Estamos agora na década de 60, quando a grande aposta dos estúdios nos filmes de Ficção Científica caiu um bocado. Talvez por causa do crescente número de filmes com monstros mutantes ou talvez devido á crise que se sentiu em Hollywood nestes anos, o certo é que a produção dentro do género caiu um bocado, e apesar de ainda se fazerem filmes do género nos Estados Unidos, a sua qualidade e quantidade diminuiu em relação aos filmes da década anterior. Esta quebra de produção foi no entanto combatida com o surgimento de excelentes filmes de ficção científica na Europa, principalmente em França, e também pela criação já quase no final da década daquele que é a derradeira obra prima do género: “2001 – Odisseia no Espaço”. (Mas sobre esse filme falarei mais para a frente.)

 

Para começar a escrever sobre esta década tenho que começar pelo seu primeiro “grande” filme do género: “The Time Machine”, filme lançado em 1960 pelo realizador George Pal que tinha produzido a ultima adaptação cinematográfica de uma obra de H.G. Wells “A Guerra dos Mundos”. “The Time Machine” (“A Máquina do Tempo” em português) foi produzido apenas com oitocentos e cinquenta mil dólares, valor bastante inferior ás grandes produções da década anterior mas mesmo assim conseguiu ser um filme capaz de perdurar na memória de tanto público como critica. Recebeu um Oscar pelas sequências de Time-Lapse que mostram a deslocação da máquina no tempo, ao longo de dezenas, centenas e mesmo milhares de anos. Em 2002 foi feito um remake deste filme com o bis-neto do Wells a tomar a realização do projecto.

 

Mas o titulo de filme mais insólito da década, e já agora, um dos filmes mais peculiares da história do cinema vêm da mente do realizador francês Chris Marker. O seu nome é  “La Jetée”. O filme conta com apenas 28 minutos de duração, mas a temática do filme e á forma como ele é feito fazem de “La Jetée” algo digno de ser mostrado numa aula sobre cinema. Feito inteiramente com fotografias e um pequeno plano de uma mulher a piscar os olhos o filme é sobre um prisioneiro que é obrigado numa Paris destruída pela terceira guerra mundial a viajar para o passado para que ele possa pedir ajuda aos governos de modo a que eles possam salvar a futura Paris. Uma paris futurista que serve também como cenário para a narrativa de “Alphaville” de Jean Luc Godard, filme de 1965. Apesar do filme de Godard se passar num futuro distópico ele não usa qualquer tipo de efeitos especiais no seu filme nem usa qualquer tipo de cenário construído propositadamente para simular o mundo futurista; na vez disso ele filma nas zonas de Paris cuja arquitectura é mais moderna. A própria voz de Alpha 60, o super-computador responsável pelo governo de Alphaville é feita através de uma laringe mecânica destinada a pessoas cujo cancro lhes afectou a laringe e as impossibilitou de falar, portanto nem a isso Godard quis recorrer a sintetizadores ou nada do género. Em “Alphaville” Godard mistura algumas das características do Film Noir com algumas caracteristas/clichês dos policiais americanos, criando tal como Chris Marker um filme de Ficção Científica de autor, diferente a tudo o resto que tenha passado nos cinemas até essa data.

Partindo agora para um filme de estúdio, em 1968 foi o ano de “Planet of the Apes” de Franklin Schaffner com Charles Heston como protagonista. Este filme ficará para sempre na memória pela sua cena final, onde Taylor, a personagem de Charles Heston foge da cidade dos macacos e descobre uma semi-enterrada Estátua da Liberdade aprendendo assim que aquele nunca foi um planeta distante mas sim a Terra, a nossa própria casa, onde os humanos se tornaram escravos primitivos dos restantes primatas, agora raça intelectualmente superior. Antes dessa cena, um diálogo com um dos macacos indica que os humanos perderam o poder do planeta devido aos seus hábitos destrutivos.  É de lembrar que durante os anos 60 o movimento Hippie cresceu bastante nos Estados Unidos e os protestos de paz eram cada vez maiores num período em que USA e URSS tinham mísseis apontados uns aos outros. Se haveria altura para o regresso de filmes como “O Dia em que a Terra Parou” seria exactamente esta, e “Planet of the Apes” entrou na sala de cinema a aproveitar a oportunidade de deixar a sua marca.

