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“Minari” – A Terra Brotante

O impulso de ida, de movimento e procura do algo que seja positivo, na grande expansão que é o país-economia, manifesta-se, neste “Minari”, e como em tantos outros filmes americanos – embora este seja um que se pretende cosmopolita, apesar da sua radicação no interior da terra continental – pela viagem esperançosa e pela estrada que se vai conhecendo por cada metro que se vai percorrendo. Ao som de uma melodia indutora de positividade que afirma a possibilidade de uma vida melhor, vai-se desfiando uma paisagem rural, afastada de qualquer centralidade urbana, cada vez mais se adentrando no mais profundo da terra.

A terra, tema visual e tema próprio do filme, surge aqui também como fisicalidade e como valor fundamental, de uma forma bem diversa à de um outro filme, Nomadland, eles que são dois filmes de um mesmo tempo, em reflexão acerca dos tempos contrários, dos olhares opostos e das ações diferentes. Entre o 1983 de Minari e o pós-2010 de Nomadland há toda uma diferença de postura: no que o primeiro tem de positivo, na procura da terra e do seu uso para nela produzir, já Nomadland afirma o contrário, a terra que foge de si mesma, que não se predispõe à ou é utilizada para a produção. Se “Minari” é então sobre a produção e só com dificuldade se consegue conectar ao comércio – são tantas as dificuldades experienciada por Jacob Yi (Steven Yeun) em conseguir distribuir os seus produtos agrícolas – já Nomadland é sobre a falta de produção e o comércio virtual dos bens pós-produzidos. Se ambos falam da mesma e importante coisa – a terra – fazem-no, no entanto, através de duas lentes muito opostas: o fazer para o justo comerciar (“Minari”) e o só vender (“Nomadland”). Se o nomadismo da procura de trabalho sazonal manifesta o vácuo produtivo que está no cerne de “Nomadland”, é já a procura do assento e do assimilar-se à terra e à comunidade que energiza e positiva “Minari”. Por fim, e como metaforização da visualidade que afirma uma diferença total, é a quentura geral de “Minari” contra a frialdade geral de “Nomadland” que mais ainda postulam a ideia de contemporaneidades antípodas que são o resultado, a decadência e a negação de umas para as outras e que decaem e deslizam, numa (des)progressão problemática, nas economias e sociedades contemporâneas avançadas, de “Minari” a “Nomadland”, da terra brotante à terra fugidia.

Mas “Minari” é um exercício nostálgico e a rememoração do ensejo individual (que se expande para o familiar) de viver da terra, de a fertilizar, de a ver brotar, de a ver fazer-se razão de si mesma, de a deixar produzir. A força de Jacob é a ideia de um projeto tão positivo no seu propósito quanto temerário e impossível de ser visto nos tempos de hoje: tem um bom fim, é desenhado e cumprido para gerar riqueza real (não virtual) que seja palpável e colocada num sistema virtuoso de acréscimo de valor. Ele propõe-se a produzir vegetais típicos da Coreia para poder vendê-los aos comerciantes coreanos e para que estes os coloquem à disposição de todos os outros – como ele – emigrantes de origem coreana que estão radicados nos Estados Unidos da América. Pretende ele entrar na linha do comércio, mas uma de claro pendor e efetivação virtuosa (bem diferente do comércio virtual do improdutivo de “Nomadland”). Um produtor individual da terra e na terra, tão opostamente colocado em relação às gigantescas corporações do grande comércio financeiro atual, do virtual e no virtual.

O assento na terra é também a história de um assentar de uma família e é em torno desse tema – a Família – que Lee Isaac Chung constrói a emotividade e a candura deste “Minari”. Mesmo no mais esperançoso dos projetos de vida, as dificuldades surgem e testam a vontade individual e o tecido familiar. Mas é a rede essencial, a família, que se subjaz enquanto a fomentadora da possibilidade nutritiva: só se alimentam as relações entre seres pelo amor, tal como a água nutre a terra. Se Jacob quis ir para o interior, já a sua esposa, Monica Yi (Han Ye-Ri) não parece estar tão certa dessa decisão e até se mostra desencantada e contrariada com a casa e a propriedade (não cultivada) que o marido comprou. É ela que logo diz para que não se desempacotem todos os caixotes, pois ali não ficarão muito tempo. A discussão entre o casal, por entre o seu gritar e o bater na mesa, é forma de negociação e é regime de compromisso: de modo a manterem ambos os seus empregos e terem alguém para tomar conta dos filhos durante o dia, mandam vir da Coreia (do Sul) a mãe de Monica, Soon-Ja (Youn Yuh- Jung). O filme passa a ser duplamente visto pelos olhos de uma amizade (im)provável: a entre a Avó e o seu neto David Yi (Alan Kim). Ela que não parece nada uma avó (gosta de jogar cartas com vigor trapaceiro, é socialmente despropositada e sem medo de fazer uso de um certo vernáculo na linguagem) e ele que não pode correr devido à sua condição cardíaca, mas que é de uma inteligência e sensibilidade cândidas, encetam uma luta de afetos (e de aparentes desafetos): ela aproxima-se e ele afasta-se, sem nunca realmente o fazer, pois esse afastamento birrento é que mais afirma o crescente carinho que vai desenvolvendo pela sua inortodoxa avó. Uma cena tão clara disso mesmo é a que os junta à irmã mais velha de David, Anne Yi (Noel Kate Cho): na estranheza do relacionamento e da procura de modos de o encetar positivamente, há esse belíssimo gesto de dificuldade, o de abrir uma banana – e não se sabe se é personagem David ou o ator Alan que tem esse grande esforço para a descascar – enquanto a avó vai avançando e pedindo do que ele se prepara para comer. Pequenas birras e carinhos desvelados. Do mesmo modo, o passeio até ao riacho, por entre espaços desconhecidos (e pelos olhos de David, perigosos) é a conversação peripatética, o ensinamento de vida, a codificação da construção/plantação metafórica: o minari titular que ali se semeará é a resiliência do assentar e fazer brotar, na terra como na família, a nutrição que é alimento de si mesma.

Acreditar é fazer, amor é juntar, continuar é fortalecer. Apesar dos infortúnios, do poço de água que seca, do cliente que decide, à última da hora, não distribuir os legumes que Jacob e o seu ajudante Paul (Will Patton) tão laboriosamente fizeram crescer, da trombose da Avó, do quase divórcio do casal Yi, do fogo que destrói o armazém do vegetais (e logo quando um outro acordo de distribuição havia sido firmado), a família persiste. Começará de novo, um outro poço aquífero é procurado e sobre ele um pedra é deixada assente, para sobre aquela terra se cultivar e dela novo se fazer brotar.

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