O realizador Manuel Mozos (“4 Copas”, “Ruínas”) entrega-se a João Bénard da Costa, à sua vida e ao seu cinema. “João Bénard da Costa: Outros Amarão As Coisas Que Eu Amei” é um documentário que guia o espectador pelas imagens e memórias de um homem que foi uma das mais importantes figuras do cinema em Portugal. Crítico de cinema, ensaísta, ator e diretor da Cinemateca Portuguesa durante 18 anos, este filme é um excelente retrato sobre a sua vida e um luto da sua morte.

Através de uma série de textos que Bénard da Costa escreveu e publicou, que são narrados pelo filho do próprio (João Pedro Bénard), o filme reúne imagens de arquivo de lugares marcantes da vida do cinéfilo, de filmes onde entrou (“Espelho Mágico” de Manoel de Oliveira e “Combat d’Amour en Songe” de Raoul Ruiz) e de filmes que mais o marcaram (como “Johnny Guitar” de Nicholas Ray e “O Fantasma Apaixonado” de Joseph L. Mankiewicz).

Este não é um documentário biográfico convencional, com entrevistas e uma narração clara. O realizador optou por evocar o espirito de Bénard da Costa, o seu fantasma, que nos guia pelos lugares mais importantes da sua vida. Adoptando uma narrativa diferente, invulgar, Mozos filma belíssimos planos de igrejas, da cinemateca, da serra da Arrábida, de museus, de cinemas e de fotografias antigas de Bénard da Costa, com amigos e familiares. Todas estas imagens, memórias passadas ou presentes, são alternadas com excertos de sete clássicos do cinema: “The Shop Around the Corner” de Ernst Lubitsch, “O Fantasma Apaixonado” de Joseph L. Mankiewicz”, “Protrair of Jennie” de William Dieterle, “Johnny Guitar” de Nicholas Ray”, “A Palavra” de Carl Dreyer, “Bitter Victory” de Nicholas Ray” e “Gigi” de Vincente Minnelli.

Da fotografia à pintura, da literatura ao cinema. São tudo memórias que reflectem um passado de coisas que João Bénard da Costa amava e que outros amarão. O título do filme, “Outros Amarão As Coisas Que Eu Amei” tem origem num poema de Sophia de Mello Breyner, que nos remete para a morte. Pois é de morte que este filme nos fala, habitado por fantasmas e das suas memórias. “O Cinema gosta de fantasmas e o João Bénard da Costa também. Por isso aqui se fala do que foram os seus tempos passados, presentes e futuro – do que ele gostava de mundano, sagrado e profano.”. Mas fazendo a morte parte da vida, este é um filme que nos descreve, através do pensamento de Bénard da Costa, a sua forma de viver. Como disse o cinéfilo, “Fundamental é a vida. A vida continua sempre. É de vida que fala este filme de morte.”.

Diz-se que o cinema é como a vida em imagens em movimento. Assim é este filme, que toca em todas as fazes da vida, na família, nos amigos, nos sonhos, na adolescência, no amor, no desejo, na morte.

João Bénard da Costa: Outros Amarão As Coisas Que Eu Amei” é um filme que não encerra nada. Tudo fica em aberto e é dado um caminho para que depois se possa, se houver interesse no espectador, conhecer mais coisas que Bénard da Costa amava, seja na música, na literatura ou no cinema.

O filme de Mozos é a derradeira homenagem a um homem amado e também uma grande homenagem ao cinema. É de vida que fala este poético e belíssimo ‘filme de morte’. Este é um dos mais belos e interessantes filmes do ano que deve ser visto, no mínimo, por qualquer cinéfilo. Fica a saudade de quem teve a honra de o conhecer e conviver e fica a mágoa de quem nunca teve essa sorte. O fantasma de João Bénard da Costa sobrevive nos filmes que ele amava, sendo “Johnny Guitar” o seu favorito, a sua lenda.

Realização: Manuel Mozos

Argumento: Manuel Mozos

Elenco: João Bénard da Costa, João Pedro Bénard, Manuel Mozos

Portugal/2014 – Documentário

Sinopse: Uma homenagem ao cinema a pretexto da extraordinária vida de João Bénard da Costa, diretor da cinemateca portuguesa durante 18 anos mas também actor, cinéfilo, escritor inspirado e leitor criativo. Esta é uma inusual biografia que conta a vida do homem através dos seus amores, medos e contemplações, impressas na arte da pintura, do cinema e literatura. Da pintura barroca à literatura de Borges,é o diário de um homem universal.

«João Bénard da Costa: Outros Amarão As Coisas Que Eu Amei» - É de vida que fala este filme de morte.
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