Cannes 2026: Peter Jackson recebe Palma de Ouro honorária

Realizador neozelandês foi distinguido pela obra que ajudou a redefinir o cinema fantástico contemporâneo
cannes, peter jackson, jackson cannes, peter jackson, jackson
Peter Jackson recebe Palma de Ouro honorária na abertura do 79º Festival de Cannes | Corbis via Getty Images

A 79.ª edição do Festival de Cannes arrancou na passada terça-feira, 12 de Maio, na Riviera Francesa, com uma homenagem surpresa ao realizador Peter Jackson, distinguido com uma Palma de Ouro honorária durante a cerimónia de abertura do certame. A distinção foi entregue por Elijah Wood, protagonista da trilogia “O Senhor dos Anéis”, uma das obras mais emblemáticas da carreira do cineasta.

Perante uma sala lotada, Wood destacou a influência de Jackson no cinema contemporâneo e recordou o impacto pessoal que a colaboração entre ambos teve na sua vida.

“Quando eu tinha apenas 18 anos, ‘O Senhor dos Anéis’ não foi apenas o início da jornada de Frodo, mas também o início da minha própria jornada”, afirmou o actor, acrescentando que o realizador cresceu numa Nova Zelândia sem uma indústria cinematográfica consolidada, mas nunca permitiu que isso limitasse as suas ambições.

Visivelmente emocionado, Jackson agradeceu a homenagem e aproveitou o momento para revisitar episódios determinantes do seu percurso profissional. O realizador recordou que a sua carreira internacional começou precisamente em Cannes, em 1987, com a apresentação de “Náusea Total”, produção independente realizada com baixos recursos e marcada pelo humor grotesco e pelos efeitos especiais artesanais.

Segundo explicou, o êxito comercial do filme no Mercado do Filme de Cannes foi decisivo para o seu futuro. “Se o filme não tivesse vendido bem aqui, eu teria regressado à Nova Zelândia para continuar o meu trabalho como gravador de fotografias”, afirmou. “Foi Cannes que deu início à minha carreira.”

Jackson relembrou ainda a passagem pelo festival em 2001, quando apresentou os primeiros minutos de “O Senhor dos Anéis: A Irmandade do Anel” numa altura em que a adaptação da obra de J. R. R. Tolkien era vista com desconfiança por parte da indústria cinematográfica.

“Nós gravámos os três filmes ao mesmo tempo durante três anos e toda a imprensa dizia que o projecto iria falhar”, recordou. O realizador explicou que existia receio em torno do investimento da New Line Cinema e dúvidas sobre o futuro da trilogia caso o primeiro filme não tivesse sucesso comercial.

De acordo com Jackson, a apresentação realizada em Cannes acabou por alterar a percepção da imprensa e do mercado em relação ao projecto. “Quando o filme estreou, já existia uma expectativa que provavelmente não teria existido sem Cannes”, afirmou.

A trilogia “O Senhor dos Anéis”

Em 10 de Dezembro de 2001, “O Senhor dos Anéis: A Irmandade do Anel” estreou em Londres, inaugurando uma das mais ambiciosas empreitadas cinematográficas da viragem do século.

Primeiro capítulo da trilogia concebida por Peter Jackson a partir da obra literária de J. R. R. Tolkien, o filme chegou às salas de cinema de todo o mundo nos dias subsequentes e rapidamente se converteu num fenómeno de escala global, arrecadando cerca de 897 milhões de dólares, aproximadamente 793 milhões de euros, nas bilheteiras internacionais.

O êxito prosseguiu no ano seguinte com “O Senhor dos Anéis: As Duas Torres”, que elevou ainda mais a dimensão comercial e cultural da saga ao ultrapassar os 947 milhões de dólares em receitas mundiais.

“O Senhor dos Anéis: O Regresso do Rei” encerrou a trilogia de forma apoteótica em 2003, arrecadando mais de 1,15 mil milhões de dólares e inscrevendo definitivamente a franquia entre os maiores êxitos da história do cinema contemporâneo.

Para além do impacto financeiro, a trilogia consolidou-se como um raro caso de unanimidade entre público, crítica e indústria. Ao longo da sua trajectória, os três filmes acumularam 30 nomeações aos Óscares atribuídos pela Academy of Motion Picture Arts and Sciences, conquistando 17 estatuetas.

