João Botelho nasceu em Lamego a 11 de Maio de 1949 e viu o seu gosto pelo cinema crescer quando foi para Coimbra, em 1967, e se passou a encontrar num meio académico de espírito livre, contestatário, e virado para as artes da musica, pintura e cinema. Depois disso trocou a faculdade de ciências de Coimbra pela faculdade de engenharia do Porto e já na cidade que ladeia o Douro passou a desempenhar funções de designer gráfico. E quando lhe faltavam apenas duas cadeiras para acabar o curso universitário eis que se depara com a revolta de 25 de Abril, e aproveitando o calor do espírito revolucionário inscreve-se na escola de cinema do conservatório de Lisboa. A partir desse momento começa então a formar-se a carreira no cinema de João Botelho que teve ainda oportunidade de assistir de perto á realização do filme “Amor de Perdição” de Manoel de Oliveira, uma das suas grandes referencias, e com quem afirma ter aprendido bastante.

 

“Livro do Desassossego” é um livro desconexo, composto por textos escritos por Bernardo Soares (Semi-Heterónimo de Fernando Pessoa) um ajudante de guarda-livros residente na baixa de Lisboa num apartamento alugado perto do seu local de trabalho. Ao estilo de um diário ou, segundo uma analogia mais contemporânea, ao estilo de um blog, é um livro que se baseia em vivências, em emoções e em questões que o autor se coloca. É uma viagem por Lisboa através de uma viagem pelo interior de um homem (Bernardo ou Pessoa, tanto faz pois ambos se confundem).

 

Este livro teve a sua primeira edição apenas 50 anos depois da morte de Pessoa e como tal a organização do seu conteúdo é disposta segundo o critério da editora que o publica já que poucos ou nenhuns textos incluem uma data ou uma menção da sua suposta ordem de criação. O “Livro Desassossego” é também uma das maiores obras de Fernando Pessoa a par do seu “Mensagem” e também uma das mais importantes peças literárias portuguesas.

 

O primeiro esboço de ideias que Botelho teve para a realização do “Filme do Desassossego” surgiu quando este preparava “Conversa Acabada”, de 1981, um filme documental que retrata a amizade entre Fernando Pessoa e Mário Sá Carneiro, bem como as suas conversas, as suas cartas e os seus poemas. Nessa altura Botelho teve o privilégio de poder ter em casa todo um espólio literário de Fernando Pessoa, cuidadosamente guardado numa arca pela sobrinha-neta do poeta.

 

A partir daí tivemos que esperar até 2009 para que o realizador finalmente decidisse criar o filme sobre o livro que tanto o comoveu; e aproveitando a “relação” que este tinha desenvolvido com o escritor, partiu para a adaptação de uma das suas mais marcantes obras. Pelas suas palavras: “Na altura em que fiz o filme “Conversa Acabada” ajudei um pouco o Pessoa a ser conhecido, agora achei que era altura de ele me ajudar a mim.”

 

Posto isto temos então agora o “Filme do Desassossego”, ou pelo menos um “Filme do Desassossego” o que se restringe á visão e entendimento de João Botelho visto que do livro de Bernardo Soares poderiam sair um sem fim de filmes diferentes, e Botelho escolheu partir por um caminho mais fiel, onde textos são narrados na íntegra por Cláudio Silva, o protagonista deste filme quase que ao jeito de um monólogo teatral. De qualquer das formas deve ser dito que é uma adaptação bem conseguida e faz justiça á peça literária original. Mas o mais curioso neste filme é mesmo a opção da produtora (Clap Filmes) em retirar o filme dos cinemas dos centros comerciais e coloca-lo nos cineteatros e centros culturais, afastando a projecção do meio dos recintos comerciais e das pipocas e aproximando-o a um meio, diria mesmo, mais tradicional, onde o publico vai com o intuito de ir ver o filme e nada mais. Isto pode ir contra muita coisa de que o cinema actual necessita, afastar o “Filme do Desassossego” do grande publico parecia ser apenas mais uma atitude snob (se me é permitida a expressão) de quem fez um filme de “autor” mas o certo é que acabou por surtir o efeito contrário, fazendo com que o filme fosse recebido com sessões cheias nas cidades por onde passou, com pessoas a ir ver o filme não porque gostem do realizador mas porque estavam expectantes em ver qual era o motivo de “tanto alarido” acerca do filme, o que até acabou por mostrar que por vezes é preciso sair do circuito comercial para poder deixar um filme respirar e ir de encontro ao seu público.

 

Artigo escrito por Eduardo Magueta e Tiago Resende