CineFiesta regressa ao Cinema São Jorge e à Cinemateca Portuguesa

CineFiesta, que é parte integrante da Mostra Espanha, decorrerá de 25 a 30 de Novembro, em Lisboa. O certame regressa à casa dos Festivais, o Cinema São Jorge e também à Cinemateca Portuguesa, com a secção Heritage, em parceria com a Filmoteca Espanhola.

Outra das novidades desta edição é o estreitamento de laços com o efervescente circuito de festivais portugueses: Indielisboa, doclisboa e QueerLisboa foram convidados a fazerem parte da programação do CineFiesta 2021 e cada um dos festivais escolheu um filme para a mostra. The First Woman, de Miguel Eek, é o filme escolhido pelo doclisboa, “um filme onde o desejo e a empatia guiam a nossa aproximação a Eva. Rejeitando categorias e normas, dobram-se todos os conceitos e definições de normalidade para navegar espaços de intimidade onde o mundo lá fora é tão infinito quanto qualquer universo interior. Um filme que se inscreve numa certa tradição de cinema espanhol onde a vida se revela através da atenção e da proximidade”, frisa Miguel Ribeiro, diretor do doclisboa. O filme, que terá estreia nacional no CineFiesta, teve a sua primeira exibição no prestigiado Festival Internacional de Cinema Documental (IDFA) em Amesterdão, no ano passado, e fez também parte da competição oficial na secção de documentário do Festival de Málaga, em Junho deste ano.

The First Woman, de Miguel Eek

“O cinema espanhol é uma habitual presença na programação do IndieLisboa. A parceria com o Cinefiesta permite-nos continuar este trabalho, cruzar públicos e manter visível uma autora que nos surpreendeu na última edição do festival. Escolhemos o filme La Última Primavera, de Isabel Lamberti, porque ele afirma uma voz autoral forte, numa primeira longa metragem muito tocante sobre uma família prestes a ser realojada. A sua mistura entre ficção e real e a força de cada uma das personagens na narrativa prendeu-nos até ao último minuto”, refere Carlos Ramos, diretor do indielisboa. La Última Primavera fez parte da seleção ACID no Festival de Cannes 2020 e estreou na secção New Directors, no Festival Internacional de San Sebastian.

A proposta do Queer Lisboa para o CineFiesta é o documentário The Mystery of the Pink Flamingo, de Javier Polo Gandía, que “a partir da exploração de um objecto kitsch, o flamingo cor-de-rosa, revela-nos um conjunto de universos inusitados onde conseguimos encontrar uma série de expressões da cultura queer“, explica Christian Rodriguez. The Mystery of the Pink Flamingo é um mergulho no mundo do kitsch num tom casual e, por vezes, surreal e uma pequena homenagem a John Waters, lenda do cinema underground. Selecionado para a secção Global do festival South by Southwest, nos EUA, que foi cancelado por causa da pandemia, acabou por ser estreado no Abycine, um dos mais importantes festivais de cinema independente em Espanha. Depois de passar pelos festivais Transilvânia, na Roménia, e pelo conceituado BAFICI na Argentina, terá a sua estreia em Portugal no CineFiesta 2021. Um documentário protagonizado por Rigo Pex, artista, performer, programador conhecido no mundo musical por Meneo, que nos conduz por incríveis lugares na sua busca pela explicação do fascínio pelos flamingos cor de rosa que parece ter assolado o mundo. Meneo junta-se ao CineFiesta para uma sessão de DJ, no dia 27 de Novembro, na CineFiesta Flamingo Party, no Cinema São Jorge.

Outra das novidades desta edição do CineFiesta é o regresso da mostra de cinema espanhol também à Cinemateca Portuguesa, através da secção Heritage, que resulta de uma parceria entre esta e a Filmoteca Espanhola com a exibição de quatro filmes restaurados ou digitalizados no último ano. Quatro exemplos diversos da riqueza patrimonial que o cinema encerra e das possibilidades que se abrem para o entendimento do cinema contemporâneo, ao revisitarmos a história da sétima arte. A abrir este ciclo, El Jefe Politico, um filme de 1924 de André Hugon (que cinco anos mais tarde realizará aquele que é considerado o primeiro filme sonoro francês, Les trois masques). El Jefe Politico explora temas pouco falados na sua época, como a corrupção política, e foi rodado entre Maiorca, Madrid e Paris. Esta sessão será musicada ao vivo com theremin e piano por Miquel Brunet, que este ano compôs a moderna banda sonora do filme. Este já foi exibido  neste formato de filme-concerto na sessão de encerramento do Atlántida Film Festival, em Maiorca.
O compositor Miquel Brunet, que é natural de Bunyola em Maiorca, um dos locais onde O Jefe Politico foi rodado, explica assim o processo de criação da música para este filme de referência, quase cem anos após a sua produção: ” No que respeita à instrumentação, quis ligar-me aos anos de filmagens e estreia de O Jefe Politico (1924-1926)”. Além do piano, instrumento usado habitualmente para o acompanhamento de filmes mudos, Brunet incluiu também o theremin, um dos primeiros instrumentos musicais eletrónicos, criado em 1920 pelo inventor russo Léon Theremin. “O theremin conecta-nos com aquela época, já que foi inventado poucos anos antes da rodagem do filme”, explica o músico e compositor, além de ressaltar que o utilizou nas “cenas mais cruéis e trágicas” devido à natureza inquietante e misteriosa do som que produz. Por fim, com recurso a um “looper” com samples do próprio piano, a banda sonora faz a longa viagem de ligação ao presente. Uma oportunidade única nesta que será também a primeira exibição do filme em Portugal após o seu restauro.

Os dois filmes seguintes são uma comemoração dos centenários de Fernando Fernán Gómez e Luis G. Berlanga com a projeção das suas obras primas. Esa Pareja Feliz, de Luis G.Berlanga e Juan Antonio Bardem, um filme de 1951 que agora será exibido em Portugal pela primeira vez na sua versão restaurada e Manicomio, de Fernando Fernán Gómez e Luis M. Delgado, de 1953, estiveram ambos inacessíveis durante muito tempo devido ao desparecimento de materiais originais. A recuperação dos materiais e o seu restauro permite agora voltar a exibi-los no grande ecrã após muitos anos arredados do grande público.

Manicomio, de Fernando Fernán Gómez e Luis M. Delgado, de 1953

A fechar o programa “uma ave rara, não apenas do cinema espanhol, mas também do cinema europeu dos anos oitenta” como explica Josetxo Cerdán, director da Filmoteca Espanhola.  El diario rojo, de Juan Carlos Olaria, um filme de 1982 que esteve esquecido até há pouco mais de dois anos e, por isso, é uma estreia absoluta em Portugal.  “É um filme próximo do cinema underground e que, raramente visto à época da sua produção, se tornou recentemente num filme de culto”, frisa Nuno Sena, coordenador de programação da Cinemateca Portuguesa.

El diario rojo, de Juan Carlos Olaria
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