Clássico de Jean-Jacques Beineix, “Betty Blue” regressa às salas em sessão especial pelos 40 anos

Marco dos anos 1980, “Betty Blue” reflecte um cinema francês guiado pelo estilo e pela provocação
Betty Blue Betty Blue
“Betty Blue” (1986), de Jean-Jacques Beineix

O clássico francês “Betty Blue” regressou aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (16), assinalando os 40 anos da sua estreia. Realizado por Jean-Jacques Beineix, o filme volta às salas com distribuição da Pandora Filmes.

Estreado originalmente em 1986 sob o título 37°2 le matin”, o longa afirmou-se como uma das obras de culto mais marcantes do cinema europeu da década de 1980.

Protagonizado por Béatrice Dalle e Jean-Hugues Anglade, acompanha a relação intensa entre Betty e Zorg, iniciada na costa mediterrânica francesa e marcada por uma paixão avassaladora, instabilidade emocional e episódios de obsessão e ruptura.

Baseado no romance homónimo de Philippe Djian, publicado em 1985, o filme foi rodado no mesmo ano ao longo de treze semanas, com filmagens em locais como Gruissan, Marselha e Marvejols.

Segundo o realizador, a cumplicidade entre os protagonistas teria acabado por exceder o perímetro da ficção, uma vez que, conforme recordou Beineix, mantinham um jogo constante de flerte durante as filmagens, a ponto de se esbater a fronteira entre a encenação e a vida no set, numa experiência que descreveu como extraordinária.

Aquando da sua estreia, “Betty Blue” alcançou um expressivo sucesso em França, tornando-se o oitavo filme mais visto de 1986. A recepção internacional foi igualmente significativa, com nomeações aos Óscares e aos BAFTA de Melhor Filme em Língua Estrangeira, em 1987.

Em 2000, o realizador apresentou uma versão alargada com 185 minutos, aprofundando a espiral de loucura da protagonista e expandindo o percurso de Zorg. Para já, não foi confirmada qual das versões será exibida nesta reposição nos cinemas brasileiros.

Betty Blue

Lançado em 1986 sob o título original 37°2 le matin”, “Betty Blue” marca o terceiro longa-metragem de Jean-Jacques Beineix e insere-se numa fase do cinema francês em que estilo e provocação frequentemente se sobrepunham à construção dramática.

Beineix aprofunda aqui uma estética já reconhecível, pautada por uma forte estilização visual e por uma abordagem das relações humanas ancorada na experiência dos sentidos.

A narrativa acompanha Zorg, um aspirante a escritor, e Betty, uma jovem impulsiva e instável, cuja relação se constrói a partir de uma intensa ligação física. Vivendo à margem, num cenário de casas de praia fora de época, os dois parecem inicialmente confinados a um universo íntimo onde o desejo ocupa o lugar de outras formas de convivência.

Com o tempo, o quotidiano impõe-se e a relação começa a revelar fissuras, expondo desequilíbrios emocionais que rapidamente ganham contornos mais extremos.

Betty, interpretada por Béatrice Dalle, surge como uma figura de energia caótica, alternando entre gestos de devoção e explosões de fúria. A personagem encarna uma ideia de amor absoluto que não encontra estabilidade e acaba por se transformar em descontrolo.

O Zorg de Jean-Hugues Anglade assume uma postura mais passiva e observadora, funcionando como contraponto, embora a sua inércia também contribua para a dinâmica destrutiva que se estabelece entre ambos.

O filme desenvolve-se numa sucessão de episódios que privilegiam a intensidade emocional e a fisicalidade das personagens, muitas vezes em detrimento de uma progressão narrativa mais linear.

Neste sentido, “Betty Blue” oscila entre o retrato de uma paixão obsessiva e um exercício de estilo, em que o corpo e a imagem ocupam um lugar central.

A realização de Beineix enfatiza o erotismo e a presença física de Betty, aproximando a obra de uma tradição cinematográfica que utiliza a sugestão e a provocação como forma de impacto.

Apesar de ser frequentemente associado a leituras sobre loucura, criação artística ou relações de género, o filme permanece aberto a interpretações diversas, sendo também entendido como um objeto de forte apelo sensorial.

O seu impacto, tanto crítico como comercial, revela a capacidade de mobilizar o público através de uma combinação de choque, fascínio e ambiguidade, o que o consolidou como uma das obras mais discutidas do cinema francês dos anos 1980.