 

Foi também em 1968, um ano antes da chegada do Homem á Lua que o mundo viu pela primeira vez um filme espacial como nunca antes tinha visto. A dois de Abril de 1968 estreia nas salas de cinema “2001 – Odisseia no Espaço”, uma das várias jóias da coroa da biografia profissional de Stanley Kubrick e a derradeira obra prima do cinema.

 

Com a ajuda do escritor Arthur C. Clarke, Kubrick escreveu um argumento que não era só para um filme de ficção científica mas também para uma experiência visual como poucas tinham sido feitas. A fusão de musica e imagem é perfeita nos planos em que se vê o bailado entre naves espaciais, o jogo de cores apresentado durante uma viagem á velocidade da luz e a construção de cenários rotativos capazes de dar total realismo a cenas em que astronautas devem caminhas sobre os corredores em constante rotação de uma nave espacial; nada neste filme falha! Dividido em 4 partes, o filme acompanha a evolução do Homem desde criatura primitiva até ser superior, passando por fases em que teve que se reinventar a si mesmo para poder continuar no seu caminho evolutivo. O filme dá-nos pequenos indícios da rivalidade entre União Soviética e Americanos (na conversa que se dá na estação espacial, antes da partida para a Lua) e mostra a necessidade que o Homem criou nele próprio em depender de máquinas para o dia o dia, tudo isso enquanto nos mostra também efeitos especiais que ainda hoje se mantém actuais ao passo que quase todos os outros filmes do seu tempo (e mesmo muitos posteriores) já quase que se tornam difíceis de ver.

 

Mas curiosamente, ao saltar de década não saltamos de realizador, e assim a década de 1970 começa a nível cinematográfico (dentro da Ficção Científica) em 1971 com “A Clockwork Orange” (“Laranja Mecânica” em português). Este filme serve como uma sátira negra sobre a sociedade e a perda dos seus valores, bem como a noção de conseguir uma boa acção através do castigo, fazendo uma analogia entre o fictício método Ludovico e a bem real castração química a que alguns violadores e pedófilos são sujeitos como forma de rebaixar a libido e assim fazer com que não voltem a prevaricar. Só porque o castigo é eficaz fisicamente não quer dizer que o criminoso em questão se torne realmente melhor pessoa. Mais uma vez neste filme Kubrick dá uma importância muito grande á musica, utilizando-a nas cenas eventualmente mais chocantes, de modo a contrastar o belo com o horrendo ou talvez mesmo para atenuar a dureza das imagens. O filme foi nomeado para quatro Oscares mas acabou por não ganhar nenhum.

Um ano depois, Andrei Tarkovsky lança o seu “Solaris”, adaptação de um livro de um dos grandes nomes dos livros de Ficção Cientifica: Stanislav Lem. Pessoalmente, Tarkovsky decidiu fazer um filme deste género devido á sua situação económica; o seu filme anterior não tinha sido um sucesso e o argumento que mais tarde se viria a tornar no filme “O Espelho” tinha sido rejeitado para realização, como tal, ele virou-se para um projecto economicamente seguro e onde mesmo assim poderia manter a sua liberdade criativa enquanto trabalhava a obra de alguém que respeitava (o autor polaco Lem). “Solaris” foi  nomeado para uma Palma de Ouro mas mesmo assim Tarkovsky não se sentiu satisfeito com a sua obra, afirmando que o filme não transcendia o género. Apesar da opinião do realizador o filme é de facto uma bela obra que dentro do seu género, não cai dentro das normas, muito menos dos clichés, ganhando um ritmo muito próprio “Solaris”, tal como “2001…” consegue ser bastante lento por vezes, o que não é necessariamente mau pois tal como o filme do Kubrick também este consegue chegar ao seu objectivo de forma eficaz, mostrando-se uma boa experiência cinematográfica.

