outro a uma estreia europeia. Ao todo, estão representados 22 países produtores, com seis filmes realizados por mulheres, reforçando o compromisso do festival com a diversidade e a renovação cinematográfica.
Títulos em competição
A selecção competitiva reúne obras oriundas de diferentes geografias e sensibilidades cinematográficas, compondo um retrato plural do cinema contemporâneo através de temas recorrentes como identidade, memória, família, trauma e redenção.
Entre os títulos em competição, “A New Dawn”, de Yoshitoshi Shinomiya, acompanha Keitaro, ligado a uma fábrica de fogo-de-artifício prestes a encerrar, determinado a desvendar o mistério do Shuhari, artefacto mítico criado pelo pai antes de desaparecer sem deixar rasto. Já “At the Sea”, de Kornél Mundruczó, centra-se no regresso de uma mulher à casa da família, em Cape Cod, após um período de reabilitação, confrontando-a com traumas antigos e com a difícil redefinição da própria identidade fora da carreira de bailarina.
O reencontro com o passado surge também em “À voix basse”, de Leyla Bouzid, onde Lilia regressa à Tunísia para o funeral do tio e se depara com uma família distante da sua vida parisiense, iniciando uma busca pela verdade associada à morte súbita do familiar. Em “Dao”, Alain Gomis entrelaça um casamento em França e uma celebração na Guiné-Bissau, ligadas por uma família que vive entre dois mundos, num movimento circular que reflecte herança, pertença e continuidade. O colapso surge como força narrativa em “Dust”, de Anke Blondé, situado no final da década de 1990, quando o império de dois empreendedores belgas se desmorona após a revelação de uma fraude, restando-lhes apenas um dia para procurar redenção.
A questão da identidade ganha contornos íntimos em “Etwas ganz Besonderes”, de Eva Trobisch, no qual Lea é confrontada com a impossibilidade de se definir, desencadeando uma busca pessoal dentro e fora do hotel da família, nas florestas da antiga Alemanha Oriental. A interioridade artística está no centro de “Everybody Digs Bill Evans”, de Grant Gee, que acompanha um momento decisivo da vida do pianista de jazz após a morte do seu cúmplice musical, explorando o silêncio como parte essencial da criação. Em “Gelbe Briefe”, de İlker Çatak, o quotidiano de um casal de artistas turcos entra em colapso após um incidente teatral que conduz à perseguição política, colocando em causa ideais e relações pessoais.
O impacto do trauma atravessa “Josephine”, de Beth de Araújo, onde uma criança reage com violência após testemunhar um crime, gerando tensões profundas no seio familiar. A dimensão colectiva e espiritual marca “Kurtuluş”, de Emin Alper, situado numa aldeia isolada onde o regresso de um clã exilado reacende conflitos antigos, enquanto visões divinas empurram o protagonista para um confronto inevitável. A ruptura do quotidiano surge de forma minimalista em “Meine Frau weint”, de Angela Schanelec, a partir de um telefonema que interrompe um dia banal de trabalho e abre espaço para um encontro silencioso e perturbador.
As relações improváveis moldam “Moscas”, de Fernando Eimbcke, no qual a vida controlada de Olga se transforma após acolher um homem e o seu filho, enquanto “Nina Roza”, de Geneviève Dulude-de Celles, acompanha a viagem de um negociante de arte ao interior da Bulgária para avaliar o talento de uma jovem pintora, oscilando entre génio e fraude. O envelhecimento e o cuidado surgem com delicadeza em “Queen at Sea”, de Lance Hammer, observando os efeitos da demência sobre uma mulher idosa e o esforço da família para equilibrar amor e autonomia.
O passado histórico atravessa “Rose”, de Markus Schleinzer, situado no século XVII, quando a chegada de um soldado a uma aldeia protestante isolada desperta suspeitas e conduz a um acerto de contas colectivo. Em “Rosebush Pruning”, de Karim Aïnouz, o isolamento de quatro irmãos americanos numa aldeia espanhola é abalado por revelações que fazem ruir a estrutura familiar. O místico cruza-se com o quotidiano em “Soumsoum, la nuit des astres”, de Mahamat-Saleh Haroun, onde uma jovem dotada de poderes sobrenaturais encontra, num encontro decisivo, um sentido para a própria inquietação.
A memória e o tempo moldam “The Loneliest Man in Town”, de Tizza Covi e Rainer Frimmel, retrato de um músico de blues confrontado com a demolição do espaço onde vive, enquanto “Wolfram”, de Warwick Thornton, regressa à Austrália dos anos 1930 para observar a violência colonial através do olhar de crianças em fuga.
A redefinição dos laços familiares surge em “Wo Men Bu Shi Mo Sheng Ren”, de Anthony Chen, onde duas gerações são obrigadas a reconsiderar o significado de família após um acontecimento transformador. A selecção inclui ainda “YO Love is a Rebellious Bird”, de Anna Fitch e Banker White, um retrato singular de amizade e luto construído ao longo de uma década, e encerra com “Yön Lapsi”, de Hanna Bergholm, onde o ideal de família perfeita se converte num pesadelo silencioso, perceptível apenas à protagonista.

