Em relação aos anos 80, pode-se fizer que de todas, esta foi talvez a época de ouro para a ficção científica. Hollywood fervilhava com ideias e havia sempre excelentes filmes para toda a gente ver no cinema; este foi o ano de afirmação de bastantes realizadores criativos ansiosos por puxar pela imaginação do público, e foi exactamente isso que fizeram.

 

Após largar os lemes de “Alien” foi a vez de Ridley Scott pegar em “Do androids dream of electric sheep” do mestre da ficção cientítifica Phillip K. Dick e transformar isso em “Blade Runner”; um híbrido de Film Noir e Policial passado num futuro onde a humanidade começou a fabricar réplicas bio-robóticas de pessoas para as usarem como escravos nas colónias fora do planeta. No universo do filme a policia parece ser omniprescente, as grandes corporações dominam a cidade e mente do protagonista divaga constantemente acerca a sua existência e valores morais e éticos. Desde os filmes dos anos 50 que não se via uma mentalidade interventiva tão forte num filme do género. Foi nomeado para os Oscares mas não ganhou nada. “Blade Runner” é considerado um dos melhores filmes de todos os tempos por várias revistas e sites de cinema.

 

No mesmo ano surge também mais um filme de Steven Spielberg, dando quase uma sensação de competição amigável entre ele e Lucas. “E.T O Extra-Terrestre” saiu para os cinemas como o derradeiro filme para toda a familia, e neste caso a invasão não era extra-terrestre, mas os terrestres é que eram os maus da fita, querendo prender o pequeno ET num laboratório. Com um orçamento de pouco menos de 11 milhões de dólares este filme acabou por ter um sucesso enorme e tornou-se no novo recordista de bilheteira.

 

No filme existe uma ligação psíquica entre os sentimentos do ET com os sentimentos de Elliot, o rapaz que o encontra sendo que quando o ET sofre por estar longe de casa, a criança também sofre, sentindo-se triste e isolado, fazendo um paralelismo com o facto de Elliot ser um filho de uma mãe divorciada, fazendo com que os sentimentos do ET sejam um eufemismo para os sentimentos de Elliot que se sente desconfortável sem a presença do pai em casa e sem a estrutura de uma família. o próprio Spielberg admitiu que este se trata de um filme biográfico inspirado no divórcio dos seus pais quando este era uma criança. O filme ganhou quatro óscares, estando nomeado para nove, entre os quais o de melhor filme, que acabou por perder.

 

Ainda em 1982 surge um terceiro filme relevante para o género: “Tron”. lançado pela Walt Disney Pictures e foi revolucionário no que toca a animação por computador, servindo de base para a possibilidade de filmes como “Toy Story” e mesmo “Avatar”. A narrativa do filme acontece maioritariamente dentro de um universo virtual onde Kevin Flynn, a personagem principal protagonizada por Jeff Bridges tem que ultrapassar desafios como corridas de motas que conseguem fazer coisas como curvas de 90 graus e lutas de disco, semelhantes ás antigas lutas de gladiadores, só que num universo inteiramente digital. O filme foi considerado como uma ousada jogada por parte da Disney que conseguiu surpreender tudo e todos com a sua tecnologia. Apesar de tudo, o conteúdo dramático do filme perde-se um bocado dentro do seu próprio universo.

E depois de termos um filme mais cerebral (“Blade Runner”) um filme para a família (“ET”) e um filme de acção (“Tron”) em 1984 chega uma comédia que envolve fantasmas, um espirito demoníaco e uma guloseima gigante a aterrorizar uma cidade; “Ghostbusters” de Ivan Reitman, com Dan Aykroyd e Bill Murray a liderar nos principais papeis teve um enorme sucesso entre o público e a critica, sendo ainda hoje considerado uma das melhores comédias de sempre e fazendo dos seus actores principais, particularmente Bill Murray, actores de culto por parte do público. Também em 84, na Dinamarca é lançado “The Element of Crime”, a primeira longa metragem de Lars Von Trier. O filme contém todo um ambiente de Film Noir, filmado em tons sépia e narra as acções de um policia que recorre á hipnose para se poder lembrar do último caso que resolveu, onde andou a perseguir um assassino em série, isto para poder apanhar um assassino com métodos parecidos no presente da narrativa. o filme ganhou bastantes prémios nos mais variados festivais como por exemplo o de “melhor realizador” no Fantasporto e chegou mesmo a ser nomeado para a Palma de Ouro de melhor filme em Cannes. “The Element of Crime” é o primeiro filme da trilogia Europa.

