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«A Metamorfose dos Pássaros»: a transcendência imanente na natureza e no ser

Segundo Espinosa, Deus está na natureza. Por forma a manifestarmos e reconhecermos a espiritualidade, a relação de transcendência que desenvolvemos não se reduz, exclusivamente, a uma crença de fé. Por outras palavras, do mesmo modo que os seres nascem, vivem e morrem, também as árvores, as plantas e os pássaros vêm e partem deste mundo. No âmbito da conversa com Catarina Vasconcelos, conduzida por Filipe Martins, decorrida na última edição do Festival de Cinema Family Film Project, a realizadora confessa-se não ser crente, todavia, nada mais poderia ser espiritual e transcendente, quanto a experiência de assistir à sua filmologia.

Acontece que as metamorfoses inerentes ao habitar o mundo dão-se num espaço temporal, pelo que, tal como outros artefactos de que nos socorremos, também a memória é uma construção a que recorremos para medir tais experiências. Tratando-se de uma construção, a memória é subjectiva, ou seja, as histórias que contamos para compreendermos o nosso modo de habitar, sustentam-se nos factos do mundo vistos pelo olhar e sentir de cada um. Desengane-se, portanto, quem vê nas histórias biográficas que Catarina Vasconcelos nos conta, o privilégio de partilhar a exclusividade do seu olhar estético e daqueles que a rodeiam ou rodearam, tal seria não conseguir ver para além da capacidade universal e abstracta de o cinema nos afectar.

As histórias contadas pela realizadora portuguesa em «Metáfora ou a Tristeza Virada do Avesso» (2013) e «A Metamorfose dos Pássaros» (2020) são histórias suas e que, pelo confronto que traduzem com as realidades da Morte, da Justiça, e dos modos de ser, passam-nos por dentro e para dentro de nós, espectadores, pois que ser-se humano é, inevitavelmente, ser-se para a morte. Quer isto dizer que a morte não tão somente faz parte da vida, porquanto ela é modo-de-ser, e, ao mesmo tempo, as fases de luto que despoletam estes filmes são, precisamente, aquilo que torna estes filmes uma ode à vida, à maternidade, e ao mistério. Na tentativa de compreender por que é que um país se encontra pela metade, ao passo que também uma filha que perde a mãe está pela metade, a injustiça que reina a governação de Portugal em tempos de ditadura ou em regimes sujeitos à troika, coincide com o momento pessoal de estar a atravessar o inverno de perder alguém.

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Na senda de reconhecer a transcendência-imanente naquilo que é natural, as estações do ano apresentam-se, em ambas as metragens, como etapas de luto (também já o realizador sul-coreano Kim Ki-duk concentrou o esforço imanente-budista de compreender a passagem do tempo em «Primavera, Verão, Outono, Inverno… e Primavera», 2003).  São as etapas que vamos conquistando, à medida que vamos tecendo mais e novas memórias, na esperança de não nos frustrarmos com o eventual esquecimento, e para o qual a realizadora traz a solução: “quando não te lembrares, inventa.” Uma vez mais, tratando-se a memória de uma construção, ela dá-se na tensão entre memória individual e memória colectiva, de tal modo que cada autobiografia carrega em si a inscrição histórica num determinado momento e lugar. Por conseguinte, assistirmos às biografias que Catarina Vasconcelos nos oferece, é, simultaneamente, recordar e reconstruir o habitar num país marcado pela ditadura – política, social e económica -, pela guerra do ultramar, e por todas as formas de distanciamento e ausência daquilo que é justo e que é livre. Na medida em que a verdade ditada pela História corresponde, largas vezes, à versão contada pelos mais fortes, todas as artes que retratam uma verdade-outra, ficcionada por meio cinematográfico, literário ou outro artístico, urgem em tempos de incerteza e de negação e são, por isso mesmo, essenciais e louváveis para não persistirmos no desapego e na desinformação.

Por muito difícil que seja escrever um guião, especialmente depois de ler Augustina Bessa-Luís como confessa Catarina Vasconcelos na conversa acima mencionada (e é também com a cena da leitura implícita de «Doidos e Amantes» que «Ordem Moral», 2020, termina) esse guião é a melodia da literatura (em especial da poesia) que nos embala. Embala-nos na viagem de conhecermos as vidas dos avós, dos pais, dos irmãos, dos tios que rodeiam a Catarina, e os que rodeiam todos e cada um de nós que trazem à tona o seu passado, e passam a ter a coragem de abrir a porta do “cemitério de elefantes” (numa alusão ao animal predilecto da mãe da realizadora, pois que o elefante sabe morrer e é capaz de manifestações públicas de luto).

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A par do guião poético, a fotografia digna da pintura renascentista, e toda a montagem em forma de partitura, como uma sonata de Schubert, (o que realça todas as artes presentes na biografia da realizadora, pela formação em Belas-Artes e Música), estes dramas biográficos escancaram-nos gavetas da alma, e enfatizam o poder do cinema como literatura.

O poder que a literatura exerce na cinematografia (impossível deixar de mencionar Robert Bresson), realça, em particular nesta metáfora e nesta metamorfose, a imanência do natural como meio de dizer o transcendente, pelo que tal qual «O Pássaro da Alma» (Michael Snunit, Naama Golomb, 1993): e o mais importante – é escutar logo o pássaro. Pois acontece o pássaro da alma chamar por nós, e nós não o ouvirmos. É pena. Ele quer falar-nos de nós próprios. Quer falar-nos dos sentimentos que estão encerrados nas Gavetas – Dentro de Nós.

Escutemos estes dois filmes, ainda que as palavras que os reflectem nos pareçam sempre insuficientes e incompletas.

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