Cinema Portugues 2012 - Um caso de estudo O Cinema português vai ter com o público português

Em 2012 viveu-se outra experiência que está a mudar a forma como o cinema português chega até ao seu público. Tudo começou em 2010 quando João Botelho estreou o “Filme do Desassossego” e o distribuiu, não em salas de cinema, mas sim em cine-teatros, auditórios, cineclubes, etc, pelo país inteiro. O filme foi visto por 28.746 espectadores, graças a este modelo. Visto o público português, preconceituoso que é, não ir ver o seu cinema, teve que se inverter as coisas, passando o cinema a ir ter com o público. A partir daqui muitos outros filmes adoptaram o mesmo método de distribuição, tendo paralelamente o filme em salas de cinema comerciais. Outro caso de sucesso que adoptou este sistema é “Florbela”, que viajou pelo país inteiro em tourné, tendo chegado a mais de 40 mil espectadores. Foi um fenómeno nacional, assim como “Linhas de Wellington” e “Tabu”.

“O cinema português vai ter com o público português”, já que este não vai ter com ele. É este sistema que tem vindo a ser usado e com bons resultados. Criou-se portanto uma maior aproximação com o público português, que lentamente começa a deixar de ser preconceituoso para com o seu cinema. Será este o caminho para a propagação do cinema português em Portugal?

Decidi “entrevistar” pelas redes sociais/email dois realizadores portugueses, Vicente Alves do Ó (VAO), realizador de “Florbela”, e Bruno de Almeida (BA), realizador de “Operação Outono”, acerca deste modelo de distribuição dos filmes portugueses que adoptaram ou não para os seus filmes.

 

Entrevista a Vicente Alves do Ó:
TR: Este modelo de percorrer o país em tourné para divulgar o filme é compensatório?

VAO: É muito compensatório. Porque nos permite dar mais tempo de vida ao filme para lá da distribuição comercial e porque nos permite aproximar dum público que muitas vezes não tem possibilidade de ver cinema português.

TR: Será este modelo o futuro do cinema português?

VAO: Não sendo um modelo, pode ser um elemento preponderante na sua divulgação junto do grande público. Continuo acreditar que o país não é só Lisboa e o Porto.

TR: Levar elementos do elenco e da equipa técnica do filme para a projeção do filme é uma experiência que agrada ao público?

VAO: Acima de tudo serve para aproximar o público de quem faz o filme. O cinema é uma arte “fria” no sentido em que basta uma máquina de projecção para o fazer existir quando está nas salas em exibição. Levar os actores, e equipa possibilita-nos relacionar melhor com um público que tem sempre perguntas para fazer e muita curiosidade por uma arte que ainda nos fascina.

TR: Quais as dificuldades em ser você mesmo a andar com o seu filme pelo país inteiro? Certamente terá custos extras.

VAO: Além dos custos adicionais, tem alguns riscos monetários, pois pode não compensar o investimento. Mas é uma experiência para a vida, apesar de cansativa. Estive 9 meses na estrada com uma vida intermitente, corri o país de norte a sul e ilhas. Foi muito cansativo pois falava em todas as sessões durante uma hora, às vezes duas. As pessoas estavam ávidas por saber coisas, perguntar, falar na Florbela, no cinema português. Foi muito bonito e intenso.

TR: Concorda com a seguinte afirmação “um dos grandes problemas do cinema português é a falta de divulgação”?

VAO: Concordo. Mas as razões são muitas e variadas. Desde o desinvestimento do produtor, à inércia dos media e dos distribuidores, acho que a culpa toca a todos. Até mesmo aos realizadores. Dou-lhe o exemplo mais simples de todos, nunca neguei uma entrevista que fosse. Nenhuma. Falei com toda a gente. De jornais de grande tiragem nacional a jornais de escola feitos por alunos, a rádios locais ou a televisões nacionais. Estive em todas e todas foram e eram importantes para divulgar o filme.

TR: Com um corte de 100% do ICA e em tempos de crise, acha que o cinema português poderá repetir a “proeza” de 1955 (o ano zero do cinema português)?

VAO: Em 2013 e pelas minhas contas irão estrear 3 filmes nacionais. Não sei se é um ano zero. 2012 foi do ponto de vista de produção, mas não foi no da exibição e projecção no exterior. Mas que as coisas estão difíceis, isso sem dúvida.

