“O Ano Novo que Nunca Foi” – O feitiço da História!

“O Ano Novo que Nunca Foi” estreia agora nas nossas salas, após ser exibido na competição do LEFFEST do ano passado
O Ano Novo que Nunca Foi O Ano Novo que Nunca Foi
"O Ano Novo que Nunca Foi" (2024), de Bogdan Mureșanu

Numa altura em que a Roménia pode estar à beira de eleger um presidente nacionalista e de extrema-direita, assumidamente, contra o apoio à Ucrânia e cético da União Europeia, eis que estreia entre nós uma espécie de reverso ou feitiço da memória, refletindo a transição da ditadura assassina de Niculae Ceausescu para a democracia, naquele dezembro de 1989, que ficaria conhecido como a Revolução do Natal. “O Ano Novo que Nunca Foi” estreia agora nas nossa salas, depois ter sido exibido em competição na edição do ano passado no LEFFEST e é realizado por Bogdan Muresanu, de 50 anos, nascido precisamente no verão ‘quente’ de 1974.

Já nos vamos habituando (e bem!) a responder favoravelmente às propostas do cinema romeno. Talvez pela simples razão de que abraçaram o registo de uma geração que deu à luz uma pequena vanguarda romena. Depois, de Cristian Mungiu, Cristi Puiu ou Radu Jude, para citar apenas os nomes mais recentes do mais endiabrado cinema romeno, acrescenta-se agora o do jovem Muresanu que deixa aqui uma vigorosa pegada cinematográfica. Ele que foi vencedor do prémio de melhor filme, na secção Orizontti, no festival de Veneza, além de conquistar o prémio FIPRESCI, da crítica internacional.

Além da curiosidade identificada com este ‘voltar atrás’ da História, um outro detalhe diz até respeito ao próprio filme. Isto porque “O Ano Novo que Nunca Foi” teve um nascimento anterior. Mais concretamente na curta anterior de Bogdan, Christmas Gift”, de 2018, sobre a conversa cândida em pai e filho, nas vésperas de Natal, onde este vai relata fielmente a carta (embaraçante para o pai) que escreveu ao Pai Natal. Essa é mesmo uma das sequências-chave desta variante de filme-mosaico, em que as seis personagens do cartaz evoluem num crescendo em tom asfixiante, ao som do Bolero de Ravel, que culmina no tal Natal de 1989 que nunca foi – pelo menos para Nicolae Ceausescu.

Vamos então ao esse final de 1989, que será selado com uma ‘revolução transmitida em direto’. São um pouco esses os bastidores deste especial de televisão onde o destino destes romenos de diferentes gerações fica de alguma forma em suspenso nesse ano ‘novo que nunca chegou’. Muresanu capta então essa ‘normalidade’ que parece estar premeditada para o seu fim – tal como em 1974! – embora dominada pela ética infantil de uma criança dominada pela verdade. E acabará por esse (literalmente) o rastilho para despoletar o disparo dos tumultos diante do líder. Não deixa de ser curioso, o facto de ter visto “O Ano Novo que Nunca Foi”, precisamente um dos depois de “Pai Nosso – Os Últimos Dias de Salazar”, de José Filipe Costa, na competição nacional do festival IndieLisboa. Lá está, é o feitiço da História!

O Ano Novo que Nunca Foi
“O Ano Novo que Nunca Foi” – O feitiço da História!
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