Arqueologia-do-Cinema-Brasileiro

Arqueologia do Cinema Brasileiro (Parte 2) – São Paulo das vertigens sociais

Enquanto Recife lutava contra o esquecimento, a cidade de São Paulo seguia crescendo. No início dos anos 1920, ela já não era mais uma paragem de tropeiros com uma Faculdade de Direito frequentada por gente de todo o país. Com o advento do café, São Paulo experimentou uma explosão demográfica nunca vista antes, impulsionada também pela crescente indústria e pela chegada de imigrantes, muitos dos quais tornaram-se magnatas numa terra de possibilidades. Mas, o paulista continuava taciturno e carola. Na futura maior economia do Brasil, sorrir já era proibido e o trabalho obsessivo já se naturalizava para além de uma patologia. Disciplina e obediência, o Positivismo tardio do paulistano daqueles dias está bem impresso na película. Dirigido por dois húngaros imigrantes, Rudolf Lustig e Adalberto Kemeny, São Paulo, sinfonia da metrópole (1929) é a versão brasileira de Berlim, sinfonia da grande cidade, lançado dois anos antes. Kemeny e Lustig haviam passado uma temporada na Alemanha, trabalhando com cinema, antes de se mudarem para o Brasil, mas nunca admitiram que o filme da UFA os tivesse motivado a construir um retrato de São Paulo valendo-se das diversas trucagens, espelhamentos de imagens e montagem inovadora, tal qual o filme alemão. No entanto, diferente da Berlim já bastante cosmopolita e agitada – sobretudo à noite – mesmo ainda sob efeitos da Primeira Guerra, São Paulo ainda não estava plenamente moderna para se gabar. O Edifício Martinelli, marco da evolução arquitetônica, é mostrado ainda em construção. Há carros nas ruas, mas poucos. Os transeuntes parecem ainda circular por ruelas de uma cidade interiorana e os planos gerais da cidade mostram mais a linearidade de bairros antigos que a verticalidade de uma real metrópole e seus prédios imponentes. A vida noturna não existe em São Paulo. Quando o dia acaba, o filme nos avisa que é a hora em que o paulistano deve se recolher e recompor suas forças para o trabalho do dia seguinte.

Restou aos diretores voltarem boa parte da fita para o registro de cientistas do Instituto Butantan, símbolo do progresso científico no país, e para a Penitenciária Estadual, onde os “enfermos morais”, como são chamados os presos, seguem uma rígida disciplina que consiste em fazer exercícios físicos, aprender ofícios manuais nas oficinas do presídio e cuidar da horta e do pomar no quintal dos pavilhões. Outros tempos.

Na ficção, a implacável São Paulo também figura com a mesma frieza com que trata seus filhos e enteados. Nascido em Sorocaba, interior do Estado, José Medina foi um dos primeiros cavadores do ciclo do cinema paulista. Com seu sócio, o italiano Gilberto Rossi, produzia cinejornais para a presidência da província de São Paulo, o que lhe permitiu investir na criação de uma produtora de filmes autorais. Entre 1919 e 1929, dirigiu seis filmes de ficção. Infelizmente, devido a um incêndio nos depósitos da empresa, somente dois sobreviveram, o primeiro, O exemplo regenerador, de 1919, é um também um exemplo de obstinação. Filmado com elenco amador, na casa de Rossi numa única tarde, o curta de pouco mais de cinco minutos é uma comédia de costumes. Um casal está completando um ano de seu matrimônio, mas o marido prefere passar a noite com os amigos, numa “conferência” – eufemismo para farra com mulheres e bebidas – a celebrar a data na intimidade, com a esposa. Triste com a indiferença do homem, a mulher se une ao mordomo para vingar-se e arma uma cena que sugere um adultério flagrante com o serviçal. Ao regressar, diante da inusitada situação, vendo a esposa fumando calmamente no divã da sala, as garrafas de champanhe sobre a mesa e o mordomo fingindo estar inebriado após “servir” sua patroa, o marido já está prestes a sacar sua pistola e lavar sua honra em sangue, quando o mordomo se levanta e revela a farsa, advertindo que aquele era apenas um aviso do que de fato poderá ocorrer se não cessarem as “conferências”. Medina termina seu sketch moralizante com o casal, já reconciliado, trocando carinhos ternos no sofá.

Mesmo com a simplicidade de uma produção caseira, o filme é algo inovador para o cinema nacional daquele momento, já que apresenta uma decupagem madura, atuações comedidas e longe dos maneirismos imitativos comuns à época, montagem paralela muito bem resolvida e uma unidade narrativa rara. Porém, seu último filme demonstra uma evolução notável. Baseado num conto do americano O. Henry, Fragmentos da vida (1929) é um drama que narra a decadência de um menino que não seguiu o conselho de seu pai no leito de morte, que o incentivava a ser honesto e trabalhador, para ter honra e respeito. Já adulto, aquele menino se tornou um mendigo, um morador de rua que busca diversas formas de ser preso para poder passar o inverno na cadeia, no conforto da cela e com duas refeições ao dia. Ao conhecer outro mendigo, mais escolado e de caráter ruim, se lança numa série de tentativas de delitos que terminam em situações cômicas e nunca com sua prisão. Finalmente, depois de decidir mudar de vida e seguir o conselho que lhe dera o pai, o rapaz é trapaceado pelo amigo pilantra e, enfim, é preso. Envergonhado, suicida-se na cadeia.

Esta tragédia da vida moderna ratifica aquilo que viria a ser o mote de uma sociedade paulistana que faz vistas grossas aos desprovidos e fingem nobreza. Medina, criticando a desordenada evolução da cidade nos revela que, desde aquela época, o marginal é visto como fardo e não como um cidadão que deve ser amparado e reabilitado pela sociedade.

Também no Estado de São Paulo, o ciclo de Campinas teve suma importância nos anos formativos de nosso cinema. A cidade chegou a receber o apelido de “Hollywood brasileira”, de onde brotavam sucessos que, por um lado fazia crescer a produção nacional, mas por outro, sofriam de graves defeitos técnicos e dramatúrgicos. Por exemplo, O segredo do corcunda (1924), de Alberto Traversa é uma mistura de cenas documentais das lavouras do interior paulista, ao melhor estilo dos registros da cavação. A trama é confusa e não traz nem segredo e nem corcunda. Mas, havia exceções. Dirigido por Amilar Alves, João da Mata, de 1923, foi um dos primeiros sucessos que romperam o cenário regional campineiro, chegou à capital e foi exibido até mesmo no Rio de Janeiro. Para nosso azar, este e tantos outros filmes da época se perderam para sempre.

 

(Continua)

 

Este introito é um fragmento de ensaio publicado no livro Cinefilia Crônica: comentários sobre o filme de invenção (2019), de Donny Correia, em sua segunda edição, revista e ampliada. O autor valeu-se de tal ensaio para esboçar esta Arqueologia do Cinema Brasileiro, que em breve terá sua edição própria. 

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