Cannes 2015 - Dia 6_1

Dia 6

Vamos a meio do festival e ainda faltam ver muitos filmes. No dia 18 de maio estiveram em competição os filmes “Louder Than Bombs”, do realizador norueguês Joachim Trier, e “La Loi du Marché” (“The Measure Of A Man”) de Stéphane Brizé.

Quatro anos depois do melancólico “Oslo, 31 de Agosto”, o cineasta norueguês examina novamente a profundidade de alma dos seus protagonistas em “Louder Than Bombs”, a sua terceira longa-metragem. Conta no elenco com Jesse Eisenberg, Rachel Brosnahan, Gabriel Byrne e Isabelle Huppert, o que faz deste o primeiro filme falado em inglês do realizador. Uma famosa fotógrafa de guerra morre num acidente de carro, deixando para trás o marido (Byrne) e os dois filhos. Três anos depois, a família descobre um segredo perturbador. O cineasta norueguês dá muita importância ao tratamento cuidado da estrutura temporal das suas longas-metragens e em filmar o real sem provocação, com um estilo sofisticado próximo do documentário que ele defende. “Eu não gosto que a força visual de um filme deixe de lado os personagens e os reduza finalmente a meros conceitos”, justifica o realizador.

Esta história de uma família que tenta superar as suas crises dividiu um pouco a crítica em Cannes. Se por um lado o argumento e a interpretação dos elenco principal mereceram grande destaque e especial atenção, por outro lado achou-se que Trier deveria ter arriscado mais na realização, que é satisfatória, para que o resultado final fosse mais intenso. Segundo o The Hollywood Reporter, “Trier tem coisas significativas a dizer sobre a maneira pela qual a perda trágica, incompreensível, pode fazer-nos ser bastante protetores, ciumentos e até mesmo desonestos com as nossas memórias privadas e com a imagem que apresentamos do amado que está desaparecido (…) por isso o realizador se recusa a sentimentalizar a história de qualquer maneira. Mas as tentativas desajeitadas destes três homens de encontrarem um caminho a seguir tornam o filme muito mais contemplativo do que sincero”“Algumas cenas brilhantes que envolvem Jesse Eisenberg como um novo pai inexperiente não podem resgatar este drama estranhamente inútil com Isabelle Huppert como uma fotógrafa de guerra e Gabriel Byrne como seu amável marido”, comentou o The Guardian, que dá a entender quase que ficou um filme por fazer – “é um pudim euro-americano cansativo (…) decepcionante”.

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O segundo filme do dia foi “La Loi du Marché” (“The Measure Of A Man”), a primeira presença em Cannes do realizador Stéphane Brizé, que conta um drama social no centro do que é íntimo, com interpretação de um Vincent Lindon rodeado de atores amadores. Após 18 meses de desemprego, Thierry (Vincent Lindom), um homem de 50 anos, consegue emprego como segurança num supermercado. Um emprego que o vai colocar perante um dilema moral quando lhe pedem para espiar os colegas. O filme descreve de que forma é que as engrenagens de um mercado do emprego ferrugentas e danificadas podem destruir e dificultar a consciência.

A crítica considerou que “a visão do cineasta da França está longe de ser glamourosa”. O resultado deste trabalho é tornar-se mais simples e menos críticos, usando vários recursos demagógicos que se chocam numa história bastante crua e que ignora, de alguma forma, a essência do filme e o próprio Thierry. Aprecia-se, no entanto, que o realizador resolva a história com empatia e respeito, não a partir de um conceito banalizado, de tentar atingir o público que está na mesma situação que a sua personagem.

Cannes 2015 - Dia 7_1

Dia 7

Na terça-feira, 19 de maio, passaram em competição pelo certame os filmes “Marguerite & Julien“, de Valérie Donzelli, e “Sicario”, de Denis Villeneuve.

Depois de ter passado pela semana da crítica em 2011 com Declaração de Guerra, a atriz e realizadora Valérie Donzelli apresenta em Selecção Oficial “Marguerite & Julien”, filme sobre a paixão fusional entre um irmão e uma irmã. Julien e Marguerite de Raval, filhos do senhor de Tourlaville, nutrem um terno amor desde a infância. Ao crescerem, esse amor transforma-se numa paixão avassaladora. O caso escandaliza a sociedade que os persegue. Incapazes de resistir aos seus sentimentos, eles fogem.

A crítica não ficou muito satisfeita com este novo filme de Valérie Donzelli, achando que o filme é uma proposta exagerada e uma grande mistura de várias ideias aleatórias, sem critério sobre o que realmente serviria à história. Comentado como um “melodrama aceitável” que não parece encaixar-se com os produtos que o público de um festival como o de Cannes esperaria ver em Competição.A história de dois irmãos que se apaixonam perdidamente, não impressionou muito o The Hollywood Reporter, que diz que “o filme não é ajudado pelo facto de ser inteiramente narrado como uma história para crianças, o que reduz ainda mais as personagens”.

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“Sicario”, que marca a terceira presença de Deniz Villeneuve em Cannes, alia os seus dois terrenos predilectos e envia Emily Blunt para a fronteira entre os Estados Unidos e o México para alargar as fileiras do grupo de elite de Josh Brolin e Benicio Del Toro. Uma jovem agente do FBI vê os seus valores éticos e morais levados ao limite quando participa numa operação secreta da CIA para eliminar o líder de um cartel de narcotraficantes mexicanos. “Sicario” interfere com a fronteira entre os Estados Unidos e o México. Mais do que uma linha, é uma zona de desafios económicos, políticos e diplomáticos, um terreno cinematográfico para Denis Villeneuve: “Existe ali muito silêncio associado à violência devido à pressão dos traficantes de droga e chegou-me às mãos um argumento que explorava essa realidade”.

Bem aceite pela crítica, “Sicario” foi considerado um bom thriller de ação, fazendo justiça ao género, com um bom argumento, boas interpretações e boa realização. Para o The Hollywood Reporter, “Há muita ação pesada ​​aqui, bem como alguns choques surpreendentes que vêm do nada, provavelmente o suficiente para saciar o público com apetite pelo género (…) mas ‘Sicario’ faz muito mais com o seu ponto de vista sobre o quão profundamente as raízes da corrupção estão relacionadas com a droga, que são incorporadas no solo do México e do sudoeste americano”.