“Contos do Esquecimento”, o documentário da realizadora portuguesa Dulce Fernandes que agora estreia nas salas de cinema nacionais é uma surpresa no que diz respeito ao seu tema.
Primeiro porque a sua premissa é a de uma escavação arqueológica, algo de que normalmente pouco se fala e, por vezes, é um pouco como as bruxas, não se acredita nelas, mas que as há, há. Neste aspecto, ganhou espontaneamente a afectividade da autora do texto, pela sua formação como arqueóloga.
Segundo porque vem literalmente desenterrar não só os piores pesadelos dos portugueses, mas os piores pesadelos criados pelo imperialismo e pelo colonialismo, de que Portugal foi um dos pioneiros.
É uma lufada de ar fresco ao mesmo tempo que uma bofetada necessária nas caras orgulhosas dos portugueses que se fale de forma clara sobre aquilo a que se sujeitaram milhões de pessoas negras ao longo de tantos séculos de História agrilhoada.
Dulce Fernandes começa por interessar-se por uma escavação arqueológica que teve lugar em Lagos e onde foram identificados 158 indivíduos, entre homens, mulheres e crianças, deixados propositadamente no contexto de uma lixeira.
Segundo a investigação, tratam-se, possivelmente, dos primeiros ou alguns dos primeiros indivíduos escravizados e foram inumados da mesma forma que aqueles que se identificavam como seus donos os trataram em vida: com total desprezo.
Daqui, Dulce Fernandes desenrolará de forma inteligente e metódica a relação entre o apagamento dos escravos enquanto indivíduos, sem nome, sem identidade, esquecidos numa lixeira, enterrados sem os cuidados com que normalmente os mortos são colocados no seu eterno descanso e o quanto os seus fantasmas assombram as paisagens contemporâneas.
O Portugal de “Contos do Esquecimento” é um Portugal de fantasmas e verdades indizíveis que são trazidas para que se lide com elas e se as reconheça. Se lhes dê nome, se lhes atribua responsabilidade, se lhes reconheça a extraordinária importância e o quanto elas definem o presente não só do país como da Europa e do Mundo.
Nada mais foi igual depois da experiência da colonização e da gigantesca tarefa de desenraizar milhões de homens, mulheres e crianças contra a sua vontade e levá-los para territórios com os quais nada tinham em comum, comprados e vendidos pelos homens brancos, usados para enriquecer os seus donos, aculturados com nomes europeus ou, quando caídos em desgraça, sem qualquer nome que lhes fosse atribuído.
O Portugal contemporâneo de “Contos do Esquecimento” é o dos aterros e da aridez das florestas de eucalipto, onde o vento e as gaivotas se revolvem do mesmo modo que o terão feito há 500 anos atrás. Onde se encontravam corpos, encontram-se agora mágoas e gemidos, traumas mal resolvidos, fantasmas de pessoas que não foram tratadas como tal.
Um Portugal contemporâneo dos marinheiros de água doce que atravessam as margens do Tejo e já não transportam escravos, mas um imenso vazio, expressado nas imagens plácidas e ausentes de gente que a realizadora vai mostrando.
Belíssimas imagens que contrapõem o passado e o presente e lenta e metodicamente mostram que o desejo de apagar e esquecer não mudou nada, mudaram as formas e um pouco das geografias. Onde deveria se localizar um memorial, ergue-se ao invés um parque de estacionamento e um minigolfe. Para que se esqueça, mais uma vez, para que se continue a não saber, propositadamente, como se fosse muito mais cómodo lembrar os Descobrimentos como algo que não corresponde à verdade.
É belíssima ainda a reflexão, mostrada através das palavras de arqueólogas, de como era tratada a memória que os vivos tinham dos mortos e de como, na verdade, a Arqueologia é uma ciência da presença, mas, em muitas mais ocasiões, uma ciência das ausências.
Aquilo que os homens querem esconder e não vem escrito nos tradicionais livros de História, supõe-se sempre por aquilo que deixam para trás pela Arqueologia. O tratamento dado aos mortos diz muitas coisas sobre os vivos: quem se quer eternizar e como, quem se quer esquecer e como. Os proscritos, normalmente, são enterrados como calha ou intencionalmente de bruços para que não possam voltar e atemorizar os vivos.
“Contos do Esquecimento” lida de forma sagaz com o sempiterno dilema da Humanidade: o desejo de imortalidade e a memória. Na corrida pela imortalidade, os escravos não tinham lugar, eram carga, vinham descritos como tal nos inventários.
Também não tinham personalidade, como é mostrado, a dada altura, através de uma coleira de escravo, presente no Museu Nacional de Arqueologia, em que todo o espaço de gravação é dedicado apenas ao nome do seu dono – e se isto não deixa qualquer um sem respiração.
Há ainda um paralelismo assustador entre os recorrentes momentos de brutalidade que pululam por toda a História da Humanidade e momentos da História recente: a ideia de civilizar os escravos através do trabalho.
A ideia de que o trabalho liberta infecta até hoje grande parte da sociedade ocidental e está, como se sabe, por detrás de um dos maiores genocídios da História. Assim, “Contos do Esquecimento” deixa a sua subtil reflexão sobre o presente, sobre o perigo do recrudescimento das ideologias de extrema direita, sobre os movimentos de migrantes para a Europa.
Se se reparar hoje nos inúmeros comentários que se espalham pelas redes sociais, muitas vezes de personagens, outras de pessoais reais, rapidamente se percebe que a cada argumento que não se consegue desmontar, há alguém que manda trabalhar o seu semelhante.
Este ideal esconde o verdadeiro motivo pelo qual o colonialismo, de mãos dadas com o capitalismo, é tão avesso à inactividade e à preguiça: o de que é possível sempre almejar que, havendo disponibilidade suficiente de cabeças, pode atingir-se o pleno trabalho pelo menor custo possível. Preferencialmente, nenhum custo, como aconteceu em inúmeros momentos da História.
“Contos do Esquecimento” existe para que não se esqueça e fá-lo de uma forma esteticamente profissional, o que aumenta exponencialmente o impacto das crueldades que vai expondo, com a respiração e ritmo certos. É como se houvesse um contraste imenso entre o que se vê e o que é realmente.
No final, paira no ar aquele sentimento que às vezes se tem quando inocentemente se observa a bruma, ali no Terreiro do Paço, em Lisboa, em alguns outonos tradicionais, e ainda se espera poder suspirar pela jornada magnífica dos portugueses pelo mundo quando, na verdade, fica apenas o amargo de boca que é perceber que foi essa grande empreitada que precipitou o mundo para o seu caos.


