Depois de tantos anos a reclamar dos filmes de abertura da Berlinale, foi com um sorriso no rosto que a imprensa deixou a sessão de abertura do festival, com o muito simpático “My Salinger Year”. O filme do franco-canadiano Philippe Falardeau adapta o livro homónimo de Joanna Rakoff, que conta a sua experiência como assistente da agente literária Margareth (impressionante Sigourney Weaver). Dentre os clientes de luxo de Margareth figura nada menos que o recluso escritor J.D. Salinger, famoso pelo seu best seller “Catcher in The Rye”.

O filme começa com Margareth à procura de uma assistente para trabalhar na editora e é então que entra em cena a determinada e inocente Joanna, interpretada pela atriz americana Margaret Qualley, catapultada para a fama global depois de aparecer no último Tarantino, “Once Upon a Time in Hollywood”.

Joanna mente que sabe digitar em máquina de escrever e se vê obrigada a esconder as suas aspirações a escritora, requisito principal para o posto. “Escritores dão péssimos assistentes” a patroa Sigourney vai logo avisando; e, então, Joanna, que mal consegue ganhar o suficiente para pagar a própria renda, agarra o trabalho com unhas e dentes com a esperança de que um dia a posição seja apenas uma porta de entrada às suas ambições literárias. Uma vez contratada, Joanna não só tem de lidar com o feitio da patroa mandona, mas também com tarefas menos edificantes, como responder ao fan mail de Salinger.

As comparações com O Diabo Veste Prada apareceram por todo lado e o realizador até tentou disfarçar o aparente incómodo com uma brincadeira na conferência de imprensa: “O Diabo veste o quê? Chanel?” O fato é que o filme de Falardeu habita um outro espaço nesse espectro da comédia de superação; onde aparentemente o blockbuster com Meryl Streep se inclui. Acrescentaríamos ainda que o filme também não parece nem um pouco interessado nos jogos de poder e na maniqueísta batalha de egos que é peça central de “O Diabo Veste Prada”, tomando todo o cuidado para nunca caricaturar a personagem de Weaver.

Mas deixada as comparações de lado, “My Salinger Year” se revela uma agradável surpresa. Um filme que parece se orgulhar a todo instante da sua origem literária, sem nunca parecer pedante. Talvez a sua maior falha seja o excesso de boas intenções – mesmo com doses de sacarina bem distribuídas pelo todo – mas há uma energia introspetiva ali que parece ter muito sentido do espaço que ocupa. E dentro desse processo de controle, arrisca ser vários filmes ao mesmo tempo, flertando com géneros e registos diferentes. Há uma cena belíssima, em forma de musical, onde a protagonista dança com o ex-namorado, do qual ela sente muitas saudades, como se prolongasse ao máximo aquele momento de despedida. Um belo filme, que abriu uma Berlinale renovada e que fez aumentar uma certa expectativa para os dias que se seguem.

Competição volta a adormecer no segundo dia

No entanto, as esperanças deixadas pelo filme de abertura de ontem caíram logo por terra com a apresentação do primeiro filme em competição hoje de manhã, o argentino El Prófugo. O filme começa com uma premissa interessante, mas depois vira uma bagunça sem fim. Nas primeiras cenas vemos Inés (Érica Rivas, de “Relatos Selvagens”) e seu novo namorado (Daniel Hendler) partindo de férias para uma espécie de ilha paradisíaca. O namorado é atencioso e amoroso e começa a demonstrar pequenos sinais de ciúmes e paranoia que parecem sair do controle. Até que um dia, no meio de uma discussão, Inés se tranca na casa de banho e, quando ela retorna ao quarto minutos depois, encontra o namorado a boiar na piscina do hotel, alguns andares abaixo. No entanto, nunca fica claro se o acidente se tratou de suicídio ou assassinato e, a partir desse momento, o filme se torna numa outra coisa, como se a premissa intrigante do início fosse um mero artifício para fazer a história andar.

“El Prófugo” é uma mistura de várias coisas: um conto sobre ciúmes e obsessão, um psychological thriller recheado de trauma e paranoia e ainda uma imitação falhada de “Berberian Sound Studio”; o que faz por torná-lo numa espécie de Frankstein, feito de colagens de outros filmes.

Há uma sensação constante de um filme perdido no tempo, que parece nunca saber muito bem para onde está nos levando. E aí, quando parece encontrar a história que quer contar, o nosso interesse já se esvaziou faz tempo.
Estranha escolha para abrir uma competição, onde se havia tanta expectativa. É o segundo filme da argentina Natalia Meta, uma completa desconhecida que teve alguma projeção no passado com o seu filme de estreia “Muerte en Buenos Aires”, mas nada que justifique estar na secção principal do festival.

Depois seguiu-se a segunda entrada do dia, “Volevo Nascondermi”. O filme do italiano Giorgio Diritti não chegou a fazer a primeira competição de Chatrian a descolar por completo, mas foi capaz de dissipar um pouco o gosto amargo deixado pelo filme argentino.

A ambiciosa produção italiana é uma biografia do pintor suíço-italiano Antonio Ligabue, que ficou conhecido pelos seus quadros de pintura “ingénua”. Ligabue foi um dos mais conhecidos pintores da chamada arte naïf, superando sucessivos problemas de saúde mental e as sequelas resultantes de uma infância de abusos e negligência familiar. É uma história trágica e avassaladora sobre o impacto e as consequências do trauma.

“Volevo Nascondermi” é um filme angustiado, como deve ser, afinal é espelho das frustrações do seu protagonista, mas tem-se a impressão de que a violência das suas imagens nunca transcende o suficiente a ponto de nos fazer acreditar nela. E depois o tom de saga épica que quer fechar um círculo e contar toda a história de Ligabue, da infância à morte, parece não funcionar muito bem. Nós só nos damos conta da passagem do tempo à medida que a maquilhagem do ator (impressionante Elio Germano) vai mudando.
E o que sobra do filme, os excessos de contemplação, a fisicalidade dos atores, quase teatral, e a seriedade em que tudo isso é entregue, acaba por prejudicar o impacto das suas intenções.

E é nesse tom carregado de negrume, não necessariamente no bom sentido, que se fecha o segundo dia da Berlinale, com filmes menores perdidos numa competição que faz lembrar a seleção arbitrária de Dieter Kosslick. Ainda assim, manteremos a esperança de que dias melhores virão.