 

Na segunda metade da década de 70 surge o mestre do “Cinema Espectáculo” Steven Spielberg. Depois de afastar as pessoas da água com “Tubarão” em 1975 em 1977 ele surge novamente nas salas de cinema com “Close Encounters of the Third Kind”, filme nomeado para nove Oscares da Academia mas que acabou por levar apenas dois, melhor cinematografia e melhores efeitos especiais. “Encontros Imediatos do terceiro grau” é um filme, como o próprio nome indica, sobre o encontro com seres extra-terrestres. A temática do filme centra-se no contacto com outros povos, querendo afirmar a possibilidade de estar-mos preparados para participar numa comunidade que se pode perfeitamente estender para além do nosso sistema solar, mas que acima de tudo, estamos preparados para entrar numa comunidade da qual podem fazer parte ambas as partes até então inimigas na guerra fria. Segundo Spielberg: “Se estamos preparados para falar com extra-terrestres em “”Encontros Imediatos…” porque não estamos preparados para falar com os “Vermelhos” da União Soviética?”. O lado inocente com o qual Spielberg representou as visitas extra-terrestres e os primeiros contactos deles com os humanos bem como o tom de esperança e calma de todo o filme serviu para abrir de novo as portas das grandes massas á Ficção Científica como género. Não é sem por acaso que Spielberg é um dos nomes mais importantes do cinema no que toca á Ficção Científica.  E aproveitando a boleia deste espirito positivo dentro da Ficção Cientifica, o amigo de Spielberg, George Lucas lança no mesmo ano o seu híbrido de fantasia e Ficção Científica, 1977 era também o ano da “Guerra das Estrelas”. Pessoalmente não considero a saga “Star Wars” (Os três primeiros filmes pelo menos) como uma narrativa de Ficção Cientifica mas antes como uma fantasia passada no Espaço onde as antigas representações de cavaleiros encantados e princesas e cavalos alados dão lugar a sabres de luz e planetas distantes e naves espaciais. É no entanto impossível fugir ao facto de que este é um dos filmes mais considerados pelo publico no que toca á Ficção Científica, e querendo ou não, “Star Wars” tal como “Close Encounters” contribuiu em muito para o crescimento do género quer a nível técnico, quer a nível narrativo.

 

Um ano depois de Lucas e Spielberg lançarem os seus filmes originais não podia deixar de vir mais uma adaptação, uma adaptação que veio marcar nome pelo simples facto de que ajudou a cimentar mais um sub-género, em 1978 “Superman” de Richard Donner criou as premissas para aquilo que viriam a ser os “Filmes de Super-Heróis” tão em voga hoje dia. O filme contava com um bom elenco, capaz de dar credibilidade á narrativa e a tecnologia usada para mostrar o Super-Homem a voar mereceu elogios da critica e do publico. Lex Luthor é um vilões mais famosos da história do cinema, bem como o Super-Homem é um dos heróis mais queridos pelo publico. O filme foi um sucesso e deixou a sua marca.

 

Mas a década de 70 foi ainda a estreia para mais um filme de uma famosa saga de filmes passados no espaço sob ameaça não só de monstros mas de monstros extra-terrestre: 1979 é o ano do “Alien” de Ridley Scott. “Alien” consegue ser um filme muito bem pensado e relevante para a história da ficção científica no cinema, desde a credibilidade dos efeitos especiais até á realização, passando pela qualidade da fotografia, as próprias criaturas extra-terrestres conseguiam ser bastante boas para a época, diria até que não se via tanta curiosidade num monstro desde que “Tubarão” saiu dos cinemas quatro anos antes. O filme consta na lista dos cem melhores filmes de várias revistas de cinema; e mesmo apesar das suas sequelas falharam em conseguir manter aquilo que este filme conseguiu conquistar, “Alien” mantém-se como um dos incontestáveis do género.