 

Em 1985 chega a vez de Terry Gilliam e do seu estranho mas bastante imaginativo “Brazil”. O filme é uma sátira política comparável por exemplo ao “Dr. Estrangelove” de Stanley Kubrick e nele Gilliam critica o modus operandi burocrático da sociedade e do poder que esta tem em entorpecer a mente do cidadão. Segundo o próprio realizador, “Brazil” foi inspirado em “1984” de George Orwell embora o próprio realizador tenha admitido que nunca leu o livro. “Brazil” tornou-se um filme de culto mantendo hoje a sua mensagem bastante actual.

 

Um ano após “Brazil”, chega a vez de “The Fly” de David Cronenberg. Este filme é um remake de um filme de 1958 com o mesmo nome, contudo a forma como foi realizado,  narrado e fotografado fizeram com que a versão de Cronenberg eclipsasse o filme original. “A Mosca” é um dos filmes de Ficção Científica mais conhecidos de sempre e ajudou a colocar Cronenberg no mapa, sendo que este realizador não era um novato dentro do género, o seu “Scanners” de 1981 apesar de não ser um filme brilhante conseguiu ser uma obscura influência para muitos outros filmes posteriores que se limitaram a pegar nas suas bases para criar novas narrativas. A caracterização da personagem principal, protagonizada por Jeff Bloom recebeu um Oscar da Academia. Cronenberg pretendia que o seu filme fosse mais do que apenas um filme de terror/ficção científica; a evolução de Homem a Monstro ao longo do filme serve como uma analogia para doenças como cancro e sida, fazendo uma analogia entre uma metamorfose entre homem e besta e o desespero de ter a nossa vida ou a vida de alguém próximo a desvanecer-se progressivamente para a morte. Já em 1987 o realizador holandês Paul Verhoeven vai para Hollywood para realizar um dos maiores sucessos da época: “Robocop”. Verhoeven sempre afirmou como não sendo adepto dos filmes deste género mas disse também que viu em “Robocop” a possibilidade de realizar um grande filme de Hollywood e mesmo assim conseguir falar de temáticas sérias e profundas que geralmente são escassas nos grandes Blockbusters.

Em “Robocop” um policia de seu nome Murphy patrulha as ruas de uma Detroit futurista e perigosa quando numa perseguição a um grupo criminoso é brutalmente assassinado. Enquanto isso, a poderosa empresa OCP negoceia com a policia local o controlo da mesma ao mesmo tempo que planeia destruir Detroit para dar lugar a uma cidade utópica de seu nome Cidade Delta. A OCP consegue o acordo com a policia e aproveita o corpo sem vida de Murphy para criar aquilo que a empresa acreditava ser a nova geração de representantes da lei, uma linha de cyborgs feitos a partir de corpos e mentes humanas mas com toda uma série de adaptações robóticas bem como alterações no cérebro para os poderem controlar como se fossem programas informáticos. A partir daí vemos um novo agente Murphy, conhecido agora como Robocop, a aplicar a lei da forma mais matemática possivel, não olhando a meios para atingir os fins. Com o decorrer do filme vemos que a sua parte humana ainda continua activa e Robocop começa a ter memórias da sua vida passada, da sua mulher e do seu filho, isto enquanto ele é tratado como uma máquina e não como o humano que afinal continua a ser. “Robocop” entra então em temáticas como a governação de cidades e nações por grandes empresas e corporações, a privatização dos serviços públicos, a corrupção, a perda de liberdade e a perda da identidade enquanto humanos. Desde “Metropolis” que nennum filme de Ficção Científica ia tão longe na problematização de forças como os novos tipos de escravatura impostos pelo capitalismo e a perda de crença em instituições como governos e tribunais.

 

O final da década de 80 e inícios de 90 foi ainda o berço para o CyberPunk, um sub-género de Ficção Científica. O nome vem das palavras “Cibernético” e “Punk” que em inglês significa algo como “Rufia”. É também o nome de toda uma cultura urbana ligada ao descontentamento e rebeldia social. As características do Cyberpunk são as temáticas niilistas que seguem pessoas que vivem á margem de sociedades futuristas e distópicas. Os filmes costumam seguir uma fusão das estéticas dos Film Noir e de filmes como “Robocop”, “Scanners” e “Blade Runner”. Um dos melhores exemplos é o filme japonês de animação “Akira” de Katsuhiro Otomo, que se passa na cidade de Nova Tóquio infestada por movimentos terroristas anti-governo, crime, destruição e poluição nuclear.