Faz precisamente hoje 58 anos que morreu tragicamente um dos grandes ícones do cinema, James Dean. Foi a 30 de setembro de 1955 que se deu o trágico acidente de automóvel que tirou a vida ao jovem ator que era a promessa de Hollywood. Tinha 24 anos. Era o auge da sua carreira. James Dean teve uma das mais brilhantes e curtas carreiras da história do cinema, tendo protagonizado em três filmes. Nesses filmes e na sua vida, ele tornou-se um símbolo de rebeldia juvenil que expressa a si próprio numa combinação perturbadora de ternura e violência. Foi um enorme feito para quem fez apenas três filmes. Dean deu uma identidade aos jovens da sua geração.

Logo muito cedo teve uma infância agitada emocionalmente. O seu pai abandonou a quinta deixando Dean e a sua mãe sozinhos. Aos nove anos de idade Dean viu a sua mãe, de quem era bastante próximo, morrer de cancro. Esta era a única pessoa que o compreendia. A sua morte marcou-o para sempre. Mudou-se para casa dos tios e foi estudar Teatro na Universidade da Califórnia. No inicio dos anos 50 fez teatro na Broadway e pouco depois entra no mundo da televisão, tendo participado em séries e tele-filmes, o que lhe valeram boas críticas. Em 1951 ganhou o Tony Award de melhor ator do ano, com a peça “O Imoralista”.

Dean surge no cinema numa altura em que são descobertas novas estrelas de atores jovens. “Com a cultura juvenil a começar a infiltrar-se no cinema nos anos 50, era agora possível para os jovens identificarem-se com certas estrelas.”. Marlon Brando, por exemplo, já era um dessas estrelas quando Dean entra no mundo do cinema. “O que Brando e Dean fizeram foi atrair um novo tipo de jovens ao cinema – aqueles que preferiam os heróis mais inconformistas aos ídolos puros gerados pelos estúdios nos anos 30 e 40.”. 1955 é o ano de James Dean, que ficou famoso pelos seus únicos três filmes, “A Leste do Paraíso”, “Fúria de Viver” e “O Gigante”, todos feitos no ano da sua morte. Nos três filmes, Dean, interpretou sempre o papel de um adolescente problemático.

Dean trabalhou com grandes nomes do cinema americano da época, como Elizabeth Taylor, Rock Hudson, Sal Mineo, Natalie Wood e Dennis Hopper. Quase todos eles eram jovens e talentosos atores que viriam a fazer história no cinema. A atriz Ursula Andress, amiga de Dean, descreveu-o como “um animal selvagem”.

Para além de ser ator, Dean gostava muito de velocidade e corridas de carros. Essa sua paixão viria a custar-lhe a vida. Morreu demasiado cedo e foi sempre, tal como a personagem Jimmy, um jovem ‘rebelde’ que tinha vontade de ser amado e compreendido.

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A Leste do Paraíso, de Elia Kazan (1955)

Foi Elia Kazan que ‘descobriu’ James Dean em “A Leste do Paraíso”. Graças ao realizador greco-americano, que tinha um enorme respeito pelo trabalho dos atores, dando-lhes total liberdade para desenvolverem os seus papéis, usando “O Método” (fundado no Actos Studio pelo próprio Kazan), foi possível a Dean revelar-se de uma forma como nunca o tinha feito antes.

Baseado no romance de John Steinbeck, “A Leste do Paraíso” conta a história do jovem Cal Trask que lutava pelo afeto e atenção do pai, que preferia o irmão Aaron (o filho favorito). Dean lutava entre a reconciliação com o pai e o desejo de voltar para a sua mãe, que anos antes tinha abandonado a família para ir para um bordel. É a passagem da  fase da adolescência para a idade adulta, que Cal não consegue concretizar facilmente.

Percebe-se que este papel de Cal tenha sido muito importante para Dean, pois a falta da figura maternal é sentida por ambos. Dean sofreu sempre muito com a morte precoce da sua mãe, o que permitiu alguma preparação psicológica ao ator.

