Quentin Dupieux pertence a uma linhagem de realizadores que parecem fisicamente incapazes de parar. Assim como Woody Allen, Hong Sang-soo ou Radu Jude – que nesta edição também aparece na Quinzena com com Le Journal d’une Femme de Chambre, poucos meses depois de ter apresentado o seu Drácula em Locarno – Dupieux produz filmes ao ritmo a que outros produzem emails. A diferença é que no caso do francês essa velocidade começa a cobrar um preço visível. O seu cinema sempre funcionou a partir do “gimmick” como dispositivo central, como se chegasse a cada projeto com a punchline de uma piada e dedicasse o restante do tempo a se debater para construir um setup à sua volta. É uma forma de trabalhar que pode ser divertida quando o conceito aguenta o peso, mas excruciante quando não.
Full Phil, apresentado na sessão de meia-noite, é o seu primeiro filme em inglês desde Wrong Cops (2013) e reúne Woody Harrelson e Kristen Stewart (que também levam créditos de produtores executivos) numa comédia absurdista passada em Paris. O conceito desta vez é o seguinte: uma filha come compulsivamente, mas é o pai quem engorda. Por baixo dessa premissa absurda existe uma história mais simples e mais interessante, a de um pai que tenta reconectar-se com a filha que negligenciou a vida inteira, e é precisamente com esse material que Duplex se perde. O realizador parece não estar muito interessado nessa camada, ou não sabe muito bem o que fazer com ela, e vai acumulando gags que se sucedem sem um destino aparente. Charlotte Le Bon, que esteve recentemente na última temporada de White Lotus e que lembramos especialmente pela sua estreia na realização com o lindíssimo Falcon Lake que esteve aqui em Cannes na Quinzena em 2022, faz uma empregada de hotel que se torna cada vez mais invasiva na vida dos dois, convencida de que o pai pode estar a ser violento com a filha. Também ela merecia um filme melhor. Com apenas 72 minutos, Full Phil parece uma ideia que Dupieux começou a rodar antes de perceber onde ia acabar.
É irônico, então, que tenha sido também uma história de pai e filha a produzir um dos momentos mais interessantes da competição de 2026 em Cannes. El Ser Querido do espanhol Rodrigo Sorogoyen chegou à competição com uma sombra a pairar sobre ele: a de Valor Sentimental do norueguês Joachim Trier, que esteve aqui no ano passado e saiu com o Grande Prémio do Júri. A premissa é semelhante o suficiente para a comparação ser inevitável. Esteban (Javier Bardem), um realizador aclamado, com nomeações ao Oscar e que teve um passado de excessos com álcool e drogas, oferece o papel principal do seu novo filme à filha Emilia (Victoria Luengo), atriz sem grande carreira com quem não fala há doze anos. O pai que regressa, a ferida que não fechou, o cinema como terreno de reconciliação. Até aqui, Trier.
Mas Sorogoyen é muito mais cineasta. O filme abre com uma sequência de vinte minutos, rodada, aliás, no primeiro dia de filmagens, sem que Bardem e Luengo se tivessem encontrado pessoalmente antes. Sorogoyen queria que a falta de intimidade fossem resolvidas ali entre atores e personagens. Pai e filha jantando juntos pela primeira vez em mais de uma década, e nós assistindo como voyeurs desconfortáveis, a recompor o passado aos fragmentos, através das pausas e dos desvios de olhar, do que se diz e do que não se consegue dizer. É uma das cenas mais tensas, e mais bonitas, que se viram em Cannes nos últimos dias, e funciona precisamente porque Sorogoyen não oferece ao espectador nenhum ponto de ancoragem seguro.
O que se segue mantém essa temperatura. Esteban quer fazer as pazes com o passado, isso é claro, mas Sorogoyen tem demasiada inteligência para nos deixar acreditar nisso completamente. O homem continua a não conseguir domar os seus impulsos autoritários e narcisistas com a equipa, e há qualquer coisa de cruel na própria lógica do convite: a filha como peça em falta, o filme como pretexto. “Os tempos mudaram”, diz-lhe a produtora, com a paciência cansada de quem já disse isto demasiadas vezes. Esteban ouve, acena, e continua igual.
É aqui que El Ser Querido deixa Trier para trás. Onde o norueguês tende para a beleza formal e para uma certa higienização emocional, Sorogoyen deixa os seus personagens perderem-se nas suas contradições sem os julgar nem os absolver. O amor que aqui se negocia é desordenado, ambíguo e frequentemente feio. O único tipo que parece real.

