Kubrick- Uma Odisseia Cinematográfica_1

Partimos então para a terceira parte do filme. E é nesta parte que os dois protagonistas do filme aparecem pela primeira vez, com quase uma hora de filme já passado. Dezoito meses depois do contacto dos humanos com o monólito na face lunar uma nave é enviada para Júpiter de modo a descobrir qual a origem do misterioso monólito e o porquê de este ter começado a enviar sinais de rádio nessa direção.

 

Mais uma vez o monólito está diretamente relacionado com um passo evolutivo da humanidade; se quatro milhões de anos antes foi depois do contacto dos primatas com o objeto negro que estes começaram a mostrar sinais de evolução, foi também agora depois do contacto com o monólito na Lua que o homem arriscou em ir até ao exterior do seu sistema solar em busca de respostas. Kubrick liga então a evolução humana a esta misteriosa presença mas sempre sem explicar se é mesmo o monólito que causa a nossa evolução ou qual o objetivo da sua presença e o porque da nossa evolução acontecer sempre de forma mais vincada quando entramos em contacto com este objeto. Os monólitos podem ainda ser comparados a uma espécie de check-point, locais onde a humanidade deve passar para poder chegar ao seu destino.

 

Mas, é nesta terceira parte que os protagonistas do filme são apresentados ao espectador. O primeiro, Dave Bowman, humano, elemento de uma equipa de cinco astronautas a caminho de Jupiter. Dave é um dos apenas dois elementos da equipa que estão acordados durante a viagem, sendo que os outros três estão num estado de Hibernação induzida. O segundo elemento é HAL-9000, o super-computador responsável pelo funcionamento da nave Discovery One que se auto-intitula “infalível”. A partir daqui temos a oportunidade de ver mais de perto a interação entre os astronautas e o computador HAL, que, de certeza que não sendo por acaso, são apresentados quase como que com as personalidades trocadas. Dave e Frank, os tripulantes conscientes da nave preenchem os seus dias com pequenas rotinas desinteressantes e repetitivas (comem, exercitam-se, examinam a nave, passam tempo debaixo luzes de raios UVA, etc) e não mostram, principalmente Dave, qualquer tipo de profundidade emocional, ao contrário de HAL que mesmo sendo um computador vai mostrando curiosidade (quando pergunta a Dave sobre os verdadeiros motivos da missão a Jupiter) orgulho (quando se recusa a aceitar que cometeu um erro) e acima de tudo mostra uma grande ambição em acabar a missão custe o que que custar, chegando mesmo a matar Frank e a mentir a Dave, coisas que máquina alguma seria capaz de fazer. Kubrick vai ainda mais longe e mostra HAL a dar sinais de medo quando Dave se prepara para o desligar. E Kubrick não fez isto por acaso; há aqui um claro paralelismo com a situação em que os primatas depois de descobrirem os poderes letais que podem ter com um osso, atacando a tribo rival de forma a conquistar o território e o poder. HAL tenta fazer aqui o mesmo, revoltando-se contra o seu criador, o Homem, de modo a obter o controlo total da missão.

 

Dave e Hall, Homem e Máquina, Criador e Ferramenta têm então o derradeiro confronto. E embora HAL tenha a vantagem, tem também o grande defeito que o Homem tinha e que lhe permitiu chegar a esta situação: excesso de confiança. esse excesso de confiança fez com que HAL não contasse com a maior das qualidades do Homem: o engenho; a capacidade de improvisar e resolver problemas; capacidade então que permite a Dave derrotar o super computador com a mais simples de todas as ferramentas: uma chave de fendas.

 

O momento da destruição de HAL é sem duvida o momento capital de todo o filme. Destruindo o computador, Dave consegue reaver o poder e acima de tudo reencontrar-se com as qualidades humanas que fazem dele e da sua espécie a espécie dominante do seu planeta. Depois de desligar HAL, é iniciada uma mensagem video que explica a Dave o verdadeiro motivo da ida a Jupiter e a existência dos monólitos.

 

A terceira parte de “2001…” para além de ser marcada pela apresentação do seu principal conflito é ainda marcada pela enorme mudança que se dá a nível atmosférico. A banda sonora, elemento de extrema importância do filme, abandona o lado épico da musica clássica um conteúdo mais intimista que consiste na utilização da respiração das personagens e na utilização do próprio silêncio, isto claro com o intuito de dar ainda mais força ás imagens, objetivo obviamente mais que cumprido. Chega a ser quase aterrador o constante som da respiração de Dave e de Frank quando eles saem fora da Discovery One; a tensão criada pelo som e pelo vasto oceano negro que é o Espaço, cujo silêncio consegue ser tão eficaz como um grito de desespero. A forma como é filmado todo o interior da nave é pioneiro, sendo que ainda hoje é raro ver filmes a ser filmados da forma que Kubrick filmou o seu “2001 – Odisseia no Espaço”. Desde a utilização de pontos de fuga para dar um maior sentido de profundidade á criação de todo um cenário feito á escala real, capaz de girar sobre um eixo de forma a simular a constante rotação da nave no Espaço.

