A Berlinale 2018 ficará na memória pelo facto de ser a última sob direção de Dieter Kosslick, que iniciou a sua longa jornada em abril de 2001.

Em 2002, na sua primeira edição, Berlim, como grande parte do mundo, ainda estava sob o choque do ataque terrorista às torres do World Trade Center, o que afetou o plano de segurança do festival.

Para adentrar a cerimónia de abertura no Berlinale Palast, principal cinema da Berlinale, localizado na prestigiosa Praça Marlene Dietrich, era preciso passar por detetores de metais, como se faz nos aeroportos. Em toda a minha presença na Berlinale, isso nunca aconteceu. Nem antes, nem depois.

De Hamburgo para Berlim

Depois de trabalhar no Senado da cidade Hanseática de Hamburgo em vários departamentos, ele foi para a recém-fundada Fundação de Incentivo Cinematográfico antes de fazer a sua principal parada: dirigir a Berlinale. Kosslick tinha muito dinheiro para investir nas artes e não pestanejou em ajudar realizadores então desconhecidos e, hoje, mundialmente famosos: Christian Petzold, Faith Akin, Andreas Dresen, para citar alguns.

Mostra Competitiva na corrida pelos Ursos

Nos primeiros anos, Dieter Kosslick já foi mudando a cara da Mostra Competitiva, levando uma naturalidade quanto à presença de filmes alemães na competição. Essa que foi uma consequência de trabalho meticuloso no setor, depois de décadas ouvindo “o cinema alemão está morto”, (desde Fassbinder) o cinema da língua de Schiller e Goethe ressuscitava. Não só em Berlim, mas também passou a ser mais presente no principal festival do mundo, ali na Riviera Francesa.

O início de uma tendência acontecia em 2004 com o filme “Os Edukadores” com Daniel Brühl no papel principal. Este foi o primeiro filme em língua alemã depois da dolorosa ausência de 11 anos em Cannes. Apesar do filme ser de um produtor austríaco, ele foi realizado com muito dinheiro alemão e tinha alemães, Daniel Brühl e Julia Jentsch, como protagonistas. Filmes em língua alemã voltavam a Cannes e Dieter Kosslick contribuiu para isso.

2008  – Cinema-Política-Música 

Esse ano foi emblemático em todos sentidos. A Berlinale se emancipava da sombra da Riviera, onde Terence Malick e Woody Allen priorizavam mostrar seus filmes. Mesmo que na última década Allen continuasse a viajar para Cannes, Terence Malik e Lars von Trier passaram por Berlim durante a era Dieter Kosslick .

O ano de 2008 foi o melhor ano da Berlinale que presenciei. A emancipação de Cannes viria com uma programação ousada. 2008 era para ser o ano da música e política em Berlim.

Costa Gravas foi o presidente do Júri Internacional. José Padilha chegava em 2008 com “Tropa de Elite I” e sairia com a mala mais pesada, contendo um Urso de Ouro e dali foi para Marte… Mas 2008 não entraria na história “somente” por um “vale a pena ver de novo” do cinema brasileiro, exatamente 10 anos depois da fulminante presença de Walter Salles com “Central do Brasil” e a mais do que demorada e ainda mais merecida consagração da Dama do Teatro Brasileiro, Fernanda Montenegro, em âmbito internacional, que levou o Urso de Prata para melhor atriz.

2008 teria uma verdadeira delicatessen para os amantes da música e da Sétima Arte. O filme de abertura foi o documentário realizado por Martin Scorcese, “Shine a Light”, que trouxe para Berlim a melhor banda do mundo, na tela e em presença física. Naquela noite, o Berlinale Palast se tornara um caldeirão de bruxas e quando você vê os quatro membros da melhor banda do mundo passando ao teu lado e Keith Richards te dar a mão para cumprimentar, isso você não esquece durante uma vida.

