O Cinema regressa ao Porto, depois de muitos anos sem o ver, eis que pela primeira vez é possível tornar o sonho realidade. Cinema Trindade e Cinema Batalha fazem as pazes com o Porto.

O Porto foi uma cidade pioneira no cinema e com emblemáticos edifícios que passaram durante décadas a Sétima Arte, tendo enfrentado nos últimos anos por uma grave lacuna a nível de oferta de infraestruturas que passem cinema. O centro da cidade não oferece cinema aos portuenses. Apenas os subúrbios, com os seus shoppings, estão a oferecer a dita ‘experiência cinematográfica’, em salas mais modernas.

Em 2014 começaram a surgir iniciativas como os ciclos “Há Filmes na Baixa”, organizados pelo Porto Post Doc, no Cinema Passos Manuel, e o Cineclube do Porto está hoje mais vivo do que nunca, com uma programação forte. Nos últimos três anos quer o cinema Trindade quer o cinema Batalha foram reabertos temporariamente pelo Desobedoc – mostra de cinema insubmisso.

A Câmara do Porto anunciou em outubro de 2016 uma estratégia municipal de apoio à exibição de cinema nas salas da baixa, que permite o renascimento do Cinema Trindade, do Passos Manuel e do Rivoli. O Presidente da Câmara, Rui Moreira, anunciou também a criação do cartão Tripass – um cartão que dá acesso privilegiado ao circuito de cinema na Baixa do Porto com descontos e outros benefícios nas salas dos cinemas Trindade, Teatro Municipal do Porto – Rivoli / Campo Alegre, Passos Manuel e futuramente ao Cinema Batalha – que vai poder ser adquirido em qualquer uma das salas terá um custo de 10 euros, atribuindo descontos de 25% sobre o valor do bilhete normal (exceto nas de preço único). O titular do cartão tem ainda acesso a convites para sessões especiais e a informação privilegiada regular sobre a programação nas diferentes salas. O Tripass passou a estar disponível no inicio deste ano. Rui Moreira anunciou também nessa altura a formalização de dois protocolos — um no valor de 20 mil euros com o Cinema Trindade e outro de 10 mil euros com o Passos Manuel, que vão permitir “partilhar propostas enviadas para os espaços municipais e aos quais o Teatro Municipal tem tido progressivamente dificuldades em dar resposta”.

A Baixa do Porto que tem ganho uma nova vida nos últimos três anos passa agora a disponibilizar cinema para os portuenses, enriquecendo ainda mais a oferta cultural da cidade, que Rui Moreira tanto tem investido. O Cinema Trindade reabre agora em fevereiro com sessões de cinema regulares e o Cinema Batalha vai ser a casa do cinema no Porto brevemente.

O TRINDADE

Foi anunciado no final de 2016 que o Cinema Trindade vai reabrir, após 16 anos de portas fechadas. A iniciativa é de Américo Santos, fundador da distribuidora de cinema independente Nitrato Filmes, que devolve, assim, as sessões diárias de cinema à Baixa do Porto. A reabertura está marcada para domingo (5 de fevereiro). Estão ainda a ser finalizadas as obras, que passam essencialmente pela instalação de novas tecnologias de projecção, dos ecrãs e do sistema de som. A reabertura das suas salas do Trindade acontece, pelas 19h, com a estreia no Porto da longa-metragem de Rodrigo Areias, “Ornamento & Crime” (2015), com Vítor Correia, Tânia Dinis e Djin Sganzerla nos papéis principais.

Entre os dias 07 e 12 de fevereiro, o Trindade vai ter sessões de cinema no âmbito do festival IndieJúnior e no dia 16 é que o espaço renovado vai arrancar com a programação regular. A baixa do Porto vai passar a ter mais uma sala a exibir cinema regularmente. Uma das salas irá passar as estreias do momento, dentro do cinema de autor, enquanto que a segunda sala terá uma programação constante, com ciclos, festivais e propostas de programadores independentes do Porto

“A abertura do Trindade é um acontecimento muito relevante na vida cultural da cidade. Porque contraria a tendência inversa, que como todos sabem se verificou ao longo das últimas décadas, de encerramento de salas e de espaços de exibição de cinema no centro do Porto“, afirmou Rui Moreira.

O Trindade abriu em 1916, na altura chamava-se de “Salão Jardim Trindade”, e tinha uma sala com mais de mil lugares e um terraço para cinema ao ar livre. Foi uma das salas mais frequentadas na cidade. Em meados da década de 1980, o Trindade (que pertenceu à empresa Neves & Pascaud, família detentora de várias salas de cinema do Porto) passou a ter duas salas de menor lotação. Foi a partir dessa década que os cinemas da cidade começaram a fechar portas. Uma delas foi o Trindade, em 2000.

O BATALHA

Em meados de janeiro de 2017 Rui Moreira anunciou a assinatura de um contrato que abre portas à reabilitação do edifício e à sua dinamização. O presidente da Câmara do Porto vai concretizar um projecto que vinha sendo reivindicado há muitos anos: a autarquia vai alugar o Cinema Batalha (uma renda de 10 mil euros mensais) e transformá-lo na casa do cinema. “É uma velha ambição dos portuenses”. O espaço passará a ser gerido pela autarquia nos próximos 25 anos, a favor da programação cultural da cidade.

