Quase todas as salas de cinema do Japão ficaram às escuras, em resposta a esta crise epidémica do COVID-19, colocando em risco os cinemas independentes, que são a alma do panorama do movimento art house no país.

O primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe, declarou tardiamente o estado de emergência nacional (apenas na passada quinta-feira), empurrando quase todos os cinemas do país ainda operacionais para um período de paralisação total.

O Japão é o terceiro maior mercado de cinema a nível mundial e um bloqueio prolongado causado pela pandemia do coronavírus será um fator significativo para o declínio inimaginável nas receitas de bilheteira.

De acordo com a lei japonesa, não existe um mecanismo que force o encerramento de negócios ou que impeça os cidadãos de se deslocarem em espaços públicos, no entanto grande parte da população do Japão já tem evitado a convivência em espaços fechados, como as salas de cinema.

Durante o fim de semana de quatro e cinco de abril, a venda de bilhetes para os 10 principais filmes lançados no Japão totalizou apenas 42 mil dólares, valor muito abaixo dos 18,2 milhões de dólares conquistados no mesmo período do ano passado.

Enquanto as grandes redes de cinema do país podem aguentar a crise sem grandes dificuldades – como a maior, a Toho Cinemas, com 695 salas -, já que fazem parte de grandes conglomerados, e que facilmente conseguiriam financiamento governamental para não fecharem as portas, com as salas de cinema independentes, conhecidas como minisshiatā (ou minicinemas). Estas salas concentram filmes europeus e outros fora do circuito comercial. Em entrevista ao site Cinema Today, Takashi Asai, dirigente de uma destas salas, disse que os ganhos estavam a zero, o que fez com que os cineastas mais influentes do Japão organizassem uma petição online#SaveTheCinema (Minishiata o Sukue) – para salvar os pequenos cinemas, e assim pressionar o governo a fornecer apoio financeiro de emergência.

Dezenas de realizadores, atores, artistas e profissionais do cinema já assinaram a declaração, incluindo o cineasta vencedor da Palma de Ouro de Cannes Hirokazu Koreeda (“Shoplifters: Uma Família de Pequenos Ladrões”), o compositor vencedor de um Óscar Ryuichi Sakamoto e o realizador de filmes de culto Shinya Tsukamoto (“Tetsuo: O Homem de Aço”).

“Os cinemas independentes, que são o centro da diversidade cinematográfica, estão especialmente em risco, com alguns enfrentando extinção”, diz a petição.

“Os minicinemas enraizaram-se no país e têm sido o centro da cultura cinematográfica do Japão. Não são apenas para diversão. As suas estruturas são tão importantes para uma sociedade democrática quanto os museus de arte, os teatros e as salas de concerto.”

Koji Fukada e Ryusuke Hamaguchi, dois dos mais influentes jovens realizadores do Japão, fizeram um esforço paralelo e lançaram uma plataforma de financiamento coletivo, chamado de “Mini Theater AID Fund”. Na manhã desta sexta-feira, dia 17 de abril, a plataforma conseguiu captar cerca de 1,2 milhões de dólares americanos (128,1 milhões de ienes), vindos de 11 860 doadores. A campanha continuará até 14 de maio.