A Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine) divulgou esta segunda-feira (11) a nova lista dos 100 filmes brasileiros mais importantes de todos os tempos, integrada nas comemorações dos 15 anos da entidade e dos dez anos da primeira votação realizada.
O levantamento resulta de um processo de votação envolvendo cerca de 180 críticos, que seleccionaram 100 títulos a partir de um universo de 1.169 obras, entre curtas e longas-metragens. Nesta edição, a lista não surge hierarquizada, reunindo apenas os filmes mais votados.
O recorte cronológico é vasto e estende-se de 1931 a 2025, atravessando diferentes correntes e movimentos do cinema brasileiro.
Entre os primeiros marcos figuram “Limite” (1931), de Mário Peixoto, e “Ganga Bruta” (1933), de Humberto Mauro, seguidos por obras como “O Ébrio” (1946), de Gilda de Abreu, e “Carnaval Atlântida” (1952), de José Carlos Burle, num período ainda marcado pela consolidação industrial da produção cinematográfica nacional.
Nos anos 50 e início dos 60 destacam-se títulos como “O Cangaceiro” (1953), de Lima Barreto, e “Rio, 40 Graus” (1955), de Nelson Pereira dos Santos, bem como “O Homem do Sputnik” (1959), de Carlos Manga, já num momento de transição para linguagens mais autorais.
A década de 1960 assume posição central no conjunto, com 27 filmes seleccionados, reunindo obras decisivas como “O Pagador de Promessas” (1962), de Anselmo Duarte, “Os Cafajestes” (1962), de Ruy Guerra, “Vidas Secas” (1963), de Nelson Pereira dos Santos, “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (1964), de Glauber Rocha, e “Terra em Transe” (1967), também de Glauber Rocha, além de “São Paulo Sociedade Anónima” (1965), de Luiz Sérgio Person, e “O Bandido da Luz Vermelha” (1968), de Rogério Sganzerla.
Este período é amplamente associado ao Cinema Novo, movimento que procurou romper com as convenções do cinema comercial e afirmar uma estética de intervenção social, sintetizada no lema “uma câmara na mão e uma ideia na cabeça”, em diálogo directo com o contexto político e a crítica ao regime militar.
Em paralelo, consolida-se o Cinema Marginal, ligado a realizadores como Rogério Sganzerla e José Mojica Marins, caracterizado por produção de baixo orçamento e linguagem experimental, frequentemente fora dos circuitos tradicionais de exibição.
Entre os anos 70 e 80 surgem títulos como “S. Bernardo” (1972), de Leon Hirszman, “Dona Flor e Seus Dois Maridos” (1976), de Bruno Barreto, “Pixote, a Lei do Mais Fraco” (1980), de Hector Babenco, e “Cabra Marcado para Morrer” (1984), de Eduardo Coutinho, evidenciando a diversidade estética e temática do período.
A chamada Retomada, nos anos 90 e 2000, é representada por obras como “Carlota Joaquina, Princesa do Brazil” (1995), de Carla Camurati, “Central do Brasil” (1998), de Walter Salles, “Cidade de Deus” (2002), de Fernando Meirelles e Kátia Lund, e “Madame Satã” (2002), de Karim Aïnouz, entre outras.
A década de 80 destaca-se como a segunda mais representada, seguida pelos anos 70. As décadas de 2000 e 2010 asseguram uma presença relevante no conjunto, ao passo que os períodos mais remotos aparecem de forma pontual, limitados a dois filmes dos anos 30 e dois dos anos 40.
No período mais recente, sobressaem títulos como “O Som ao Redor” (2012), de Kleber Mendonça Filho, “Branco Sai, Preto Fica” (2014), de Adirley Queirós, “Que Horas Ela Volta?” (2015), de Anna Muylaert e “Aquarius” (2016), novamente de Kleber Mendonça Filho, num conjunto que reconfigura o olhar sobre o Brasil contemporâneo.
A estes juntam-se ainda “Ainda Estou Aqui” (2024), de Walter Salles, e “O Agente Secreto” (2025), de Kleber Mendonça Filho, que reforçam a vitalidade e a presença internacional do cinema brasileiro nas últimas décadas.
A Abraccine sublinha ainda que a nova selecção reflecte uma maior diversidade de olhares críticos, com reforço da presença de realizadoras mulheres e de cineastas negros, resultado de transformações internas na associação e no campo da crítica cinematográfica.