 

Entrevista a Bruno de Almeida:
TR: Porque não foi adotado este sistema de distribuição ao filme “Operação Outono”, que merecia e devia ser visto por todos os portugueses?

BA: O “Operação Outono” está a fazer esse circuito. O filme apenas foi lançado à um mês e pouco e portanto vai seguir esse caminho durante os próximos meses, com muitas sessões já agendadas pelo país fora, algumas com a minha presença. Os números de que fala (cerca de 7mil espectadores) são feitos depois da exploração comercial de um filme, não a meio.

TR: O circuito comercial, ZON Lusomundo e outros, é justo para com os filmes nacionais? Ou seja, dá-lhes a mesma atenção, divulgação e tempo de cartaz que um filme americano?

BA: Penso que sendo a Lusomundo uma empresa comercial dá provavelmente mais tempo de cartaz aos filmes que lhe rendem lucro. Não vejo que dêem mais tempo de cartaz a outros filmes europeus por exemplo, ou a filmes portugueses. Dentro da política de uma companhia comercial não me espanta (infelizmente).

TR: Será este modelo, “O Cinema português vai ter com o público português”, o futuro do cinema português?

BA: Não sei se será o futuro mas é certamente mais uma opção para encontrar espectadores.

TR: Concorda com a seguinte afirmação “um dos grandes problemas do cinema português é a falta de divulgação”?

BA: Não. Penso que os filmes são divulgados, e alguns até muito bem.

TR: Com um corte de 100% do ICA e em tempos de crise, acha que o cinema português poderá repetir a “proeza” de 1955 (o ano zero do cinema português)?

BA: Não sei. Não estava em Portugal nesses anos. Mas o cinema sobreviverá.

 

Apesar deste sistema de levar o cinema português ao público ter-se revelado um sucesso, não se percebe porque é que alguns realizadores portugueses não o adoptaram, ainda. Veja-se o exemplo, de “Deste Lado da Ressurreição” de Joaquim Sapinho, que apenas estreou numa sala em Lisboa, tendo levado apenas 2212 espectadores. E podíamos enumerar vários, como “O Que Há De Novo No Amor?”, “A Vingança de Uma Mulher”, “Swans”, “Linha Vermelha”, “É Na Terra Não É Na Lua”, etc. Estes filmes sendo bons ou maus, nunca chegam a ser vistos pelos portugueses. Mais depressa são vistos no estrangeiro, em festivais, mas nas nossas salas simplesmente não são exibidos. Vicente Alves do Ó concorda que um dos grandes problemas do cinema português é a falta de divulgação, mas que a causa passa por vários intermediários, desde o produtor ao realizador e aos distribuidores. Este último passa muito pela má gestão das salas ZON Lusomundo, que apenas exibem cinema americano em detrimento do cinema português e mesmo europeu e asiático. Um filme português não tem forma de competir contra um americano, pois só o orçamento de um filme de Hollywood gasto em marketing é três vezes maior que o orçamento de um filme português. Daí a importância que têm as distribuidoras de contribuir e dar maior destaque à exibição do cinema nacional. Por outro lado, Bruno de Almeida, realizador do thriller político “Operação Outono” sobre o assassinato do General Humberto Delgado, tem uma visão ligeiramente mais optimista sobre o futuro do cinema português. É certo que tendo sido este o último filme nacional a estrear nos cinemas em 2012, ainda é cedo para nos ficarmos pelos 7mil espectadores, pelo que o filme ainda poderá “respirar” pelo pais inteiro em cineclubes, cine-teatros, auditórios, etc.

Mas depois há estes casos estranhos, em que o público adora e os críticos odeiam, “Balas e Bolinhos 3”, “Morangos com Açúcar” e “Aristides de Sousa Mendes – O Cônsul de Bordéus”. Foram os três filmes mais vistos do ano, mas foram também os que piores críticas receberam. Estes filme nem são vendáveis para o estrangeiro, porque disto estão os outros países cheios. Assim como “A Teia de Gelo” de Nicolau Breyner, convencido que ia chegar aos 50 mil espectadores e que ia vender para o estrangeiro, argumentando que o cinema português tem que ser exportado em inglês, apenas levou 5 mil espectadores. Menos 900 espectadores que “O Gebo e a Sombra” de Manoel de Oliveira. Oliveira pode ter levado apenas 5900 espectadores, mas o seu filme foi vendido para todo o mundo! Assim como “Tabu”, que só em França foi visto por mais de 100 mil espectadores (estreou a 5 de Dezembro em 46 salas) (6).

