Kelly Reichardt quer investigar a masculinidade dos seus cowboys

Kelly Reichardt estreia na competição da Berlinale com o seu belo e contemplativo “First Cow”, enquanto Philipe Garrel dececiona com a história do herói machista disfarçada de sátira emancipatória em “Le Sel Des Larmes”.

Na coletiva que se seguiu ao visionamento de First Cow, da heroína indie Kelly Reichardt, ao ser perguntada sua opinião sobre como jornalistas homens e jornalistas mulheres analisavam os seus filmes, Reichardt ficou muda. Pensou por alguns segundos, resmungou que ficou a imaginar se alguém lhe faria esta mesma pergunta caso fosse um homem e só depois é que finalizou a resposta, dizendo não saber o que dizer à jornalista.

A situação provocou um certo desconforto na realizadora, que não parecia, a princípio, estar muito interessada nas questões de gênero que o seu filme pudesse suscitar. Então, logo mais adiante, encerrou o assunto dizendo estar feliz por estar fazendo filmes “apesar do seu gênero”.

A reação de Reichardt serviu mais para baralhar, que explicar as intenções do seu novo filme. Afinal, foi ela própria a admitir querer fazer uma espécie de atualização do western; uma tentativa, feminina, de desconstruir um género que sempre pertenceu a um universo tão masculino.

A realizadora se disse interessada numa “investigação da masculinidade” ao decidir explorar de perto a relação dos seus dois protagonistas. O formato de imagem do filme, um quadrado em 4:3, aliás, não só tem a função de nos deixar mais íntimos deles, mas principalmente porque Reichardt queria evitar a todo custo os “beauty shots”. Segundo ela, um artifício que foi tão romantizado pelos homens realizadores dos western. Dito isso tudo, é mais que justo afirmar que a realizadora parece muito mais interessada em desmontar o arquétipo do “filme de homens” do que aparentemente quer fazer acreditar. Mas sim, o faz, e de uma forma de encher os olhos.

“First Cow” adapta parte do livro “The Half Life”, de Jonathan Raymond, que também assina coautoria do guião, e conta a história da amizade improvável entre dois homens completamente distintos, o cozinheiro Cookie (John Magaro) e o imigrante chinês King Lu (Orion Lee) no Oregon do final do século XIX.

Reichardt filma a relação dos dois de uma forma muito complexa e delicada, quase como se quisesse explorar uma tensão homoerótica entre os “cowboys”. Mas a tal amizade só se fortalece mesmo quando eles começam, na calada da noite, a roubar o leite da vaca do título para confecionar e vender bolinhos fritos durante o dia. Mas isso só acontece na segunda hora do filme, pois Reichardt vai filmando tudo com a calma e a desenvoltura que já se tornaram suas marcas principais. 

O filme de época de Reichardt é até agora a entrada mais interessante desta 70.ª competição em Berlim. Mesmo que não seja o seu melhor filme, posto ainda ocupado por “Night Moves”, é um dos filmes mais bonitos da sua filmografia. A obra também consolida o estilo Reichardtiano, contemplativo da natureza, consciente dos espaços e dos detalhes e faz lembrar muito os seus filmes anteriores, especialmente “Certain Women” e o belíssimo “Wendy & Lucy”

As políticas desatualizadas de Garrel

O terceiro dia do festival se seguiu com o filme do totem francês Philipe Garrel, o romance insosso Le Sel Des Larmes. Um filme um tanto anacrônico, que talvez fizesse algum sentido há 40 anos, mas que hoje parece estar com as suas políticas todas erradas.

O filme conta as desventuras de Luc (Logann Antuofermo), um womanizer para quem as mulheres não passam de medalhas decorativas, mérito das suas conquistas amorosas. Até que, um determinado dia, a voz em off nos avisa: ele finalmente conhece uma mulher “à sua altura”, Betsy (Souheila Yacoub). Ou seja, uma mulher à altura dos seus desejos sexuais, pois Betsy, ela também predadora, meio que obriga Luc a viver debaixo do mesmo teto com um terceiro homem, com quem ela confessa dormir junto de vez em quando, mas “só um pouquinho”.

É esta a emancipação (sexual?) que Garrel parece acreditar, recheando o seu filme de nus frontais das suas atrizes durante boa parte do filme. Vem à cabeça o tal do male gaze, de que tanto um outro realizador francês, Abdellatif Kechiche, é sempre acusado.  

Em tempos onde os ânimos dos identity politics estão cada vez mais sensíveis, causou certa estranheza o filme de Garrel estar entre a competição de um festival politizado como a Berlinale. O realizador, que é um dos nomes mais importantes da novelle vague, mencionou François Truffaut ao menos cinco vezes na coletiva para a imprensa, dizendo que queria homenageá-lo, buscando à memória os triângulos amororos da sua filmografia.
A citação, de fato, vê-se por todo lado, mas soa despropositada e não dá liga. E o que fica é a sensação de um realizador que se esforça mais do que o necessário para explicar um filme que, em 2020, não tem qualquer razão para existir.