O Diabo está nos detalhes: “The Devils” filme maldito de 1971 retorna à Cannes

Um dos filmes mais controversos e malditos do cinema retorna à Cannes em novíssima cópia restaurada do jeito que o realizador a idealizou
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O diabo anda por todo lado ultimamente, só que este não veste Prada e nem quebrou recordes de bilheteira. Muito pelo contrário, foi um desastre comercial e de crítica na altura da sua estreia. Um dos acontecimentos de Cannes 2026 é um filme maldito de 1971 e que chegou já no terceiro dia de festival, numa sessão única e muito disputada: a estreia mundial em cópia restaurada 4K de “The Devils”, do realizador britânico Ken Russell, conhecido pelo seu estilo excessivo e provocador. O filme chega finalmente intacto, na sua forma definitiva tal como foi pensada pelo realizador, depois de décadas a circular em versões mutiladas, banido em vários países e picotado em muitos outros.

O filme abre informando a audiência que aquela história é real e que tudo aquilo aconteceu de fato com os seus personagens. Uma vez retirados os excessos, claro. Excessos esses que foram reavaliados pelo tempo e transformaram o filme num objeto de culto (tome notas, Jane Schoenbrun!). Na votação da revista Sight & Sound de Melhores Filmes de Sempre de 2012, o filme apareceu em diversas listas de realizadores e críticos, incluindo na de outro bad boy do cinema da contravenção, o americano Abel Ferrara.

O filme conta a história da ascensão e queda de Urbain Grandier, um padre acusado de bruxaria na França do século XVII, na pequena comunidade de Loudun, hoje com pouco mais de sete mil habitantes, e que ficou para sempre marcada por este episódio, que foi o ponto alto de uma série de execuções públicas envolvendo acusações de bruxaria. Grandier (Oliver Reed, no auge da sua beleza e carisma) era um homem ambicioso e dissoluto, com casos extraconjugais com várias mulheres da cidade, incluindo a filha do governador local, o que lhe valeu inimigos poderosos.
O que o perdeu, porém, foi a política: opôs-se publicamente às ordens do Cardeal Richelieu de demolir as muralhas da cidade, tornando-se um obstáculo inconveniente para quem queria centralizar o poder em Paris. Quando o poder quer eliminar alguém, arranja sempre uma desculpa.

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A desculpa veio do convento. A madre superiora Jeanne des Anges (hipnótica Vanessa Redgrave), que nunca tinha sequer falado com Grandier pessoalmente, mas desenvolvera por ele uma obsessão sexual silenciosa, alimentada pelos rumores dos seus casos amorosos. Quando ele recusa-se a ser o padre encarregado do confessionário do convento, ela então acusa-o de ter usado magia negra para a seduzir. Um Quasímodo de hábito, corcunda e ressentida, a freira Jeanne é o personagem mais perturbadora do filme precisamente porque Russell a trata com ambiguidade: não é vilã nem vítima, é alguém cujo desejo não tem nome nem saída, e que por isso se transforma em veneno. A acusação foi sendo amplificada pelos agentes políticos de Richelieu, reduzida à afirmação simples de que Grandier tinha feito um pacto com o Diabo, até se tornar pretexto perfeito para a sua destruição. A freira de Redgrave não precisou de mentir. Bastou não conseguir distinguir o desejo do demónio.

O que se seguiu então foi um espetáculo de excessos libidinosos que na época fez a Warner Bros. recuar em pânico. As cenas de possessão demoníaca incluem uma orgia de freiras nuas e uma cena em que a própria Jeanne se masturba com um osso humano. A sequência mais infame, conhecida como o “estupro de Cristo”, em que as freiras enlouquecidas assaltam uma estátua de Cristo, foi cortada pela Warner antes do lançamento e considerada perdida durante décadas, até ser encontrada num arquivo por um crítico de cinema. Russell insistia que estava apenas a retratar os acontecimentos tal como foram documentados mas ninguém quis acreditar.

Alguns anos depois, Caligula de Tinto Brass usaria o mesmo sexo como arma política, o mesmo excesso como radiografia do poder, com Roma no lugar de Loudun e a corrupção imperial no lugar da Inquisição. Alejandro Jodorowsky parece também influenciado pelo filme de Russel explorando essa mesma herança para o território do ritual e do mito no seu The Holy Mountain dois anos mais tarde. O que todos partilhavam era a convicção de que o choque não era fim em si mesmo mas linguagem, a única capaz de dizer o que o cinema bem-comportado recusava.

Cinquenta e cinco anos depois, ver The Devils em Cannes não é um exercício de nostalgia cinéfila. É impossível não pensar no presente: nas teocracias emergentes, nos corpos legislados, na histeria das redes sociais a funcionar como novo tribunal de Loudun, onde a acusação basta e a defesa chega sempre tarde. Russell fez um filme sobre o século XVII que parece falar do momento em que vivemos. O diabo, já diriam, está nos detalhes. E nos detalhes que tentaram suprimir.