Todos os capítulos foram nomeados para Melhor Filme, embora apenas “O Regresso do Rei” tenha alcançado a distinção máxima. O último filme da saga tornou-se, aliás, um dos poucos títulos da história a vencer todas as categorias para as quais estava nomeado, incluindo Melhor Filme, Melhor Realização e Melhor Argumento Adaptado.

O reconhecimento ultrapassou largamente os limites de Hollywood. Somadas, as três produções arrecadaram mais de 250 prémios internacionais, num percurso que reafirmou não apenas a excelência técnica da trilogia, visível nos efeitos visuais, maquilhagem, direcção artística e composição musical, mas também a sua dimensão narrativa e emocional.

A aclamação crítica reflectiu-se igualmente nos índices de avaliação especializados. Segundo o agregador Rotten Tomatoes, todos os filmes mantiveram taxas de aprovação superiores a 90%, sendo “As Duas Torres” o mais bem classificado, com 95% de avaliações positivas.

No plano comercial, “O Senhor dos Anéis: O Regresso do Rei” tornou-se, à época, uma das produções mais lucrativas da história do cinema. De acordo com dados do portal Box Office Mojo, apenas quatro filmes haviam superado a sua receita global até então: “O Rei Leão”, realizado por Roger Allers e Rob Minkoff, “Parque Jurássico”, de Steven Spielberg, “Star Wars: Episódio I – A Ameaça Fantasma”, realizado por George Lucas, e “Titanic”, assinado por James Cameron.

A relevância da trilogia, contudo, não se circunscreve aos números. Poucas adaptações literárias foram transpostas para o grande ecrã com semelhante rigor estético, ambição narrativa e coerência artística.

O projecto concebido por Jackson redefiniu os parâmetros do cinema fantástico contemporâneo e abriu caminho para uma nova vaga de produções épicas inspiradas em universos literários, entre as quais “As Crónicas de Nárnia: O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa”, “The Hunger Games: Os Jogos da Fome” e a série “Game of Thrones”.

No final, a aposta considerada excessivamente arriscada por parte da indústria revelou-se uma das decisões mais lucrativas da história de Hollywood. Com um custo de produção estimado em cerca de 270 milhões de dólares para os três filmes, valor extraordinário para a época, a trilogia recuperou o investimento em tempo recorde e consolidou-se como uma das franquias mais influentes, premiadas e rentáveis da história do cinema.

Outros destaques

Antes de alcançar reconhecimento mundial com “O Senhor dos Anéis”, Peter Jackson já chamava a atenção da crítica internacional com obras que evidenciavam a sua versatilidade enquanto realizador.

Entre os primeiros grandes destaques da carreira de Peter Jackson encontra-se “Amizade sem Limites”, vencedor do Leão de Prata no Festival de Cinema de Veneza, em 1994, e amplamente elogiado pela profundidade psicológica e pela intensidade emocional da sua narrativa.

Inspirado num caso real ocorrido na Nova Zelândia na década de 1950, o filme acompanha Juliet, uma jovem oriunda de uma família abastada que se muda para o país e desenvolve uma intensa amizade com Pauline. Unidas pelo isolamento e pelos conflitos familiares, as duas adolescentes criam um universo próprio, tornando-se inseparáveis.

Contudo, quando Juliet adoece e é internada, a relação passa a ser alvo de suspeitas e repressões por parte das famílias, culminando numa sucessão de acontecimentos trágicos. O filme destacou-se pela sensibilidade dramática e revelou internacionalmente a actriz Kate Winslet.

Dois anos mais tarde, Jackson regressou ao humor ácido e ao sobrenatural com “Os Espíritos”. A produção acompanha um falso médium que lucra ao fingir expulsar fantasmas de casas assombradas, até cruzar o caminho do espírito de um assassino em série que regressa para continuar os crimes cometidos em vida.

Misturando terror, comédia e efeitos especiais, o filme consolidou a reputação do realizador como um dos nomes mais inventivos do cinema fantástico dos anos 1990.

Já depois da consagração internacional obtida com “O Senhor dos Anéis”, Jackson dirigiu o remake de “King Kong”, revisitando o clássico cinematográfico originalmente lançado em 1933. A produção foi amplamente elogiada pela crítica especializada e tornou-se um expressivo sucesso comercial, arrecadando mais de 550 milhões de dólares em receitas mundiais.