Como se pode ler no site de notícias da Câmara do Porto (Ponto.), o projecto, “designado “Cinema Batalha” terá como principais eixos estratégicos o conhecimento sobre a História do Cinema através de sessões regulares de cinema de arquivo, em formatos analógicos e digitais; a disseminação de discursos contemporâneos na área do Cinema sem canais de difusão no circuito comercial e nos festivais existentes; o apoio a agentes programadores e distribuidores na apresentação de novas cinematografias, e novos debates, na área do Cinema e da Imagem em Movimento; o apoio à investigação no domínio da História do Cinema e do pensamento crítico sobre a Imagem em Movimento e ações de cruzamento disciplinar entre a Imagem Movimento e outras artes, nomeadamente as visuais através de projetos expositivos.”

“Aquele edifício era uma ferida na cidade que ninguém entendia”, referiu Rui Moreira. “O autarca pretende transformar o Cinema Batalha numa Casa do Cinema mas ter também outros espaços, nomeadamente expositivos, em colaboração com a Cinemateca. O funcionamento do Cinema Batalha constitui a consolidação da estratégia da Câmara do Porto de regresso do cinema à Baixa, iniciada com o lançamento do cartão Tripass e com a dinamização dos cinemas Trindade, Passos Manuel e Rivoli.”

Tudo começou em 1906, com um barracão de madeira e zinco da feira de S.Miguel (atual rotunda da Boavista), o Salão High Life, que conquistou de imediato a atenção dos portuenses. Este foi, portanto o primeiro espaço público a projetar cinema na cidade. Era nestes contextos de espetáculos de feira, de características populares, para todas as classes sociais, que eram realizadas as primeiras sessões contínuas de cinema, que passavam curtos filmes (quadros), a preços irrisórios. Foi pelas mãos de António Neves e Edmond Pascaud que nasceu este novo espaço na cidade, que mais tarde viriam a formar a empresa Neves & Pascaud. O Salão ficou aqui apenas dois meses, tendo-se depois mudado para o jardim da Cordoaria. Aí permaneceu durante dois anos e mudou-se para a atual praça da Batalha, em 1908. Com esta mudança, a ‘sala’ pioneira da exibição cinematográfica no Porto ganha um moderno edifício e ganha também “Novo” no nome, passando a designar-se o Novo Salão High Life. Em 1913 passar-se-ia chamar Cinema Batalha.

O Batalha é uma das obras primas da arquitectura moderna dos anos 40 e um símbolo da sétima arte do Porto. O Cinema Batalha inaugurou o seu novo edifício (atualmente o mesmo), a 3 de junho de 1947. Projetado pelo arquiteto Artur Andrade projetou e, posteriormente, criou um dos mais emblemáticos cinemas da cidade, com uma arquitetura notável. O cinema era composto por “dois auditórios – um com capacidade para 950 lugares sentados (plateia 346, tribuna 222, balcão 382) – dois bares e um restaurante com esplanada. De notar que, devido à censura vigente na época, foi dada ordem para apagar o fresco de Júlio Pomar existente no interior, bem como para se retirarem os motivos do baixo-relevo de Américo Braga na fachada.”. Um ano depois, em 1948, viria a realizar-se a primeira sessão do cineclube do Porto. Luís Neves Real cedeu o seu cinema Batalha para a realização das sessões de domingo de manhã do cineclube e Henrique Alves Costa, o crítico cineclubista, viria a chefiar a direção do Cineclube do Porto e a tornar-se na figura mais carismática desta instituição. Nos anos 1950, com o constante aumento de sócios, o cineclube foi obrigado ao desdobramento das sessões, que passaram a realizar-se às 10h30 no Águia d’Ouro e às 11h no Batalha. É famosa e lembrada ainda por muitos, a cena de se assistir ao transporte das bobines entre ambas as salas (enquanto num cinema se mudava para a bobine 2, o outro cinema começava a bobine 1). Em 1975 é aberta a sala Bebé, com capacidade para 135 pessoas. Encerra no verão do ano 2000, embora a Sala Bebé mantenha a sua atividade até meados de 2003. Em 2006, o Batalha reabre ao público sob a gestão da Associação Comércio Vivo, uma parceria entre a Câmara Municipal do Porto e Associação de Comerciantes. O edifício é rentabilizado para diversas atividades que vão muito além da projeção de cinema. Contudo, a elevada renda e os custos das obras de requalificação, a 31 de dezembro de 2010, o Gabinete Comércio Vivo entrega novamente a gestão do edifício aos originais proprietários, fechando portas novamente o Cinema Batalha, até aos dias de hoje. Com o passar dos anos tem-se procurado que o Cinema Batalha seja encarado como a “casa do Cinema”, servindo eventos como o Festival de Cinema Fantasporto, entre muitas outras propostas de reabilitação deste magnifico espaço da cidade.

Agora, em 2017, parece que este sonho se tornará real. O Batalha fez as pazes com o Porto!