No topo da montanha, o que mais vale é o vento. Quando não se ouve, pressente-se. Quando chega, faz voar. No gelo da montanha, está a pureza da água. Vento e água. Voar e gelo. Um Pai e um Filho. Partir o gelo. Voar. Cair, mas só um pouco. Estender o corpo, as pernas, sentir o ar, quebrar a atmosfera, mas só um pouco, suavemente, nela planar, sentir o vazio que se ampara, o branco que segura, e que permite ir.
Voar é assim esse ir, porque tem que se chegar, mas também é um planar acima de todos, porque é um aconchego, o do amor, o da confiança, de que o voar não terminará sem que se aterre, mesmo sem os bonés que voaram por eles próprios e os deixaram, na segurança de um paraquedas que se abrirá e na possibilidade de novo voo.
A casa. Branca e vermelha, contra a montanha traçada a azul acinzentado. Como ela se aguenta, não se pode saber. Incrustada não está, antes se agarra à pedra como a impossibilidade de uma segurança de uma perenidade que não pode acontecer: um dia o degelo há-de ocorrer, e ela cairá. Inverno sempre? Não ocorre. Primavera, quando chegará? Perigo inevitável, fim que há-de vir.
Mas a casa é muito mais do que isso, ela é o amor que não acaba e o amor que sempre se renova, porque é imutável, vale por si mesmo. De dia, a casa é brancura, é o local da produção, de uma profissão: fazer gelo, voar, vendê-lo, lá embaixo, na vila, também ela branca e vermelha, circular, no meio da neve.
A ela se volta, com novos bonés comprados, por meio das cordas que de novo levam à verticalidade impossível a que se agarra essa casa que há-de cair. De noite, ela é conforto, é a luz que entra oblíqua, é quentura, é o estar-se em paz, é o olhar a noite, é o vogar em pêndulo, é a espera do novo dia, descanso para a labuta que há de vir, água para gelo, voar, planar, pairar e descer, ir e vender, voltar.
A casa é assim sustento (ela que se sustenta na não possibilidade de sustentação futura) e é fechamento que protege e que envolve um círculo de amor. No amor não há a falta, mesmo quando ela se torna evidente.
A lacuna da perda, do corpo-amor que já não está lá, da não presença que está presente, indicia uma dor que nunca é dita ou percebida, porque não se fala, antes se sente que quem já não está, fica sempre, o amor continua, no exato silêncio com que não é dito, antes profundamente sentido, pelo objeto, pelo espaço que permanece, pela cor que ainda avisa, pela sensação que não se esvai. E como tudo volta, e como tudo é recursivo, o amor nunca se desperdiça, vem ao de cima, para fazer acreditar que amar é como voar.
A perda. Não há amor que não tenha em si a perda. O corpo-amor perdido é o da Mãe. Que ela não esteja, mas que ela se sinta, e que por tal, permaneça é a forma de um estar possível. A queda é a forma trágica do voo. Mas o amor voa, sempre.
Porque amor é memória, é a caneca que ficou, pedra como gelo, mas quente, porque pegada antes, acarinhada agora. A perda é o lado triste do amor, mas o amor é a redenção da perda, porque se lembram, um pai e um filho, da mulher e mãe que amavam e amam, porque cada voo é o renovar do amor que os juntou em todos os anteriores voos planados.
Antes se imagine, da mesma forma, que o filho se balançava também no colo da mãe, indo e vindo ambos, no pendular seguro e longo, curvado e angulado, quer de dia quer de noite, na mesma calma de uma montanha que os segurou. Como se possa imaginar, uma mãe e um filho, juntos, em forma-amor, no topo do mundo, sobre ele a dançar, na noite calada e no azul da neve que dorme.
Um último voo. Porque o gelo sempre aquece. E o sol sempre bate. O degelo começa, a montanha parte-se. Iria sempre acontecer. A força do peso. O gelo-pedra impele. A casa bascula. Desprende-se. Inclina-se. Do mesmo modo, a mochila com o paraquedas desliza e cai no abismo. Nada mais há a fazer do que voar. No último momento, o lançamento. A velocidade é de queda, mas o abraço permanece, sabendo eles da terminalidade que agora enfrentam. O chão aproxima-se.
O vento desliza com eles, segura-lhes o voo, marca-lhes o tempo que resta. Mas, se amar é como voar, se é ter a paz, que no espírito, se faz ligada a quem mais interessa, a quem mais se quer e a quem mais se ama, então voar é como amar, e da leveza do ar, o corpo-amor materializa-se, seja uma visão ou não, uma realidade ou uma ilusão que só mesmo a compaixão e a empatia da lembrança podem fazer figurar, a Mãe surge para os amparar, para planar novamente com eles, em corpo-tripartido, abraço-saudade, abraço-em-amor.
O paraquedas da Mãe abre-se, e os dois aterram na imensa montanha (outra) de bonés que, caídos das muitas planagens anteriores, se perfazem como um manto que multiplica as três cores da família que, uma vez mais, voou junta: o vermelho do Pai, o amarelo da Mãe, o laranja do Filho. Ela já não está, desceu com eles, mas com eles não aterrou, mas ficou o mais importante e com certeza, o mais necessário, o amor que os uniu sempre e que sempre os uniram.
O que fica: o Amor que a todos junta, o Amor que a todos correlaciona, o Amor que a todos torna iguais, na fragilidade e no sublime, na tristeza e no encanto, na razão de sermos aquilo que devemos ser, seres-em-amor. Com ele, por ele, por meio dele, o Amor, o ser humano sempre se quis fazer e sempre se fez como um ser outro: um ser que voa porque ama.