Tal como nas edições anteriores, os filmes serão objecto de análise numa publicação prevista para o final do ano, editada pela Letramento e organizada por Ivonete Pinto, Danilo Fantinel e Paulo Henrique Silva, reunindo ensaios e leituras críticas sobre o conjunto seleccionado.
Realizadores mais citados
Entre os realizadores mais citados, Nelson Pereira dos Santos aparece como uma das presenças mais constantes, com obras em diferentes momentos da história do cinema brasileiro, como “Rio, 40 Graus”, “Vidas Secas”, “Rio, Zona Norte” e “Memórias do Cárcere”.
Em seguida, sobressaem Glauber Rocha, figura central do Cinema Novo, com títulos como “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, “Terra em Transe” e “O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro”, e ainda Hector Babenco, associado à viragem do cinema dos anos 80, com “Pixote, a Lei do Mais Fraco” e “Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia”.
Também surgem com várias entradas nomes como Rogério Sganzerla, ligado ao Cinema Marginal, e Eduardo Coutinho, cuja presença marca o documentário brasileiro com filmes como “Cabra Marcado para Morrer”, “Edifício Master” e “Jogo de Cena”.
No campo contemporâneo, Kleber Mendonça Filho destaca-se como o autor mais recorrente entre as últimas décadas, com “O Som ao Redor”, “Aquarius” e “O Agente Secreto”, reforçando a continuidade entre crítica social e linguagem autoral no cinema recente.
Presença feminina
Quanto à presença feminina, a lista evidencia uma participação ainda minoritária, mas relevante e historicamente significativa.
Surgem realizadoras como Gilda de Abreu (“O Ébrio”), Helena Solberg (“A Entrevista”), Ana Carolina (“Mar de Rosas”, “Das Tripas Coração”), Lúcia Murat (“Que Bom Te Ver Viva”), Suzana Amaral (“A Hora da Estrela”), Adélia Sampaio (“Amor Maldito”) e Carla Camurati (“Carlota Joaquina, Princesa do Brazil”).
Apesar de ainda em menor número face aos realizadores homens, estas presenças marcam momentos-chave de afirmação autoral e ajudam a evidenciar uma ampliação gradual do cânone, sobretudo a partir dos anos 80 e 90, com maior diversidade de olhares e temáticas no cinema brasileiro.
Confira a lista abaixo:
- “Limite” (1931), Mário Peixoto
- “Ganga bruta” (1933), Humberto Mauro
- “O ébrio” (1946), Gilda de Abreu
- “Também somos irmãos” (1949), José Carlos Burle
- “Carnaval Atlântida” (1952), José Carlos Burle
- “O cangaceiro” (1953), Lima Barreto
- “Rio, 40 graus” (1955), Nelson Pereira dos Santos
- “Rio, Zona Norte” (1957), Nelson Pereira dos Santos
- “O grande momento” (1958), Roberto Santos
- “O homem do Sputnik” (1959), Carlos Manga
- “Aruanda” (1960), Linduarte Noronha
- “O assalto ao trem pagador” (1962), Roberto Farias
- “O pagador de promessas” (1962), Anselmo Duarte
- “Os cafajestes” (1962), Ruy Guerra
- “Porto das caixas” (1962), Paulo Cezar Saraceni
- “Vidas secas” (1963), Nelson Pereira dos Santos
- “À meia noite levarei sua alma” (1964), José Mojica Marins
- “A velha a fiar” (1964), Humberto Mauro
- “Deus e o diabo na terra do sol” (1964), Glauber Rocha
- “Noite vazia” (1964), Walter Hugo Khouri
- “Os fuzis” (1964), Ruy Guerra
- “A falecida” (1965), Leon Hirszman
- “A hora e vez de Augusto Matraga” (1965), Roberto Santos
- “São Paulo Sociedade Anônima” (1965), Luiz Sérgio Person
- “A entrevista” (1966), Helena Solberg
- “O padre e a moça” (1966), Joaquim Pedro de Andrade
- “Todas as mulheres do mundo” (1966), Domingos de Oliveira
- “A margem” (1967), Ozualdo Candeias
- “Esta noite encarnarei no teu cadáver” (1967), José Mojica Marins
- “O caso dos irmãos Naves” (1967), Luiz Sérgio Person
- “O menino e o vento” (1967), Carlos Hugo Christensen
- “Terra em transe” (1967), Glauber Rocha
- “O bandido da luz vermelha” (1968), Rogério Sganzerla
- “A mulher de todos” (1969), Rogério Sganzerla
- “Macunaíma” (1969), Joaquim Pedro de Andrade
- “Matou a família e foi ao cinema” (1969), Júlio Bressane
- “O dragão da maldade contra o santo guerreiro” (1969), Glauber Rocha
- “O despertar da besta (Ritual dos sádicos)” (1970), José Mojica Marins
- “Sem essa, Aranha” (1970), Rogério Sganzerla
- “Um é pouco, dois é bom” (1970), Odilon Lopez
- “Bang bang” (1971), Andrea Tonacci
- “S. Bernardo” (1972), Leon Hirszman
- “Toda nudez será castigada” (1972), Arnaldo Jabor
- “Alma no olho” (1973), Zózimo Bulbul
- “Compasso de espera” (1973), Antunes Filho
- “Os homens que eu tive” (1973), Tereza Trautman
- “A rainha diaba” (1974), Antonio Carlos da Fontoura
- “Iracema, uma transa amazônica” (1975), Jorge Bodanzky e Orlando Senna
- “Dona Flor e seus dois maridos” (1976), Bruno Barreto
- “Lúcio Flávio, o passageiro da agonia” (1977), Hector Babenco
- “Mar de rosas” (1977), Ana Carolina
- “A lira do delírio” (1978), Walter Lima Jr.