Este é um dos melhores filmes de Kazan, com uma excelente banda sonora composta por Leonard Rosenman e o primeiro grande impacto que Dean teve no grande ecrã.

Especial James Dean - Ternura & Violencia_2 Fúria de Viver, de Nicholas Ray (1955)

Este é um dos mais belos filmes de Nicholas Ray, e é o seu melhor estudo sobre o comportamento de adolescentes. “Fúria de Viver” é um dos mais emblemáticos filmes da era dourada do cinema americano, a década de 50.

Dean ficou imortalizado pela personagem Jim e pelas suas roupas, uma t-shirt branca, jeans e um blusão vermelho. Esta imagem tornou-se num símbolo de irreverência e rebeldia, que muitos jovens passaram a usar.

O filme narra a história de três adolescentes delinquentes, Jim, Judy e Plato que têm em comum a solidão, frustração e raiva que resultam de descenderem de famílias desequilibradas. Jim sente-se dividido entre a mãe dominadora e o pai fraco, incapaz de dar ao filho o modelo de segurança de que este precisa. Judy vive com o pai que não a compreende e Plato é o mais fraco elemento do trio, que foi abandonado pelos pais divorciados. Estas são personagens solitárias, cheias de raiva, fúria de viver, pois ninguém as compreende. Esta solidão advém do rompimento com um mundo que não lhes corresponde mais.

Este é sem dúvida o melhor desempenho de James Dean num filme e aquele que melhor reflecte a sua personalidade e vida. Jimmy assemelha-se bastante a James Dean. Vermos esta obra estamos a conhecer de perto quem foi Dean.

O mais estranho e triste deste trio de atores jovens é que todos morreram de forma violenta e pouco normal. “Dean morreu num acidente de viação, Mineo foi assassinado e Wood afogou-se em circunstâncias misteriosas.”.

Ao contrário do que acontece com muitos filmes sobre rebeldes adolescentes que foram feitos depois deste, este atribui a culpa aos pais e não aos adolescentes. Com interpretações soberbas do jovem elenco, argumento e realização dinâmica excelentes, “Fúria de Viver” é uma obra do cinema obrigatória.

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O Gigante, de George Stevens (1956)

Esta é a última participação cinematográfica de James Dean e termina de forma épica. Aliás, este é um western épico do realizador George Stevens, que tem de gigante em tudo. São mais de três horas de filme, numa imensa paisagem do oeste americano, com soberbas interpretações de um enorme elenco. Este é um filme consegue abordar de forma verdadeira e direta as diferenças entre classes e entre raças.

A história é sobre Leslie (Elizabeth Taylor) e Bick (Rock Hudson) que se casaram e vão para o Texas viver do trabalho do Rancho de Bick. Mas lá perto vive Jett (James Dean) , que se tornou num milionário ao encontrar um poço de peroleo nas suas terras, o que faz com que Jett seja um grande inimigo para Bick. Os anos passam e Jett continua milionário, mas alcoólico, rival de Leslie e Bick e solitário. Esta é uma produção arrojada de Hollywood que mostra a ascensão e a queda de várias gerações de famílias envolvidas na exploração do petróleo, mas sobretudo sobre as questões raciais, numa América ainda bastante racista e de sonhos não concretizados.

O Cinema 7ª Arte presta assim uma singela homenagem ao lembrar a vida e obra de James Dean. É um grande desafio descrever a complexidade da sua personalidade. Para muitos James Dean era um amigo, um herói, um ideal. O fascinante de Dean é que ele podia ser uma série de coisas para muita gente. Todos o veem de forma diferente. Isso é o que o torna numa figura tão interessante. A juventude passa por nós todos, mas para James Dean ela ficou agarrada a ele para sempre. Sobre o lema “Live fast, die young and leave a good-looking corpse!” (“Vive intensamente e morre jovem!”), Dean viveu literalmente este modo de vida.

“Os seus olhos estavam cheios de dor, sensibilidade e orgulho.”