Na cerimónia dos Óscares de 2006, “King Kong” recebeu quatro nomeações e venceu nas categorias de Melhores Efeitos Visuais, Melhor Edição de Som e Melhor Mistura de Som. O filme perdeu apenas o prémio de Melhor Direcção Artística para “Memórias de uma Gueixa”. Com três estatuetas, “King Kong” terminou a noite entre os maiores vencedores da cerimónia, ao lado de “O Segredo de Brokeback Mountain”, “Crash” e “Memórias de uma Gueixa”.

Em 2009, lançou “Visto do Céu”, drama baseado no romance de Alice Sebold. A narrativa acompanha Susie Salmon, personagem interpretada por Saoirse Ronan, uma adolescente assassinada pelo vizinho George Harvey, um assassino em série responsável pela morte de várias raparigas e mulheres.

A partir de uma dimensão situada entre a vida e a morte, Susie observa o sofrimento da família e a crescente desconfiança do pai e da irmã em relação ao criminoso. A interpretação de Stanley Tucci no papel do homicida valeu-lhe uma nomeação ao Óscar de Melhor Actor Secundário.

Jackson regressaria mais tarde ao universo de Tolkien com a trilogia “O Hobbit”. O primeiro filme da saga estreou no Embassy Theatre, em Wellington, a 28 de Novembro de 2012, e arrecadou mais de mil milhões de dólares em receitas globais.

Apesar do forte desempenho comercial, a trilogia recebeu uma recepção crítica menos entusiástica do que a alcançada por “O Senhor dos Anéis” e não conquistou qualquer Óscar, ao contrário da trilogia anterior, que acumulou 17 estatuetas da Academia.

Trabalhos actuais

Entre os projectos mais recentes de Peter Jackson destaca-se “The Beatles: Get Back”, minissérie documental lançada em 2021 e realizada pelo cineasta a partir de material inédito captado durante as gravações do álbum Let It Be, originalmente intitulado “Get Back”. A produção recupera imagens e gravações de áudio utilizadas parcialmente no documentário homónimo de 1970, realizado por Michael Lindsay-Hogg.

Dividida em três episódios com duração total próxima de oito horas, a série acompanha os 21 dias de gravações em estúdio dos The Beatles, revelando o processo criativo do grupo e os bastidores da produção do último álbum lançado pela banda. O próprio Jackson descreveu a obra como “um documentário sobre um documentário”.

A recepção crítica foi amplamente positiva, sobretudo pela forma como a série desconstruiu a ideia de que as sessões de gravação de “Let It Be” foram marcadas exclusivamente por conflitos e tensões internas. Muitos críticos destacaram o tom mais íntimo e optimista da produção, que apresenta momentos de cumplicidade entre John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr. Apesar dos elogios, alguns comentadores consideraram excessiva a duração da minissérie.

Actualmente, Jackson encontra-se envolvido na produção de “Lord of the Rings: The Hunt for Gollum”, projecto ambientado novamente na Terra Média e centrado na personagem Gollum. O filme será realizado por Andy Serkis, que regressa igualmente ao papel da criatura criada por Tolkien.

O elenco contará ainda com o regresso de Ian McKellen como Gandalf, Elijah Wood no papel de Frodo e Lee Pace como Thranduil. Entre as novas adições anunciadas estão Jamie Dornan, que interpretará Strider, um dos nomes utilizados por Aragorn antes dos acontecimentos da trilogia original, personagem anteriormente vivida por Viggo Mortensen, além de Leo Woodall e Kate Winslet, confirmada no papel de Marigol.

Paralelamente, Jackson continua associado ao desenvolvimento de “Shadow of the Past”, nova aventura situada no universo de Tolkien.

Em entrevista recente ao Deadline, o realizador revelou ainda que mantém conversações com a Warner Bros. e representantes do espólio de J. R. R. Tolkien sobre possíveis adaptações de outras obras ambientadas na Terra Média, incluindo “O Silmarillion” e “Contos Inacabados”.

Segundo Jackson, Christopher Tolkien sempre se mostrou resistente à adaptação cinematográfica de materiais para além de “O Senhor dos Anéis” e “O Hobbit”.

Contudo, o realizador afirmou que uma nova geração da família Tolkien parece mais receptiva à possibilidade de expandir o universo cinematográfico da Terra Média. “Existe muito mais material de Tolkien que renderia grandes filmes”, declarou.

Durante a sua passagem por Cannes, Jackson revelou ainda estar a trabalhar num novo projecto inspirado em “As Aventuras de Tintim”. O realizador deverá assumir a continuidade da adaptação iniciada por Steven Spielberg com “As Aventuras de Tintim”, lançado em 2011.