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“Nope”, quando a obediência é uma farsa

Antes de “Nope” Jordan Peele já tinha deixado suficientes pistas nos seus dois primeiros filmes de que tinha quilómetros de imaginação até os seus fãs (e até críticos) se cansarem dele. “Nope” vem consolidar ainda mais essa posição, com a agravante de conseguir ser tão diferente quanto tecnicamente melhor que os seus antecessores.

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OJ Haywood (Daniel Kaluuya) e Emerald Haywood (Keke Palmer)

Seria de esperar, com outro realizador, que a quantidade de temas e direcções tomadas em “Nope” poderiam tornar esta terceira opus uma confusão demoníaca, mas, pelo contrário, apenas adiciona uma enorme quantidade de razões pelas quais gostar do filme.

Peele não abandonou o mistério, antes porém o intensificou sem nunca abdicar das suas imagens de marca, o humor ácido, a ironia, a crítica social, a crítica ao próprio cinema, que em “Nope” é uma das pedras angulares e um tema que a espaços surge por entre o foco dado ao papel dos negros na História dos Estados Unidos.

Se “Nope” parece menos exuberante ou in your face que “Foge” ou “Nós” tratam-se apenas de aparências ou a depuração estilística de Peele na tentativa de percorrer os trilhos da recente ficção científica a roçar o horror psicológico, mais voltada para dentro do que propriamente olhando para fora, para os extraterrestres.

Aqui, os extraterrestres são os humanos e há um momento particularmente importante, mais para o final, que sela em definitivo essa visão: uma alusão ao E.T. e ao famoso gesto, em que o gesto é interrompido pela realidade (arriscando-se mesmo pela realidade americana actual), aquela coisa aborrecida que o director de fotografia Antlers Holst (Michael Wincott) abomina.

Jordan Peele é, de facto, tanto inteligente e estratégico como uma grande peça de entretenimento, não perdendo de vista a ideia de que o cinema é diversão e, por isso, traçou um filme que se inspira em parte na tradição dos grandes êxitos dos anos 80 e 90, mas subvertendo muitas das regras a que aquele tipo de cinema se encontrava apegado.

Para além disso, ainda aproveita para subverter a ideia do oeste selvagem e dos cowboys, colocando toda a gente menos o homem branco nesse papel. É que os vaqueiros aqui são todos aqueles que não são bem-vindos na América trumpificada e até as mulheres têm direito a usar chapéu.

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Ricky ‘Jupe’ Park (Steven Yeun)

É simbólico ainda que OJ Haywood (Daniel Kaluuya) e Emerald Haywood (Keke Palmer), irmãos no filme e ambos com excelentes papéis, descubram finalmente qual é o segredo da sobrevivência dos negros no filme: caminhar com a cabeça baixa e não encarar ninguém nos olhos, especialmente se for branco.

Peele é um belo mestre que mergulha a profundidades a que poucos se atrevem sem nunca comprometer a estrutura do filme ou esquecer, por exemplo, efeitos técnicos e sonoros que colocam “Nope” na vanguarda da nova ficção científica, aquela que já não precisa valores astronómicos para conseguir o seu efeito porque vive perfeitamente de boas ideias.

No meio do entretenimento e de um filme que nunca pára ao longo de mais de duas horas, há momentos de enorme seriedade, como o sangue que jorra sobre a casa de OJ e Emerald, uma elegia aos verdadeiros tempos negros desta América do espectáculo, a fazer lembrar os serenos lares dos donos das plantações e toda a crueldade que encerram.

“Nope” é também incrivelmente crítico para com as novas tecnologias e o modo como tanto se foca na imagem, em captar o momento, mesmo quando um dos personagens do filme está prestes a perder a vida. Holst, o homem que filma em película com máquinas que não ficam sem bateria, é o derradeiro artista, aquele que dedica o sacrifício ao “verdadeiro” cinema, não digital, em nome da imagem impossível, o grande esteta, quase um profeta que ascende ao topo do monte para atingir o zénite filosófico.

Conhecendo-se Peele, aquele director de fotografia tanto pode ser uma homenagem como um enorme piscar de olhos irónico aos puristas do cinema, quando ele próprio se dedica veementemente a transformar o cinema americano umbiguista e corporativo numa porta de entrada democrática a quem está normalmente impedido de nela participar.

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Michael Wincott (Antlers Holst)

Por isso, em “Nope” os negros não são os sacrificados ou os primeiros a morrer, como tanto acontece no terror clássico, porque são os protagonistas. Mais, são quem tem direito cavalgar o cavalo no horizonte, por entre as brumas do futuro próximo.

“Nope” é um daqueles filmes que, provavelmente, vai mostrar sempre mais do que na primeira visualização e é tanto uma grande homenagem aos grandes mestres como um filme independente, curioso, com uma belíssima fotografia (ou não fosse Hoyte Van Hoytema o director de fotografia, o preferido de Christopher Nolan), belíssimos efeitos sonoros, a visão simples, mas não simplista de Peele para o cinema.

Porque em “Nope” os temas fracturantes não desapareceram, eles estão lá todos como antes, mas se normalmente o espectador não estiver habituado a olhar para cima, directamente nos olhos da besta, é possível que encontre apenas diversão e nem se aperceba dos traumas ainda por ultrapassar. O olhar aqui é o mesmo que em “Foge” ou “Nós”, mas o modo como Peele se afasta das suas fórmulas e se recria tem sido, até agora, uma deliciosa viagem de acutilante imaginação e inteligência.

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“Nope”, quando a obediência é uma farsa
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