 

2013 e adiante, que futuro?

Apesar de 2012 ter sido um ano de muitas estreias e de muitos sucessos, foi o “ano zero” para a produção de cinema português. O governo atual cortou em 100% os apoios ao cinema argumentando que iam criar uma Nova Lei do Cinema, que entretanto já foi aprovada em Julho de 2012. No entanto, essa lei ainda não entrou em vigor e espera-se que entre no inicio de 2013. Numa entrevista recente feita a Miguel Gomes, a propósito do seu filme “Tabu”, questionam-lhe a propósito do estado do cinema português, pelo que o realizador responde, “At this precise moment as we are talking here, we are waiting for a new law for cinema funding which is already approved in the parliament and it’s going to be implemented, we hope, by the end this year/early next year.”. A seguir diz, “But you know what’s funny about all this? The funding for the films does not come from the national budget. It comes from the tax applied to the television networks on their advertising profits. 4 percent of the taxes usually go to the Institute of Portuguese Cinema. It would be understandable if the lack of funding was because of the financial crisis, but it comes from a very specific area.” (7).

“O Estado continua a achar que o cinema é uma espécie de luxo, como se a cultura fosse uma coisa excêntrica. O ICA é um dos poucos institutos de cinema da Europa que não recebe dinheiro do orçamento de Estado. Ou seja, o ICA é subsidiado por uma taxa de 4% sobre a publicidade da televisão. Portanto, quando há crises na publicidade como há agora, fazem-se menos filmes.” (8) , diz João Salaviza, realizador de “Rafa” que conquistou o júri do Festival de Berlim 2012.

Quanto ao futuro do cinema português é muito incerto. Poderá também 2013 ser um “ano zero”? Não sabemos ainda. Ainda não são conhecidos todos os filmes nacionais que vão estrear em 2013. No entanto, do ponto de vista das estreias, está previsto estrear o filme “Quarta Divisão” de Joaquim Leitão (28 de fevereiro). Há ainda outro filme, muito aguardado aliás, “Night Train to Lisbon” do dinamarquês Bille August, que conta com capital português (Cinemate Portugal e ICA).

 

Conclusão

Iniciei esta breve “viagem” pelo cinema português em 1955, o “ano zero”, focado sempre em 2012, que foi sem dúvida um dos melhores anos de sempre do cinema português, em estreias, em público e, sobretudo, em impacto internacional.

O modelo de levar o cinema português até ao público é como diz Alves do Ó, e bem, “um elemento preponderante na sua divulgação junto do grande público” e Bruno de Almeida, “é certamente mais uma opção para encontrar espectadores.”. É algo que os realizadores portugueses têm que pensar e apostar mais, em querer levar os seus filmes mais longe, em vez de estrearem em apenas uma ou duas salas de cinema, como é recorrente. A má divulgação dos nossos filmes continua a ser um dos grandes pecados do cinema português. Já o público português, que apesar de preconceituoso, começa a mostrar que consegue gostar do seu cinema, ou não tivesse este sido o ano com mais espectadores para os filmes nacionais.

Mas 2012 também foi o “ano zero” em termos de produção. Em 2012 estreou-se muita coisa, ganhou-se muitos prémios, mas não se criou nada de novo. Certo é que o cinema português está vivo e recomenda-se!

 

Notas:

6) in jornal Público, “”Tabu” ultrapassa os 100 mil espectadores em França”, 02/01/2013;

7) in “Interview: Miguel Gomes Talks TABU And The State Of Portuguese Cinema”, site Twitchfilm;

8) in “Novas e Velhas Tendências do Cinema Português contemporâneo”, pág.199, 2010;

Trabalho desenvolvido para o Mestrado em Comunicação Audiovisual, Especialização em Fotografia e Cinema Documental, para a UC de Políticas do Audiovisual (janeiro 2013). Docente – Professor José Quinta Ferreira.