 

Mas é a parte final onde se encontra a essência do filme. “Jupiter e para lá do infinito” é o nome desta sequência onde finalmente vemos o Homem a chegar ao seu destino, Jupiter, onde encontra mais um monólito, o terceiro e o derradeiro monólito. Dave sai da nave Discovery One numa outra nave mais pequena e aproxima-se o objeto negro. Novamente é uma ação do filme que demora os seus minutos a decorrer e onde a estranha música/gemido se volta a repetir tal como nas duas vezes anteriores. Os planetas do sistema solão são mostrados todos alinhados, como que fazendo parte de um ritual ao qual Dave chegou mesmo a tempo. E no momento em que este se aproxima do objeto negro Dave é puxado e levado numa viajem até a outra ponta do universo numa viagem que tem tanto de visionária como de psicadélica onde o astronauta passa por mundos alienígenas e acaba por ir parar a um quarto de aspecto vitoriano. E nesse quarto encontra-se o próprio Dave. Ele fica a observar-se a si próprio a envelhecer naquele quarto, uma espécie de quarta dimensão, ou mesmo uma bizarra camara cerimonial onde este pode preparar a sua mutação de Homem para Ser-das-Estrelas. Mutação essa dada passo-a-passo, onde Dave começa primeiro como astronauta, vendo-se a si um pouco mais velho, passando a ser esse “eu” mais velho, e indo mudando para outro “eu” mais velho até se encontrar sentado á mesa, naquela que é a sua ultima ceia. Durante a refeição um copo de vidro é partido acidentalmente, ficando destruído e espalhando o seu conteúdo pelo chão, simbolizando talvez a agora inutilidade para o seu corpo (que está para a mente como o copo para o liquido?). Claro está que quando no seu leito de morte Dave vê na á sua frente mais um monólito negro. Dave estica o braço na direção do Monólito, da mesma forma que Miguel Angelo representou Deus e Adão no teto da capela Sistina e então eis que Dave se transforma num feto de luz. O filme acaba com o feto a flutuar no espaço e a olhar para o planeta Terra.

 

O lado simbólico é muito importante nos filmes de Kubrick e este não é exceção. tudo neste filme pode ser interpretado como parte de um significado maior, uma mensagem subliminar que Kubrick nos tenta passar, ainda que só a recebamos inconscientemente. A já referida comparação entre osso e nave espacial, duas coisas que em tempos diferentes foram o pico máximo da tecnologia, e já agora, a também flutuante caneta, substituta da arma como objeto de conquista de impérios. Temos uma estação espacial onde no interior se pode lêr “Hilton”, uma referencia á famosa cadeia de hotéis que não lhe bastando espalhar-se pelo mundo ainda se atira para além dele bem como uma nave da Pan-Am, uma empresa ligada a viagens aéreas nos Estados Unidos da América. Também no tópico das naves, é impossível não notar a forma fálica da Discovery One, a nave comandada por HAL 9000 que leva Dave e a restante tripulação (ou pelo menos, os seus cadáveres) até Jupiter, ou pelo menos, senão uma forma fálica, pelo menos uma forma que relembra um espermatozóide a encaminhar-se até ao óvulo (que será neste caso Jupiter) e de onde um novo ser irá nascer (o feto do plano final). O astronauta que corre na nave que por sua vez gira como a roda de um hamster preso na sua gaiola, isolado, neste caso da sua familia, por exemplo o cientista que faz uma video-chamada á filha, dizendo que vai estar ausente no seu aniversário e o astronauta que recebe um video dos seus pais a desejar-lhe os parabéns enquanto este não esboça qualquer tipo de sentimento. A alegoria da roda de Hamster aliás que no filme se comprova acertada á medida que se vai apercebendo que quem controla a nave é HAL e não os humanos que por sua vez se mostram bastante “desumanos” e despidos de sentimentos. Isto é aliás curioso quando se vai buscar a ideia de Apolinio vs Dionisíaco apresentada por Nietzsche, autor a quem este filme vai beber bastantes influências; O Homem, nascendo claramente como uma criatura tendenciosamente Dionisíaca, evolui ao longo dos anos tentando ser totalmente Apolinio, dando apenas ouvidos ao seu lado racional, controlado e científico e que acaba por perder a sua essência, a sua força animal instintiva que o torna num ser tão especial e capaz, enquanto que a sua criação, HAL, uma entidade que deveria ser totalmente Apolínia (ou não fosse ele um computador) consegue mostrar uns rasgos Dionisiacos, principalmente nos seus momentos finais onde demonstra medo e chega a cantar uma canção. Outra referencia a Nietzsche, ainda mais evidente que a anterior é a referencia ao seu livro “Assim falou Zarathustra” através da musica de mesmo nome do compositor Richard Strauss; Nietzsche defende a ideia de que o Homem está em fase de transição evolutiva, que começou como primata e acabará quando este chegar ao estado de Super-Homem. “2001…” passa essa mensagem, mostrando a total evolução da humanidade desde raça animal primitiva a superior Ser-das-Estrelas, ultrapassando os obstáculos criados não só pela natureza como também vencendo-se a si própria. É quase como um processo alquímico onde o homem morre para poder renascer como criatura superior, representada pelo feto no plano final do filme, que em conjunto também com a música volta a reverter para o conceito de um final que é também um inicio; inicio de uma nova fase, de uma nova vida, possivelmente uma vida como uma criatura superior e perfeita.

 

Fontes:

“1001 Filmes para ver antes de morrer”, de Steven Jay Schneider, Dinalivro, terceira edição, Junho de 2007;

“Guias Essenciais – Cinema”, de Ronald Bergan, edições Civilização, 2008;

“Colecção Grandes Realizadores – Stanely Kunrick”, de Bill Krohn, 22o volume, Cahiers du Cinema, Público, 2008;

“Kubrick”, de Enrico Ghezzi, Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema, Novembro de 2003;

“Stanley Kubrick”, de Pierre Giuliani, Horizonte de Cinema, no18, Abril 1992;

“The Making Of – 2001: A Space Odyssey”, de Stephanie Schwan, Martin Scorsese series editor, The Modern Library (New York), 2000; 

www.kubrick2001.com

 

Artigo escrito por: Eduardo Magueta e Tiago Resende