Neste ano, presenciei as coletivas de imprensa mais lotadas de todas as edições da Berlinale. Neste mesmo ano, a ícone da música Pop, Madonna, também marcava presença em Berlim com o seu trabalho como realizadora. A fila para a coletiva da Super Star ia até a esquina da rua. A sala da imprensa é no primeiro andar do Hotel Hyatt. Uma corrente humana descia a escada do Hyatt, cobria todo o corredor, passava pela porta de vidro e chegava na calçada que dava para a esquina da rua. Sentei na sala duas horas antes do início e quem pensa que jornalistas não fazem barraco, engane-se. O clima era muito tenso, teve empurra-empurra como em tempos de Guerra Fria para pegar a última ração de carne no supermercado.

Neste mesmo ano a Berlinale ainda teve a presença de Neil Young na Mostra Panorama e também de Patti Smith, a ícone do rock esotérico. Para os amantes da música, não teve melhor ano do que 2008. Nele, e em alguns que viriam depois podia-se constatar, claramente, a assinatura de Dieter Kosslick na programação da Mostra Competitiva. Porém, isso foi mudando aos poucos. Em 2014, se constatava bem o aspecto determinante do mercado na mostra na corrida pelos Ursos. 

A competição da Berlinale ficou desfigurada, se tornou um lugar-comum desde que Kosslick não é mais a pessoa in charge, a que bate o martelo na hora das escolhas finais. Já em 2011, foi-se cristalizando a sua função mais como Sr. Berlinale, o Garoto Propaganda com o seu inconfundível cachecol vermelho que combina muito com a dialética berlinense do “menos é mais”, do understatement.

Mesmo não tendo nascido na cidade, Kosslick incorpora a mistura entre o glamour e o popular, entre o nariz empinado e o cara que chega na Mostra de Cinema e Culinária atrasado para a roda de conversa com os especialistas e manda: “Cheguei atrasado porque a Madonna queria jantar comigo em Kreuzberg” (bairro outrora de subcultura e convulsão social berlinense). Xeque-mate, os berlinenses se veem bem representados por Kosslick, ele é o darling dos média, mas isto tem como detrimento o delegar para comissões de seleção. Não se sabe ao certo se ele foi abdicando da função ou se a função foi, em doses homeopáticas, delegada por outras pessoas, para uma equipa.

Mostra Competitiva

Entre 2008 e 2018, o que mais se ganhou foi a visibilidade no mundo. Berlim, um festival intrinsecamente político, já mesmo devido à história de sua fundação, se emancipou mais de Cannes, mas seu problema crónico é, e continua sendo, a descaraterização da mostra competitiva. Isso implica que as verdadeiras pérolas cinematográficas se “escondem” nas mostras paralelas, Panorama, a casa do cinema art-house, que percebe o cinema no amplo muito abrangente que vai de vídeos, performances, essays, a uma grande proximidade das artes visuais.

Que será, que será?

Depois das luzes se apagarem no dia 17, dia em que os berlinenses invadem os cinemas no chamado Berlinale Kinotag, ainda correm algumas semanas até Dieter Kosslick passar o bastão para o ítalo- suíço Carlo Chatrian, o novo diretor que até bem pouco tempo atuava em Locarno, e para a holandesa Mariette Rissenbeek, que ocupa o cargo de CEO em dobradinha com Carlo.

A escolha do novo diretor também não é por acaso e há todo o motivo para ficarmos curiosos qual assinatura a sua gestão dará as próximas edições da Berlinale. Existem muitos itens positivos na troca. Kosslick fez da Berlinale um evento gigantesco, para a fúria de alguns críticos de cinema que detestam o hype em volta do maior evento cultural da Alemanha, mas a troca é necessária depois de quase 20 anos no cargo.

O fim do culto à pessoa é, sim, bem-vindo. É melhor que o foco seja nos filmes, e não em pessoas. O fato de Carlo ainda não falar alemão, também deve dar um outro toque, um mais internacional, ao menos na coletiva de imprensa que acontece tradicionalmente dez dias antes do início do festival, para instigar todo o circo mediático. A deste ano está agendada para o dia 29.