Tudo indica que pelo segundo ano consecutivo o Festival de Cannes não vai ter qualquer filme produzido pela plataforma de streaming.

Helen Mirren, a aclamada atriz britânica, não tem dúvidas: não há nada como sentarmo-nos no cinema quando as luzes se apagam, em defesa de um cinema nas salas.

Decerto, este é um momento de mudança, ou de tentativa de regular essa mudança e de adaptação. As mentalidades têm de estar abertas e o pensamento flexível ao ponto de abraçarmos o que de melhor podemos tirar da universalidade que a Netflix oferece. A capacidade de expandir o conteúdo a uma maior escala, a possibilidade de dar ao mundo uma maior (e, sem dúvida, boa) fonte de riqueza intelectual, torna a Netflix, indiscutivelmente, um desenvolvimento tecnológico admirável.

Se quisermos fazer um paralelismo com os livros, o facto de hoje em dia haver uma facilidade enorme de encontrarmos os livros que quisermos online, para muita gente pode porventura matar a essência da leitura, que se quer em papel, o contacto com a obra física – da qual, atenção, sou defensor –, não invalida que, numa perspectiva global, não tenha coisas indubitavelmente boas. Cabe a cada um fazer o devido uso, na sua subjectividade e individualidade, daquilo que temos à disposição. Não podemos colocarmos para sempre na backstage, com medo de que o Homem faça um mau uso da evolução, natural, das coisas.

Apreciemos o cinema como um todo, e não nos centremos na superficialidade de algo que, se exponência a evolução intelectual do Homem, deve merecer o nosso apreço. Assistimos, com ironia e com humor, a uma Netflix, do ponto de vista das altas instâncias e corporações, cada vez menos mainstream.