- “Tudo bem” (1978), Arnaldo Jabor
- “A mulher que inventou o amor” (1980), Jean Garrett
- “Bye bye Brasil” (1980), Carlos Diegues
- “O homem que virou suco” (1980), João Batista de Andrade
- “Pixote, a lei do mais fraco” (1980), Hector Babenco
- “Eles não usam black-tie” (1981), Leon Hirszman
- “Os saltimbancos trapalhões” (1981), J. B. Tanko
- “Das tripas coração” (1982), Ana Carolina
- “Pra frente Brasil” (1982), Roberto Farias
- “Onda Nova” (1983), Ícaro Martins e José Antonio Garcia
- “Amor maldito” (1984), Adélia Sampaio
- “Cabra marcado para morrer” (1984), Eduardo Coutinho
- “Memórias do cárcere” (1984), Nelson Pereira dos Santos
- “A hora da estrela” (1985), Suzana Amaral
- “A marvada carne” (1985), André Klotzel
- “Filme demência” (1986), Carlos Reichenbach
- “Ilha das Flores” (1989), Jorge Furtado
- “Que bom te ver viva” (1989), Lúcia Murat
- “Superoutro” (1989), Edgard Navarro
- “Alma corsária” (1993), Carlos Reichenbach
- “Carlota Joaquina, princesa do Brazil” (1995), Carla Camurati
- “Terra estrangeira” (1995), Daniela Thomas e Walter Salles
- “Baile perfumado” (1996), Lírio Ferreira e Paulo Caldas
- “Central do Brasil” (1998), Walter Salles
- “O auto da compadecida” (2000), Guel Arraes
- “Bicho de sete cabeças” (2001), Laís Bodanzky
- “Lavoura arcaica” (2001), Luiz Fernando Carvalho
- “Cidade de Deus” (2002), Fernando Meirelles e Kátia Lund
- “Edifício Master” (2002), Eduardo Coutinho
- “Madame Satã” (2002), Karim Aïnouz
- “Cinema, aspirinas e urubus” (2005), Marcelo Gomes
- “O céu de Suely” (2006), Karim Aïnouz
- “Serras da desordem” (2006), Andrea Tonacci
- “Jogo de cena” (2007), Eduardo Coutinho
- “Saneamento básico, o filme” (2007), Jorge Furtado
- “Santiago” (2007), João Moreira Salles
- “Trabalhar cansa” (2011), Juliana Rojas e Marco Dutra
- “O som ao redor” (2012), Kleber Mendonça Filho
- “O menino e o mundo” (2013), Alê Abreu
- “Branco sai, preto fica” (2014), Adirley Queirós
- “Que horas ela volta?” (2015), Anna Muylaert
- “Aquarius” (2016), Kleber Mendonça Filho
- “Arábia” (2017), Affonso Uchoa e João Dumans
- “As boas maneiras” (2017), Juliana Rojas e Marco Dutra
- “Marte um” (2022), Gabriel Martins
- “Mato seco em chamas” (2022), Adirley Queirós e Joana Pimenta
- “Ainda estou aqui” (2024), Walter Salles
- “O agente secreto” (2025), Kleber Mendonça Filho

